“Liderar é um processo contínuo de aprendizagem e evolução”

A médica cirurgiã Sónia Vilaça é Diretora Clínica do Hospital Lusíadas Braga, um desafio que aceitou com orgulho. A par da Direção Clínica, é também médica cirurgiã hepatobilipancreática nesta unidade hospitalar. Os desafios da liderança são variados, e na área da Saúde são sempre intensos. A entrevista de uma profissional que é apaixonada pelo seu trabalho e por continuar a evoluir.

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A área da saúde sempre foi o percurso profissional que ambicionou? O que a levou a optar pela especialidade de Cirurgia Geral?

Sempre tive uma enorme admiração pela Medicina. A escolha da Cirurgia Geral, e em particular da cirurgia hepatobilipancreática, surgiu da paixão por áreas de elevada complexidade técnica e exigência clínica. Sempre me motivei por desafios que exigem o melhor de nós. Escolher o caminho mais exigente é o que nos faz crescer mais. E isto sempre foi um grande motivador ao longo da vida.

Ao longo da sua carreira teve oportunidade de desempenhar funções em cargos de relevância, a nível da coordenação e liderança hospitalar. Ser líder é algo que se pode aprender, na sua opinião? Nota diferenças em si quando compara os primeiros cargos de liderança que exerceu com o que exerce atualmente no Hospital Lusíadas Braga? O que mudou, a seu ver?

Liderar é um processo contínuo de aprendizagem e evolução. Acredito que todos temos potencial para liderar, mas é na prática, nas decisões difíceis e na escuta ativa das equipas que esse potencial se concretiza. Por vezes, também
está presente uma componente inata que acelera o processo — a predisposição para assumir responsabilidade, para tomar decisões em momentos críticos e para inspirar naturalmente confiança nos outros.
Ao longo dos anos, fui procurando desenvolver competências e liderar com mais empatia, mais visão estratégica e com maior foco na valorização dos outros. No Hospital Lusíadas Braga, esse percurso atingiu uma nova dimensão: liderar um projeto inovador em plena pandemia exigiu coragem, resiliência e a capacidade de inspirar confiança numa visão nova para a cirurgia de ambulatório.

Que características suas destacaria enquanto líder? Quais os fatores mais importantes quando se lideram equipas hospitalares?

Acredito profundamente no poder do exemplo. Acredito que a ética, a dedicação, a exigência e a clareza na comunicação são indispensáveis. Valorizo o trabalho em equipa e a partilha de uma missão comum: cuidar com excelência. Liderar equipas hospitalares implica criar um ambiente onde cada profissional se sinta respeitado, motivado e parte de um propósito maior. O impacto de uma liderança verdadeiramente inspiradora reflete-se na forma como as equipas se esforçam para se superar todos os dias.


A aprendizagem ao longo da vida é fundamental na área médica. Essa é, também, fundamental para o seu crescimento profissional, na sua opinião?

Sem dúvida. Nunca deixei de procurar aprender – seja através do conhecimento técnico, da inovação clínica, ou da interação com os meus pares e as equipas que lidero. A Medicina é uma ciência em constante evolução e a atualização contínua é essencial para manter padrões de qualidade e segurança. Mas, para além da componente científica, acredito que o crescimento profissional está também na capacidade de aprender com as pessoas, com os desafios e com os próprios erros.

Qual o impacto que uma boa gestão e coordenação pode ter nas equipas e na resolução dos casos apresentados?

Uma gestão eficiente transforma completamente o ambiente hospitalar. Equipas bem coordenadas são mais eficazes, estão mais motivadas e geram melhores resultados. Quando há organização, comunicação clara e objetivos comuns, as equipas tornam-se mais fortes e os resultados são visivelmente melhores. Num contexto de desafios constantes no setor da Saúde, uma liderança clara, transparente e orientada para soluções é decisiva para garantir a continuidade e a qualidade dos cuidados prestados.

Enquanto mulher, em algum momento se sentiu menos respeitada e valorizada profissionalmente devido ao género? Que impacto a maior presença de mulheres em cargos de coordenação e liderança na área médica pode ter no futuro?

Nunca me defini, nem fui definida pelo meu género no exercício da profissão. O meu percurso foi construído com base no mérito, competência e dedicação. Sempre trabalhei com foco e rigor, e fui conquistando o meu espaço
através dos resultados e da confiança das equipas e dos doentes. Acredito que o verdadeiro impacto da crescente presença de mulheres em cargos de liderança está na naturalização desse facto – quando deixamos de precisar de
o destacar é quando, de facto, atingimos a verdadeira igualdade. O importante é reconhecer o talento, independentemente do género, e garantir que todos têm as mesmas oportunidades para evoluir e liderar.