A Clínica NeuroPsyque apresenta-se como um projeto que procura mudar o paradigma da saúde mental em Portugal. Que lacunas identificou no sistema tradicional de acompanhamento em saúde mental que o levou a criar a clínica?
Ao longo da minha prática clínica, fui percebendo que muitos doentes percorriam diferentes especialidades sem uma verdadeira integração. A saúde mental era frequentemente abordada de forma fragmentada, com a neurologia, a psiquiatria e a psicologia a funcionarem de forma independente, apesar de lidarem com problemáticas profundamente interligadas. Esta falta de integração atrasava diagnósticos, dificultava a continuidade dos cuidados e deixava muitos pacientes sem respostas completas para os seus problemas.
Foi precisamente para colmatar essa lacuna que nasceu a NeuroPsyque. O objetivo foi criar um modelo de intervenção colaborativo que reunisse neurologia, psiquiatria e psicologia numa abordagem integrada, rigorosa e centrada na pessoa. Acreditamos que o cérebro e a mente devem ser compreendidos como um sistema único, permitindo uma avaliação mais abrangente e tratamentos mais eficazes.
Num contexto em que a ansiedade, o burnout, a solidão e a exaustão emocional estão a crescer em diferentes faixas etárias, considera que a sociedade contemporânea está a adoecer mentalmente mais depressa do que consegue criar respostas eficazes?
Em muitos aspetos, sim. Vivemos numa sociedade marcada pela aceleração constante, pela pressão profissional, pela solidão e por níveis cada vez mais elevados de exigência pessoal. Este contexto tem contribuído para o aumento de problemas como a ansiedade, o burnout e a depressão, que deixaram de ser situações pontuais para assumirem uma dimensão estrutural.
A realidade é que a sociedade evoluiu mais rapidamente do que os sistemas de saúde conseguiram adaptar-se. Continuamos, sobretudo, a intervir quando o sofrimento já atingiu níveis incapacitantes. Por isso, é urgente reforçar a prevenção, promover a literacia em saúde mental e garantir um acesso mais rápido e eficaz a cuidados especializados, para evitar que os problemas se tornem crónicos.
A Clínica NeuroPsyque aposta em terapias e abordagens diferenciadoras. De que forma estas terapias podem transformar o futuro da saúde mental e reduzir a excessiva dependência da medicação?
As novas abordagens terapêuticas estão a abrir caminhos muito promissores. Tecnologias como o neurofeedback e a estimulação magnética transcraniana permitem modular circuitos cerebrais de forma não invasiva, oferecendo alternativas ou complementos aos tratamentos farmacológicos tradicionais.
Estas abordagens possibilitam uma maior personalização dos cuidados, contribuem para a redução de efeitos secundários associados à medicação e podem acelerar os processos de recuperação. Quando integradas com psicoterapia e acompanhamento médico especializado, oferecem uma resposta mais abrangente, permitindo diminuir a dependência exclusiva de fármacos e potenciar intervenções mais completas e eficazes.

Muitas pessoas continuam a procurar ajuda apenas quando o problema já está num estado avançado. Porque é que a prevenção em saúde mental continua a ser tão negligenciada?
A prevenção continua a enfrentar vários obstáculos, entre os quais o estigma associado à saúde mental, a falta de literacia e a ideia de que “apenas se deve procurar ajuda quando a situação se torna insustentável”. Como consequência, muitas pessoas convivem com o sofrimento psicológico durante anos sem recorrer ao apoio adequado.
Também nas organizações, a prevenção é frequentemente encarada como custo e não como um investimento estratégico. A saúde mental exige tempo, continuidade e mudança cultural — elementos que ainda não estão plenamente integrados no quotidiano das pessoas, das empresas e das instituições.
A sua experiência internacional permitiu-lhe contactar com diferentes modelos de acompanhamento clínico. O que é que Portugal ainda precisa de aprender, ou desaprender, na forma como olha para as doenças da mente e do cérebro?
Portugal dispõe de excelentes profissionais, mas precisa de reforçar três dimensões fundamentais: a integração entre especialidades, a rapidez no acesso a cuidados e um maior investimento em prevenção.
Em vários países, a saúde mental é tratada com a mesma prioridade que a saúde física, permitindo respostas mais eficazes e abrangentes. Além disso, é importante ultrapassar a ideia de que o sofrimento psicológico representa uma fragilidade pessoal. Nos sistemas mais avançados, procurar ajuda é entendido como um ato de responsabilidade, maturidade e autocuidado.
Estamos perante uma nova geração mais informada sobre saúde mental ou mais vulnerável psicologicamente?
As duas realidades coexistem. Nunca os jovens tiveram tanto acesso à informação sobre saúde mental nem tanta facilidade em falar sobre estas questões de forma aberta e natural. Contudo, também enfrentam novos fatores de risco associados à hiperconetividade, comparação constante e pressão das redes sociais, que criam vulnerabilidades significativas.
A exposição contínua a estímulos, as expectativas irreais e a procura por validação externa podem afetar significativamente a autoestima, o sono e a regulação emocional. Embora a informação esteja amplamente disponível, continua a existir um desafio importante: transformar esse conhecimento em comportamentos e hábitos efetivamente saudáveis.

A Clínica defende consultas mais longas e centradas na pessoa, contrariando a lógica acelerada da medicina atual. A humanização do acompanhamento clínico tornou-se um fator diferenciador na área da saúde mental?
Sem dúvida. A saúde mental não pode ser tratada através de consultas rápidas e centradas apenas nos sintomas. A complexidade do sofrimento humano exige tempo para ouvir, compreender e contextualizar cada história individual.
Na NeuroPsyque acreditamos que a relação terapêutica constitui uma parte essencial do próprio tratamento. Por essa razão, privilegiamos consultas mais longas e um acompanhamento próximo e contínuo. Humanizar os cuidados através da empatia, da disponibilidade e da continuidade assistencial tornou-se um fator diferenciador e indispensável para alcançar resultados clínicos consistentes e duradouros.
Olhando para os próximos anos, quais serão os maiores desafios da saúde mental em Portugal e que papel pretende que a Clínica NeuroPsyque desempenhe nessa transformação?
Os próximos anos serão marcados por três grandes desafios: a necessidade de garantir um acesso mais rápido a cuidados especializados, promover uma verdadeira integração entre as diferentes áreas clínicas e combater o estigma que ainda envolve a saúde mental.
Neste contexto, a NeuroPsyque pretende afirma-se como um modelo de referência na articulação entre neurologia, psiquiatria e psicologia, disponibilizando tratamentos avançados e centrados na pessoa. A nossa ambição é contribuir para um sistema de saúde mais humano, mais científico e mais preventivo, onde o cuidado da mente e do cérebro seja reconhecido como uma dimensão fundamental da saúde e do bem-estar global.










