O mercado imobiliário e o crédito à habitação atravessam um período de forte dinamismo, apesar das pressões inflacionistas e da estagnação salarial. Na sua análise, este contexto representa uma retoma sustentada e saudável do setor ou estaremos, pelo contrário, a entrar numa nova fase de maior vulnerabilidade e exposição ao risco para as famílias?
Temos de ser práticos e objetivos: eu vejo este novo ciclo como uma fase de exposição ao risco. A inflação e a evolução dos salários, não acompanham o aumento dos preços das casas, logo temos um aumento do esforço de quem vai comprar com recurso a financiamento. Apesar da existência da taxa de esforço e a regulamentação existente no acesso ao crédito, a verdade é que as pessoas acabam por não ter grande alternativa que não seja aproximar do limite dessa mesma taxa de esforço, pela falta de produto existente que leva a esse aumento de preço.
“Se o intermediário apresentar as soluções no mercado, e todos os custos alocados a cada uma, e tiver o cuidado de ouvir o consumidor e os seus objetivos, poderá certamente ajudar na tomada dessa decisão consciente, protegendo-o”.
Num cenário marcado por preços elevados da habitação, taxas de juro ainda voláteis e maior exigência regulatória no acesso ao crédito, que cuidados fundamentais os particulares devem ter hoje antes de avançarem para um financiamento bancário? Que erros continuam a ser mais frequentes na avaliação destas decisões?
Devem ter em atenção para além da sua capacidade de esforço para pagamento da prestação, também outros fatores, desde financeiros a imobiliários. Falamos desde logo a algo como os restantes custos com o banco que estão a escolher, o tipo de taxa, os anos de crédito, como até à tipologia do imóvel, áreas, custos de condomínio e manutenção.
Ainda existe muito apenas a preocupação com o valor mensal com que se começa a pagar o financiamento, e não com os riscos que poderão surgir mais à frente.
Os intermediários de crédito têm vindo a ganhar maior protagonismo no processo de financiamento. De que forma podem estes profissionais contribuir para uma maior transparência do mercado, uma comparação efetiva entre propostas bancárias e, sobretudo, para a proteção do consumidor face a decisões financeiramente sensíveis e de longo prazo?
O intermediário desde logo deve ser transparente e idôneo com o consumidor desde o primeiro contacto: explicar que o seu papel não é participar na tomada de decisão do consumidor, mas ajudar o mesmo a ter todas as informações para que haja uma decisão consciente. Eu costumo utilizar uma máxima: Não há decisões acertadas, há apenas decisões conscientes. Se o intermediário apresentar as soluções no mercado, e todos os custos alocados a cada uma, e tiver o cuidado de ouvir o consumidor e os seus objetivos, poderá certamente ajudar na tomada dessa decisão consciente, protegendo-o.
“Ainda existe muito apenas a preocupação com o valor mensal com que se começa a pagar o financiamento, e não com os riscos que poderão surgir mais à frente”.
A literacia financeira continua a ser apontada como um entrave relevante no acesso responsável ao crédito. Até que ponto este défice condiciona as decisões das famílias portuguesas e que papel podem empresas como a ZA Finanças desempenhar na mitiga ção deste problema estrutural?
Sim, ainda é um problema diário, embora se note uma evolução nos últimos anos. Trabalhei neste ramo noutros países, e a diferença na literacia financeira ainda é enorme. É algo que certamente demora mais do que uma geração a corrigir. Da parte do intermediário de crédito, é tentar ajudar um cliente de cada vez. Se todos os dias ajudarmos alguém a ter um pouco mais de literacia financeira, essa mesma pessoa também ajudará outros a aumentar a sua literacia, e é a grande chave para o sucesso.










