Desenvolver territórios é valorizar pessoas, identidade e futuro

Para Isabel Malheiro Araújo, o país precisa de apostar num modelo de desenvolvimento que coloque as pessoas, os recursos locais e a identidade dos territórios no centro das decisões.

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O que falta a Portugal para valorizar a identidade, o talento local e a coesão territorial no desenvolvimento regional, em vez de se focar apenas em números?
O que continua a faltar não são apenas mais recursos ou indicadores. Falta, sobretudo, uma mudança de perspetiva, que permita sentir os territórios com o valor e o respeito que merecem!

Durante décadas, o desenvolvimento regional foi avaliado, sobretudo, através de métricas quantitativas que, embora relevantes, não refletem toda a realidade. Um território não é apenas uma unidade estatística, é uma comunidade com identidade, conhecimento secular associado ao património natural e cultural e ambições próprias. Por isso, é essencial reconhecer que o talento existe tanto no interior como nas grandes cidades.

A coesão territorial não se constrói apenas distribuindo investimento, mas criando condições para que as pessoas possam desenvolver projetos de vida sustentáveis a nível económico, social e ambiental, sem serem obrigadas a abandonar as suas regiões ou mesmo o país. Isso implica valorizar os recursos endógenos, apoiar a inovação local, reforçar a participação das comunidades nas decisões e promover modelos de desenvolvimento que respeitem as mais-valias de cada região, transformando-as em fatores de competitividade.

Um território sustentável e coeso não é necessariamente o que cresce mais depressa. é, acima de tudo, o que deixa de competir apenas por números e passa a valorizar o impacto que gera na qualidade de vida das pessoas, na preservação dos seus recursos e na capacidade de criar futuro sem perder aquilo que o torna único e irrepetível.

Ainda é possível corrigir as assimetrias regionais em Portugal ou será necessário redefinir o conceito de desenvolvimento do interior do país?
As assimetrias existirão sempre, até pelas especificidades de cada território, pelo que é necessário que, ao fazer-se uma visão comparativa de “modelos de crescimento” se tenha isto em conta, para que as mesmas se possam atenuar.

Ainda estamos a tempo de corrigir, desde que exista vontade política para que agreguem as comunidades e respeitem os valores patrimoniais do território. No entanto, Portugal continua exposto a interesses económicos que frequentemente se sobrepõem a um desenvolvimento regional consistente e sustentável. A quantidade de pedidos para instalação de megacentrais fotovoltaicas, de exploração mineira ou de agricultura intensiva refletem um modelo económico linear e extrativista, que olha para o território como um recurso inesgotável, sem ter em conta a escuta ativa das populações, as suas necessidades e a visão holística do mesmo.

Na minha perspetiva, o desenvolvimento regional, principalmente nos Territórios de Baixa Densidade (TBD), tem que passar sempre pelo bem-estar da população (e isto não pode ser negociável!) e pela salvaguarda dos seus valores ecossistémicos. Acredito nisto, porque vivo num destes territórios.

Como é que a sua visão de liderança inova face aos modelos tradicionais de engenharia, planeamento e consultoria, e que mudanças são cruciais na gestão atual de equipas e projetos?
Para mim, o mais importante é continuarmos a sentirmo-nos humanos e conectados, tanto entre nós como em relação ao meio que nos rodeia. É a partir daí que surgem a colaboração, a participação, a aprendizagem contínua e a criação de valor partilhado.

Nesse sentido, procuro todos os dias, contribuir para que as pessoas com quem trabalho ou com quem me cruzo, se sintam melhores na sua forma de ser e estar. Por isso, as palavras que profiro e os gestos que tenho para com outras/os são relevantes.

Se tivesse a possibilidade de desenhar uma estratégia nacional para os próximos anos, quais seriam as três prioridades críticas para garantir territórios mais competitivos, sustentáveis e preparados para o futuro?
Ao longo dos anos, tenho tido a oportunidade de contribuir para a definição de estratégias através dos diversos projetos em que participei, tanto a nível nacional como regional. Com base nessa experiência e na observação de boas práticas internacionais, considero que existem três prioridades fundamentais:

01. Pessoas: O capital humano e a sua qualificação é sempre uma mais-valia;

02. Recursos Endógenos: Devem ser geridos numa lógica de economia circular que apoie a regeneração dos territórios, independentemente do setor de atividade económica;

03. Governação Colaborativa e Participativa: Mobilizar atores, construir uma visão comum e executar projetos que sustentem verdadeiramente a revitalização dos territórios.

Em síntese, a prioridade deve passar por promover um desenvolvimento sustentável, atraindo e fixando pessoas, gerando valor a partir dos recursos locais e fortalecendo a capacidade dos territórios para decidir e inovar, sempre com respeito pela sua identidade e singularidade.