É a morte que dá sentido à vida

É por sabermos que um dia tudo termina que desejamos construir uma vida com um sentido e uma direção, que tememos morrer, que tememos perder, e, por outro lado, que queremos tocar, amar e construir.

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É por sabermos que a nossa experiência terrena é uma experiência com um início marcado e um fim incerto que queremos viver o melhor possível, concretizar sonhos, viver um grande amor, deixar algum contributo ou, simplesmente, termos a sensação de um dia olharmos para trás e sentirmos que a nossa vida teve sentido, para além de um sentido. 

Os fins de ano trazem-nos sempre esta oportunidade de nos lembramos que a vida é feita de ciclos que começam e acabam, e de averiguarmos se estamos alinhados com aquilo que queremos para nós, se nos sentimos felizes e se temos estado a viver ou apenas a sobreviver. O final do ano traz, assim, a grande oportunidade de fazermos uma avaliação e de rescrevermos missões, objetivos e intenções.

Bronnie Ware, numa investigação muito interessante sobre os 5 maiores arrependimentos antes da morte, feita com pessoas em cuidados paliativos, coloca-nos em perspetiva o que fará sentido para a vida e como queremos viver, afinal, a nossa morte. Segundo ela, os 5 maiores arrependimentos apresentados são: 1. Quem me dera ter tido a coragem para levar uma vida verdadeiramente minha, e não aquela que os outros esperaram de mim; 2. Quem me dera não ter trabalhado tanto; 3. Quem me dera ter tido a coragem de expressar os meus sentimentos; 4. Quem me dera  ter mantido o contacto com os meus amigos; 5. Quem me dera ter-me consentido ser mais feliz. Depois de ler os resultados da investigação de Bronnie, não há como não pensar na vida, no seu significado, no que estamos a fazer dela e com ela todos os dias, e para onde temos levado a nossa energia e o nosso tempo. Mais do que pensar no que nos traz sucesso e reconhecimento – fatores que são os mais presentes na construção de objetivos e intenções -, acredito ser verdadeiramente importante pensar de facto nas nossas verdadeiras necessidades, dores, e na qualidade emocional que temos na nossa vida. Grande parte das vezes, a necessidade de sucesso e de reconhecimento traz e esconde outro tipo de necessidades, mais profundas e essenciais, que nos fazem sentir que afinal esses sucesso e reconhecimento não eram assim tão importantes porque não nos trouxeram a tal felicidade imaginada. Estamos certos de que não nos safaremos com um amor e uma cabana, que os nossos filhos precisam de uma vida confortável (embora possamos questionar o que de facto significa conforto) e que no mundo há uma imensidão de coisas fantásticas para fazer, descobrir e construir. No entanto, talvez nos esqueçamos com muita frequência do que é realmente importante, do que nos faz verdadeiramente felizes e do que dá e traz significado às nossas vidas. 

Assim sendo, e aproveitando a gentileza de Bronnie em nos colocar a vida em perspetiva através da morte, acredito que seria muito interessante que a construção das resoluções para o próximo ano tivesse em conta o que de facto é mesmo importante, o que nos torna realmente pessoas de sucesso e o que nos faz sentir felizes, começando por explorar o próprio conceito de felicidade, afeto, amor, paixão, liberdade e espírito de missão. Talvez muitos de nós temamos tanto a morte por não estarmos a viver a vida. Queremos tantas coisas que nos esquecemos muitas vezes de sermos nós, de vivermos de acordo com o nosso sentido de vida, de acordo com as nossas verdades e necessidades mais profundas, de que somos seres de relações de amor, e de que o dinheiro e o reconhecimento, energias tão importantes como todas as outras, ainda não pagam nem compram o essencial e o que nos faz olhar para trás e sentir que valeu a pena viver. 

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