Quando olha para o estado atual da estratégia do hidrogénio em Portugal, que leitura faz do ponto em que o país se encontra hoje?
Portugal ultrapassou a fase em que o hidrogénio era apenas uma possibilidade tecnológica. Existe hoje uma estratégia nacional, financiamento, competências científicas e empresariais e projetos em desenvolvimento.
Estamos, contudo, numa fase de transição entre a estratégia e o mercado. Muitos projetos continuam dependentes da redução dos custos, da existência de consumidores e da concretização das infraestruturas necessárias.
O desafio já não é provar que o hidrogénio é tecnicamente possível, mas sim demonstrar onde é economicamente racional, ambientalmente sustentável e efetivamente necessário.
O que é preciso acontecer, de forma concreta, para que o hidrogénio deixe de ser apenas uma promessa e passe a integrar de facto a economia portuguesa?
Em primeiro lugar, é necessário criar procura. Sem contratos de aquisição de médio e longo prazo, dificilmente haverá investimento sustentado. Em segundo lugar, importa definir prioridades.
O hidrogénio não deverá ser utilizado em todas as aplicações, devendo privilegiar-se os setores em que a eletrificação direta é difícil ou não constitui uma solução adequada. É igualmente fundamental assegurar previsibilidade regulatória, acesso às infraestruturas e mecanismos de apoio estáveis. Por fim, os projetos devem ser avaliados em toda a cadeia de valor, desde a origem da eletricidade e a disponibilidade de água até ao armazenamento, transporte e utilização final.
Em que áreas de aplicação considera que o hidrogénio pode ter maior relevância para Portugal nos próximos anos?
Destacaria quatro áreas principais: a substituição do hidrogénio de origem fóssil já utilizado na indústria; a descarbonização de processos industriais de elevada temperatura; a produção de combustíveis renováveis, como o metanol, o amoníaco e os combustíveis sustentáveis para a aviação e o transporte marítimo; e o armazenamento de energia e a flexibilidade do sistema energético.
Na mobilidade rodoviária, a sua utilização deverá ser mais seletiva, sobretudo em frotas pesadas e aplicações intensivas; nos veículos ligeiros, a eletrificação por baterias apresenta atualmente maior competitividade.

Quais são os obstáculos que continuam a travar o desenvolvimento desta fileira no país, do ponto de vista técnico, regulatório e económico?
O principal obstáculo continua a ser o custo do hidrogénio renovável e de toda a cadeia associada. Subsiste igualmente um problema clássico entre a oferta e a procura: os produtores não investem sem clientes e os clientes não adaptam os seus processos sem garantias de fornecimento e preço competitivo.
Persistem ainda desafios técnicos relacionados com a eficiência, o armazenamento, o transporte e a integração das infraestruturas, bem como a necessidade de se considerar a disponibilidade de água. No plano regulatório, é necessária uma maior articulação entre os diferentes regimes aplicáveis e uma maior previsibilidade nos procedimentos administrativos. Acresce o cumprimento das exigentes regras europeias relativas à certificação da origem renovável e à redução das emissões.
Que papel deve assumir o Laboratório Nacional de Energia e Geologia neste processo de transição energética e no acompanhamento da evolução do hidrogénio?
O LNEG deve afirmar-se como uma entidade científica e tecnológica independente, capaz de estabelecer uma ligação entre o conhecimento, as políticas públicas e a implementação empresarial. O nosso papel não é promover indiscriminadamente uma tecnologia, mas avaliar onde esta cria valor e em que condições contribui efetivamente para a neutralidade carbónica.
Podendo apoiar o país no desenvolvimento tecnológico, na modelação energética, na avaliação técnico-económica e ambiental, na gestão dos recursos naturais e no apoio à tomada de decisão pública. tem igualmente um papel importante enquanto knowledge broker, traduzindo conhecimento científico complexo em informação útil para decisores, empresas e cidadãos.
Que projetos, áreas de investigação ou linhas de trabalho têm sido prioritárias no LNEG para apoiar esta transformação?
O LNEG tem trabalhado o hidrogénio numa perspetiva integrada, desde as tecnologias de produção até à sua inserção no sistema energético. Entre as iniciativas mais relevantes destacaria o Atlas do Hidrogénio Verde Sustentável, que identifica as áreas mais adequadas para a localização de unidades de produção em Portugal Continental.
