O futuro do hidrogénio constrói-se na capacidade de executar

Para José Campos Rodrigues, a regulamentação, a estabilidade e a execução serão determinantes para consolidar o hidrogénio como um pilar da competitividade e da transição energética nacional.

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Portugal tem afirmado o seu potencial na economia do hidrogénio, mas estará esse potencial a traduzir-se em projetos concretos ou a ambição continua a superar a execução?
Portugal possui vantagens reais para se afirmar na economia do hidrogénio, nomeadamente a abundância de recursos renováveis, uma localização estratégica e infraestruturas portuárias com relevância europeia. A ambição foi importante para posicionar o país no mapa do hidrogénio, mas a execução tem avançado a um ritmo mais lento do que o inicialmente esperado.

Existem já projetos industriais, investimentos em capacidade de eletrólise e iniciativas associadas aos corredores energéticos europeus. O desafio atual não é demonstrar potencial, mas acelerar a concretização dos projetos e criar condições para que cheguem rapidamente à fase operacional.

Qual é o maior mito que distorce o debate atual sobre o hidrogénio? E o que continua a ser mal compreendido por decisores políticos, empresas e pela sociedade em geral?
O maior mito é a ideia de que o hidrogénio será a solução ideal para todos os desafios energéticos. Não será. O seu maior valor está nos setores difíceis de eletrificar diretamente, como a indústria pesada, a produção de combustíveis sustentáveis e determinados segmentos dos transportes.

Continua também a existir a perceção de que o hidrogénio verde é uma tecnologia distante ou ainda experimental. Na realidade, a tecnologia já existe e está disponível. Os principais desafios passam pela redução de custos, pela criação de escala e pelo desenvolvimento de mercados com procura estável.

Dado que a história da energia está repleta de tecnologias que demoraram décadas a cumprir o que prometiam, o que distingue o hidrogénio desses casos e que sinais concretos permitem acreditar que não estamos perante mais um ciclo de excesso de expectativas?
O que distingue o hidrogénio é o facto de responder a uma necessidade concreta da descarbonização industrial e não apenas a uma promessa tecnológica. Existe atualmente um enquadramento regulatório, estratégico e financeiro sem precedentes na Europa, sustentado por objetivos claros de neutralidade carbónica.

Os sinais mais relevantes são os investimentos já em curso, o crescente interesse da indústria por soluções de baixo carbono e a integração do hidrogénio nos planos energéticos de longo prazo. Como em qualquer transformação estrutural, os prazos poderão ser mais longos do que inicialmente previsto, mas os fundamentos do mercado são hoje significativamente mais sólidos.

Num cenário em que Portugal tivesse de escolher apenas uma prioridade para acelerar o desenvolvimento do hidrogénio, qual seria a sua escolha e porquê?
A minha escolha seria a regulamentação. O investimento depende da previsibilidade e da confiança. Quando existem regras claras, processos de licenciamento eficientes e mecanismos de apoio estáveis, o capital privado tende a mobilizar- se de forma natural.

Sem esse enquadramento, mesmo projetos tecnologicamente maduros e financeiramente viáveis enfrentam atrasos e incertezas. Uma regulamentação eficaz é, por isso, o principal catalisador para acelerar todo o ecossistema do hidrogénio.

A transição energética é apresentada como inevitável, mas corre a Europa o risco de estar a avançar mais depressa do que a sua capacidade industrial permite? E que consequências poderá esse descompasso ter para a competitividade das empresas portuguesas?
Esse risco existe e deve ser encarado com realismo. A Europa definiu metas ambientais muito ambiciosas, mas a velocidade da transição deve estar alinhada com a capacidade industrial, tecnológica e financeira disponível. Caso contrário, poderão surgir aumentos de custos, perda de competitividade e deslocalização de atividades produtivas para regiões menos exigentes do ponto de vista regulatório. Para as empresas portuguesas, o desafio consiste em equilibrar sustentabilidade e competitividade, transformando a transição energética numa oportunidade de inovação, eficiência e crescimento industrial.

Na sua visão, se projetarmos Portugal para 2035, qual seria o cenário ideal para o setor do hidrogénio? Que metas são indispensáveis para que o hidrogénio se consolide como motor da transição energética e da competitividade económica?
Em 2035, o cenário ideal seria Portugal ter um ecossistema de hidrogénio verde plenamente operacional, integrado na indústria, nos portos, na produção de combustíveis sustentáveis e nas ligações energéticas europeias. Para isso, será indispensável assegurar capacidade renovável suficiente, produção competitiva de hidrogénio verde, infraestruturas de armazenamento e transporte, e uma procura industrial estável.

Mais do que metas abstratas, Portugal precisa de projetos em operação, contratos de longo prazo e uma cadeia de valor nacional capaz de gerar investimento, emprego qualificado e inovação. Se conseguir alinhar política pública, indústria e financiamento, o hidrogénio poderá afirmar-se como um verdadeiro motor da transição energética e da competitividade económica do país.