O papel crucial das universidades na aprendizagem ao longo da vida

As competências digitais são, hoje, basilares para o desenvolvimento eficiente de praticamente todas as atividades. A área da Saúde tem visto a sua evolução assente, com particular destaque, na questão tecnológica. No entanto, os profissionais de saúde nem sempre têm oportunidade de se prepararem devidamente para o uso de equipamentos de vanguarda e tecnologias de ponta. O professor Jorge Morais, Presidente do Conselho Pedagógico da Universidade Aberta, entidade certificada como dinamizadora do ensino a distância em Portugal, explica o papel das universidades neste tipo de formação.

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Qual o papel das universidades na formação dedicada a profissionais de saúde e à tecnologia de ponta desta área? É possível criar uma área académica que ajude estes profissionais, em particular, a manterem-se atualizados no seu dia a dia?

As universidades desempenham um papel crucial, dado estarem na vanguarda do conhecimento, da investigação e da inovação nas diferentes áreas científicas, incluindo as áreas afetas à saúde, como a medicina, bem como em áreas que têm a saúde como objeto de estudo, como as ciências sociais, ou até como apoio tecnológico aos seus profissionais, como as ciências de computação.

Para além dos cursos formais (licenciatura, mestrado e doutoramento), as universidades têm apostado, com maior ou menor ênfase, em cursos destinados à aprendizagem ao longo da vida, onde é possível obter formação certificada em várias áreas do conhecimento, seja para aprofundamento ou aprendizagem de temas emergentes na respetiva área profissional, seja para requalificação. No caso da Universidade Aberta, foi criada para esse fim a Unidade para a Aprendizagem ao Longo da Vida, responsável pela gestão dessa formação, o que espelha a importância que esta área tem para nós.

Quais os desafios que a área da Saúde representa, no que respeita à formação técnica dos seus profissionais relativamente à utilização de equipamentos tecnológicos? É fundamental que um outro profissional médico possa também auxiliar nesta aprendizagem, no que concerne aos resultados da utilização de determinada tecnologia, por exemplo?

Cabe aos produtores e fornecedores de equipamentos tecnológicos, em primeira mão, dar formação aos utilizadores, nomeadamente, no manuseamento de máquinas físicas e na utilização eficiente do software. No entanto, após esta primeira fase, há todo um conhecimento gerado que advém da utilização, quer por parte dos profissionais quer dos próprios utentes, da avaliação da própria tecnologia, que permite dar valor acrescentado a essa formação. Juntando o conhecimento, existente nas universidades da teoria e prática de base, estas poderão desempenhar o papel de atualizar esses profissionais (podendo convidar profissionais especialistas na área para esse fim) tal como foram responsáveis pela sua formação de base.

O desafio principal será, na minha opinião, a dispersão dos profissionais em termos geográficos, sendo que os mais afastados dos centros onde existe ensino superior estarão em desvantagem na atualização científica e
tecnológica. Este é o público-alvo para as formações de ensino a distância, quer nas modalidades e-learning, onde não precisam de se deslocar da sua área de residência, quer nas de b-learning, onde se limita ao estritamente necessário número de deslocações.

Segundo um estudo realizado em cinco países, apenas 21% dos inquiridos – profissionais de saúde – assumem que conseguem cuidar dos doentes utilizando a ajuda de soluções digitais. Esta percentagem pode ser considerada demasiado baixa, a seu ver? Quão importante seria que os profissionais de saúde fossem preparados de forma efetiva para lidar com a tecnologia e as vantagens que a mesma pode trazer ao cuidado diário do doente?

Não tenho conhecimento do estudo, nem dos valores demográficos, nomeadamente, as faixas etárias, a localidade, nem mesmo a profissão (médica/o, enfermeira/o, etc.). Diria que, à partida, a percentagem, que
considero baixa, não me surpreende. Se tivesse acesso aos dados, talvez conseguisse confirmar a hipótese de a percentagem ser mais baixa nas faixas etárias mais elevadas, e ir crescendo à medida que essa idade diminui. Temos de pensar que só a partir dos anos 90 é que o telemóvel começou a ser usado em maior escala, na
mudança de século é que a Web começou a desenvolver-se mais, e depois vieram os smartphones. Há uma enorme diferença entre quem se formou antes desta revolução tecnológica e os atuais nativos digitais.

Não obstante, conhecer a tecnologia e saber como usá-la em caso de necessidade é de grande importância, principalmente quando possa estar em causa a vida de pessoas. Portanto, apesar do contexto tecnológico
diferente em que viveram e tiveram as suas formações, é fundamental e deveria ter caráter obrigatório a formação dos profissionais de saúde para o uso das tecnologias.

Que soluções apresenta a Universidade Aberta para ajudar os profissionais desta área a manterem-se atualizados?

