“Consegui tornar-me o tipo de líder que eu própria admirava”

Com mais de 30 anos de experiência no turismo e hotelaria, Teresa Frazão, General Manager, construiu uma carreira marcada pela resiliência, liderança humana e a superação de barreiras de género, transformando desafios em oportunidades de sucesso.

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A história profissional de Teresa Frazão começa, como a própria diz, “de forma um pouco estranha”. Fugiu dos números, escolheu Humanidades e mais tarde Turismo, certa, desde cedo, de que queria trabalhar com pessoas. O que não imaginava era que a hotelaria — área que inicialmente rejeitou — acabaria por ser o seu lugar. Aos 22 anos, entrou para a receção do Ipanema Porto, onde era a única mulher numa equipa masculina e experiente. “Foi a minha primeira grande escola. Aprendi ali o que era ‘jogo de cintura’ e comecei a desenvolver a parte humana da liderança”.

Nos anos seguintes, a gestora enfrentou estruturas frágeis, contratos instáveis e a resistência silenciosa que tantas mulheres conheceram antes. Em cruzeiros fluviais, assumiu responsabilidades de direção sem nunca lhe atribuírem o título. “A minha liderança começou a afirmar-se quando estabeleci limites. Aos poucos fui assumindo controlo dos programas de terra, das reservas e da coordenação com os diretores de bordo. Sem dar por isso, todas as sextas-feiras lá estava eu no Cais de Gaia, a visitar os navios, a falar com as equipas”. Foi aí que percebeu que o sucesso na hotelaria depende do equilíbrio entre cuidar da equipa e satisfazer o hóspede. “A hotelaria é uma indústria de pessoas para pessoas. Temos dois clientes – a equipa e o hóspede – e nada funciona se a equipa bloquear. Qualquer cliente percebe quando a equipa está bem ou mal”.

De projeto em projeto, foi abrindo caminhos, reconstruindo processos, enfrentando resistências e gerindo equipas numerosas. Mas também enfrentou estigmas: “Ser mulher, ter mais de 40 anos e ter um currículo forte ainda assusta muita gente”. No último projeto que liderou encontrou talvez o maior desafio: formar equipas quase do zero. A resposta veio com a liderança que a define: ensinar, delegar, acompanhar, dar autonomia e retirar quando necessário. “Consegui tornar-me o tipo de líder que eu própria admirava. Não acredito na liderança autoritária nem na liderança pelo medo. Acredito na liderança pelo respeito: eu respeito-os e eles respeitam-me”, realça.

Para Teresa, o futuro continua a desenhar-se dentro da hotelaria, mas sem perder de vista o equilíbrio: “Gosto de ser a diretora que sai do gabinete, que está na operação. Se eu não sair para ver como está a correr o pequeno-almoço, o jantar, ou perceber como está a funcionar a receção, não consigo avaliar se o serviço prestado é o desejado”. O ‘bichinho’ da hotelaria mantém-se, porque é no contacto direto com equipas e hóspedes que encontra sentido. “Cada vez mais, os clientes procuram experiências que consigam replicar em casa. Se não adaptar a operação ao que o cliente procura, não estou a fazer o meu trabalho”.

Quando olha para trás, ou para a jovem Teresa que entrou no Ipanema, deixa-lhe uma mensagem: “aproveita todas as experiências, tira o bom e o mau de cada uma. Resiste, não desistas e arrisca sempre que fizer sentido. Acima de tudo, never look back — fecha a porta, lambe as feridas e segue em frente. Porque, acredita, somos o conjunto das experiências que vivemos”.

Deste modo, Teresa Frazão é a prova viva de que, no mundo da hotelaria, a liderança feminina se constrói com coragem, perseverança e uma visão humana do trabalho. Uma história de sucesso que inspira e desafia os estigmas do passado, mostrando que o futuro pode ser moldado por quem não tem medo de arriscar e de liderar pelo exemplo.