Construção civil: o necessário salto evolutivo

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É sabido que o setor da construção se apresenta como bastante conservador, com ciclos extremamente longos de renovação. Soluções e métodos construtivos prevalecem durante décadas, registando apenas ligeiras evoluções ao nível de algum componente, equipamento e/ou material, que permitem melhorar a qualidade e aumentar a produtividade, mas nunca apresentando saltos evolutivos que resultem de alterações disruptivas. As poucas inovações reais que foram oferecidas ao mercado tiveram sempre pouca recetividade, acabando por ser abandonadas. Na verdade, em termos de conceitos, metodologias e materiais, na sua essência pouco mudou no último século. A inércia à evolução neste setor é transversal a todos os países, embora tenhamos vários subníveis quanto a esta situação.

Se olharmos para todos os outros setores de atividade e analisarmos a evolução dos mesmos, constatamos que evoluem a um ritmo incrivelmente mais rápido, com ciclos de renovação cada vez mais disruptivos e curtos. O atraso deste setor não é apenas em termos da sua velocidade de transformação, é também (consequência deste) em termos de estágio de desenvolvimento, apresentando-se deveras atrasado, a todos os níveis. Este facto não é admissível num setor considerado motor da economia. A escala e importância do mesmo exige que este esteja a um nível de desenvolvimento e de modernização bem mais avançado.

Alguns aspetos particulares da problemática:

  • A multiplicidade de atividades, intervenções e as interdependências conflituantes fazem da construção civil uma indústria demasiado complexa e muito pouco produtiva;
  • Não faz sentido que, em obra, se produzam materiais e se realizem tarefas de execução. A busca da produtividade e economia, bem como da qualidade, exige que a produção se faça em fábrica e que em obra apenas se efetuem montagens de menor complexidade. A existência de um extremamente elevado número de ações desenvolvidas em obra, com níveis muito menores de controlo, eficácia e previsibilidade do que em fábrica, potenciam ainda erros e acidentes, para além do enorme impacto provocado nas imediações da obra, durante o período de construção;
  • Já lá vão quase dois séculos desde que a solução de combinar o betão (usado na construção há dois milénios) com o aço é utilizada, e mesmo com o seu fabrico a exigir que diversas tarefas sejam realizadas, por diferentes intervenientes, in situ (conduzindo a um produto final de qualidade e comportamento com elevado grau de incerteza), o mesmo permanece ainda como o material base das estruturas;
  • O setor da construção civil precisa ainda de minimizar significativamente o impacto que provoca no Meio Ambiente. Em resumo, podemos dizer que cada obra é, literalmente, uma fábrica que se monta para fazer um único produto uma única vez, após o que a mesma é desmontada, contrariando, assim, quase todos os princípios de gestão e rentabilidade pelos quais se regem os restantes setores e atividades económicas.

Embora a degradação do setor da construção, em Portugal, que levou ao desaparecimento das suas principais empresas, não ofereça o melhor enquadramento para a evolução necessária, esta é inevitável e acontecerá, durante esta década, provavelmente a reboque da transformação que nos chegará de outras paragens.

O salto evolutivo necessário na construção civil não se restringe à construção. A Engenharia de projeto tem igualmente um desafio urgente de ajustamento às exigências e desafios dos novos tempos. Na verdade, as empresas de Engenharia consultiva terão de se reinventar, tirando partido de todo o potencial das novas tecnologias e ajustando o seu papel/posicionamento nos processos de investimento, para que possam ser elas as motoras deste salto evolutivo que o setor necessita.

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