A Universidade Aberta dispõe de uma Unidade para a Aprendizagem ao Longo da Vida (https://portal.uab.pt/alv/), que dá diversos tipos de formação não conducente a graus formais. Na área específica da saúde, já houve algumas formações: Biomarcadores de cancro, Formação Avançada em Gerontologia, Epidemiologia e Saúde Pública, Farmacoterapia, Riscos Psicossociais nos Locais de Trabalho, Noções de Estatística Aplicada às Ciências da Saúde.

Outras formações poderão surgir, quer por iniciativa da Universidade Aberta e das parcerias que tem, quer por necessidade da própria sociedade, cabendo à Universidade Aberta encontrar os meios para fornecer essa formação.

De referir ainda que chegou a ser ministrado há alguns anos um Mestrado em Comunicação em Saúde, entretanto desativado.

“Conhecer a tecnologia
e saber como usá-la
em caso de necessidade
é de grande importância,
principalmente
quando possa estar em
causa a vida de pessoas”.


Que outras áreas estão também contempladas nos programas curriculares da Universidade Aberta destinados a pessoas que já estão no mercado de trabalho e são profissionais ativos?

Existem as mais variadas áreas, que vão desde as tecnologias de informação, línguas, gestão, educação. Sendo a universidade portuguesa de ensino a distância e tendo o seu modelo pedagógico virtual em funcionamento há mais de uma década e meia, que já foi validado e é regularmente revisto e melhorado, a Universidade Aberta tem a possibilidade de dar formação em qualquer área, podendo fazê-lo individualmente ou em parceria com outras instituições.

Quão importantes são os regimes de formação híbridos e online, considerando os desafios horários que vários profissionais enfrentam no seu dia a dia?

O facto de um profissional poder fazer a sua formação em casa, no trabalho, ou em qualquer lugar onde tenha acesso a um computador com Internet, evitando a necessidade de se deslocar a um lugar específico, que pode ser mais ou menos perto, é uma mais-valia inegável. A possibilidade de estudar ao seu ritmo, consultando várias fontes de informação disponibilizadas na sua plataforma de e-learning, tirando dúvidas com os professores e com os colegas, de forma assíncrona, resulta numa forma alternativa de aprendizagem que permite muitas vezes uma segunda oportunidade a quem nunca se tinha adaptado ao ensino presencial tradicional e a quem não teria
possibilidade de frequentar aulas presencialmente. Claro que também é necessária alguma resiliência e organização, pois este estudo ocorre, maioritariamente, após um dia de trabalho ou num fim de semana em que
se deveriam recuperar energias para a semana laboral. Esse é o principal desafio.

Como se posiciona a Universidade Aberta, considerando a cada vez maior necessidade de renovar cursos e opções de formação – presenciais, online e híbridas – tendo por base a enorme evolução tecnológica que hoje acontece?

É preciso lembrar que em 2019 foi publicado no Diário da República, 1.ª Série, o Decreto-Lei nº 133/2019 de 3 de setembro, que aprovou o Regime Jurídico do Ensino Superior Ministrado a Distância, onde foi dado à Universidade Aberta, no seu art.º 17.º o papel de dinamizador do ensino a distância em Portugal, quer através da sua especialização “em competências e metodologias científicas e pedagógicas e em infraestruturas e sistemas de ensino a distância”, quer através da sua disponibilização pública “a todas as instituições de ensino superior para a oferta conjunta de graus e diplomas em ciclos de estudos ministrados a distância”.

Note-se que ainda antes da publicação do referido Decreto-Lei, já havia formações em consórcio com outras universidades. Um dos exemplos, precisamente na área tecnológica (com algumas teses em que existe aplicação à área da saúde), é o Doutoramento em Ciência e Tecnologia Web, lecionado em conjunto com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, que existe desde 2016.

Tendo por base as questões colocadas anteriormente, que opções tem a Universidade Aberta para oferecer aos profissionais que já estão no mercado de trabalho e que procuram formação aplicada ao seu dia a dia laboral, na área tecnológica, para lá da área da Saúde?

Na área tecnológica, a Universidade Aberta oferece cursos na área de informática nos três ciclos de estudos: Licenciatura em Engenharia Informática, Mestrado em Engenharia Informática e Tecnologia Web e o já referido
Doutoramento em Ciência e Tecnologia Web (estes dois últimos em conjunto com a UTAD), além de diversas formações não conducentes a grau formal, como já referido anteriormente. Um estudante pode fazer um percurso completo nesta área.

No entanto, nos outros cursos também há aplicação de tecnologia às respetivas áreas do conhecimento, até porque o uso da plataforma de e-learning potencia o uso de novas tecnologias, como laboratórios virtuais, que facilitam a aprendizagem na modalidade de ensino a distância.

Deixo aqui a hiperligação para o guia dos cursos da Universidade Aberta para que possam consultar toda a nossa formação nos graus de licenciatura, mestrado e doutoramento:
https://guiadoscursos.uab.pt/?lang=pt.