Como distinguir uma reação normal, ao regresso à rotina, de sinais de um problema que merece acompanhamento profissional?
O stress associado ao regresso à rotina nem sempre é prejudicial e pode, em níveis moderados, até ser benéfico, por exemplo, motivando-nos. Considerando que o benefício do stress se distribui numa curva normal (Lei de Yerkes-Dodson), a melhor forma de identificar o stress problemático está na sua intensidade, frequência e impacto no nosso funcionamento diário. Ou seja: se sentimos que prejudica a nossa vida, relações ou desempenho profissional no dia-a-dia, talvez seja hora de procurar ajuda profissional.
A proibição dos telemóveis do 1º ao 6º ano em todo o espaço escolar, é positiva para a saúde mental e o desenvolvimento das crianças?
É muito positiva, tanto para a saúde mental imediata das crianças, como a longo prazo. Nas crianças, o desenvolvimento faz-se muito pela interação direta entre pares, como defendia a Teoria Sociocultural de Lev Vygotsky, os telemóveis roubam estes tempos e espaços, criando uma atmosfera desumanizada e, ironicamente, desconectada do mundo. Se os adultos, supostamente mais maduros, têm dificuldade em regular o uso do telemóvel, que dizer das crianças! Esta medida pode resgatar da Era Pré-Digital oportunidades insubstituíveis de desenvolvimento de competências sociais e emocionais que só se treinam cara a cara, de mão dada, capacitando os adultos de amanhã.
“Nas crianças, o desenvolvimento faz-se muito pela interação direta entre pares, os telemóveis roubam estes tempos e espaços, criando uma atmosfera desumanizada e, ironicamente, desconectada do mundo”
Na prática, o que significa adaptar à terapia a cada pessoa e às suas necessidades, numa abordagem integrativa?
Significa que não parto para a terapia com uma “receita mágica”. Somos feitos de idiossincrasias: personalidades, contextos e objetivos diferentes que obrigam a terapia a personalizar-se. Por um lado, isto implica articular técnicas e modelos teóricos e científicos distintos, que raramente são mutuamente exclusivos, pois oferecem uma visão mais completa do indivíduo. Por outro lado, há a relação terapêutica, que é muitas vezes o “fator x”: devemos compreender as necessidades do cliente, como validação ou desafio, colocando eticamente a pessoa no centro do processo.
Devemos deixar de encarar a psicoterapia apenas como resposta a uma crise e vê-la também como ferramenta de prevenção e autoconhecimento?
Claro que sim. Durante demasiado tempo a terapia foi vista como um último recurso, fruto da resistência que temos em pedir ajuda e enfrentarmo-nos, mas a terapia deve ser o espaço para pensar em nós e no mundo, perceber porque repetimos padrões e desenvolver ferramentas no pré-ebulição. Quem reconhece cedo os alertas, previne e antecipa-se, melhorando a sua qualidade de vida. Também o autoconhecimento, com ou sem sofrimento associado, é essencial: ajuda-nos a fazer escolhas alinhadas com os nossos valores, em vez de vivermos em “piloto automático”.