Desenvolvemos igualmente trabalho sobre o armazenamento de hidrogénio, avaliações técnico-económicas de soluções para transporte e abastecimento. Concebemos a calculadora LNEG-LCOH que permite estimar o custo nivelado do hidrogénio e participamos em projetos europeus como o H2Driven e o H2Excellence, dedicados, respetivamente, ao desenvolvimento de cadeias de valor do hidrogénio verde e à formação avançada nesta área.
Estas iniciativas refletem uma abordagem integrada, centrada não apenas na tecnologia, mas também nos recursos necessários, nos custos, nas competências e na sua integração na economia e no território.

Como é que Portugal se pode posicionar no contexto europeu na área do hidrogénio, sem perder de vista as suas especificidades e recursos próprios?
Portugal dispõe de condições favoráveis para a produção de eletricidade renovável, uma localização atlântica relevante, infraestruturas portuárias importantes e setores industriais com potencial para consumir hidrogénio e combustíveis renováveis.
No entanto, a estratégia nacional não deverá assentar apenas na exportação de hidrogénio. Em muitos casos, poderá fazer mais sentido transformá-lo em produtos de maior valor acrescentado, como o metanol, o amoníaco ou combustíveis sustentáveis para a aviação.
Portugal deverá procurar posicionar-se em segmentos concretos da cadeia de valor, nomeadamente na integração de sistemas, na produção de combustíveis renováveis, na certificação, nos serviços científicos, na formação avançada e na descarbonização industrial. o sucesso dependerá menos do número de projetos anunciados e mais da capacidade para criar cadeias de valor integradas e competitivas.
Ao longo do seu percurso, o que aprendeu sobre a relação entre ciência, decisão política e implementação no terreno?
Aprendi que a ciência é indispensável, mas não é suficiente. O conhecimento científico permite identificar opções, quantificar impactos e reduzir incertezas, mas a decisão política incorpora igualmente prioridades sociais, económicas e territoriais.
A Ciência, a Política e a Indústria operam frequentemente a ritmos diferentes. Um dos maiores desafios consiste precisamente em criar mecanismos que permitam aproximar estes diferentes tempos de decisão. Quando a ligação entre o conhecimento científico, as políticas públicas e a sua implementação funciona, é possível construir soluções mais robustas e sustentáveis.
É igualmente no terreno que muitos dos desafios associados ao licenciamento, às infraestruturas, aos custos ou à disponibilidade de competências se revelam. Por isso, defendo uma ciência próxima da decisão pública e da economia, preservando sempre a sua independência e capacidade crítica.
Enquanto presidente do LNEG, que desafios pessoais e institucionais sente que são mais exigentes nesta fase?
Um dos principais desafios é assegurar que uma instituição científica com uma longa história consegue responder à velocidade das transformações atuais. A transição energética exige novas competências, melhores infraestruturas e uma forte renovação geracional, preservando simultaneamente o conhecimento acumulado ao longo de décadas.
Outro desafio consiste em estabelecer prioridades num contexto em que o LNEG é chamado a intervir em múltiplos domínios científicos e tecnológicos. Os recursos são, necessariamente, limitados e importa concentrá-los onde o contributo científico e público é mais relevante.
No plano pessoal, o maior desafio é conciliar a gestão quotidiana da instituição com a necessidade de manter uma visão estratégica de longo prazo, valorizando simultaneamente as pessoas, constituem o principal património do LNEG.
Se pudesse deixar uma mensagem ao país sobre o lugar do hidrogénio no futuro energético de Portugal, qual seria a ideia central que gostaria de sublinhar?
A ideia central seria a seguinte: o hidrogénio não é uma solução para tudo, mas será certamente uma solução importante para aquilo que não conseguimos descarbonizar apenas através da eletrificação direta.
Devemos evitar tanto o entusiasmo acrítico como o ceticismo absoluto. O hidrogénio deve ser desenvolvido onde oferece valor energético, industrial e ambiental, sustentado por conhecimento científico, projetos economicamente sólidos e uma utilização responsável dos recursos disponíveis.
Portugal reúne condições para participar nesta transformação, mas o sucesso não será medido pelo número de projetos anunciados. Será medido pelas emissões efetivamente evitadas, pela capacidade para descarbonizar e reforçar a competitividade da nossa indústria, pelo conhecimento que produzimos e pelo valor que conseguimos fixar na economia portuguesa.
O hidrogénio deverá ser entendido não como um fim em si mesmo, mas como mais um instrumento ao serviço de uma economia mais competitiva, mais resiliente e verdadeiramente neutra em carbono.











