Até que ponto é normal uma criança sentir ansiedade perante o início de um novo ano letivo e que papel devem os pais assumir neste período?
Sentir ansiedade não significa, automaticamente, que exista um problema. Alguma ansiedade no início do ano letivo é expectável. Nas crianças pode surgir sob a forma de choro, irritabilidade ou dores de barriga; nos adolescentes, aparece com uma maior irritabilidade, isolamento ou o clássico “não sei”. Devemos estar atentos quando os sinais persistem e interferem com o sono, aprendizagem ou relações.
Aos pais cabe ouvir, validar e transmitir segurança. O objetivo não é retirar toda a ansiedade, mas ajudar a criança a perceber que, mesmo com preocupação, é capaz.
Os receios e comportamentos dos pais podem ser transmitidos aos filhos. Que atitudes devem ser evitadas?
Os pais influenciam a forma como os filhos interpretam as situações, mas isso não deve transformar-se numa culpa total. Ter pais mais ansiosos não significa que a criança desenvolva um problema de ansiedade.
Ainda assim, as crianças observam tudo, do tom de voz à expressão facial. Podemos dizer “vai correr tudo bem”, mas se a nossa cara parecer a de quem está a deixá-los partir para uma expedição ao Ártico, a expressão vai ganhar à frase.
Proteger também é saber quando deixar os filhos enfrentar dificuldades, estando ao lado deles. Não precisam de pais sem medo, mas de adultos presentes que o reconheçam e sigam em frente.
O uso de telemóveis passou a ser proibido do 1º ao 6º ano nas escolas. A nível de saúde mental e do desenvolvimento das crianças, como avalia esta decisão?
Vejo a proibição como positiva. A escola é também um espaço de desenvolvimento social e emocional e retirar o smartphone pode devolver espaço para conversar, brincar, criar amizades e resolver conflitos. O impacto da tecnologia não está no tempo de ecrã em si, mas naquilo que esse tempo vai substituir. Quando o ecrã rouba horas de sono, pode afetar a atenção e a regulação emocional. Por isso, perceber quando e como a criança usa o telemóvel é tão importante como quanto tempo o utiliza.
“O impacto da tecnologia não está no tempo de ecrã em si, mas naquilo que esse tempo vai substituir”
Que acompanhamento e abordagens podem ser adotadas perante casos de ansiedade ou dificuldades de adaptação à escola?
Quando a ansiedade interfere com o dia a dia, o primeiro passo é perceber o que está por detrás dela. A Terapia Cognitivo-Comportamental é uma abordagem com forte suporte científico e pode incluir psicoeducação, regulação emocional e exposição gradual. Costumo explicar às crianças que ser corajoso não é deixar de ter medo, é conseguir fazer alguma coisa mesmo com um bocadinho de medo sentado ao nosso lado. A família e a escola também fazem parte da solução.
Há uma expressão que uso muito em consulta: “encher a mochila psicológica da criança”. Ou seja, ajudá-la a levar ferramentas, recursos e confiança que possa usar ao longo da vida.










