Transformar a dança em palco de empoderamento feminino

Bárbara Vieira transformou obstáculos em oportunidades, usando a arte para ensinar às suas alunas que confiança, identidade e determinação são os verdadeiros passos para ocupar o espaço – dentro e fora do palco.

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Quais foram os maiores desafios que enfrentou enquanto mulher?
Fundar o Grupo de Dança Dream Dancing, em 2000, começou de forma simples, com apenas cinco alunas e um sonho ainda sem dimensão atual. No início, não senti grandes constrangimentos enquanto mulher empreendedora, talvez porque foi acontecendo de forma natural e orgânica, celebrando cada conquista.

Ainda assim, foi um enorme desafio: éramos a única escola na região e a minha formação era quase inexistente. Só alguns anos depois, e com alguma resistência familiar, investi na minha qualificação: aos 16 anos frequentava um curso em Lisboa, levantando-me às 4h30 aos sábados para conseguir estar nas aulas. Foi um período exigente, mas com o apoio fundamental da minha avó, que assumiu os custos de deslocação, foi essencial, acreditando em mim quando talvez nem todos acreditassem. O curso, esse, fiz questão de ser eu a pagar para assumir essa responsabilidade e provar que estava comprometida.

Ser mulher nesta área significou provar constantemente que era capaz, liderando com sensibilidade, proximidade e uma forte ligação à comunidade. Mas o maior desafio, talvez tenha sido exatamente esse: crescer sem perder a essência do grupo. Nunca foi apenas sobre dança: foi, e continua a ser, sobre acreditar, persistir e transformar cada pequena oportunidade numa construção maior.

De que forma procura promover o empoderamento feminino através da dança e do exemplo?
As Dream Dancing têm hoje mais de 120 alunos, várias modalidades e atuam em diversos locais, refletindo uma forte presença regional. Esta descentralização não aconteceu por acaso: acreditamos que todas as pessoas devem ter acesso à dança, independentemente da localização. Levamos a dança às comunidades onde faz sentido estar, alocando recursos para chegar a quem precisa.

Mais do que aulas técnicas, criamos um espaço de bem-estar, desenvolvimento pessoal e sentido de pertença. A técnica é importante, mas primeiro trabalhamos confiança, autoestima, expressão individual e respeito pelo corpo e identidade de cada aluna. O empoderamento surge naturalmente quando percebem que são capazes, que a sua voz importa e que o corpo é valorizado pelo que expressa e não apenas pelo que executa.

Os espetáculos que são importantes, mas nunca obrigatórios. Subir ao palco pode ser transformador e um momento de superação. Ainda assim, o verdadeiro empoderamento começa na sala de aula, num ambiente seguro onde aprendem a confiar em si próprias.

Mais do que formar bailarinas, queremos formar mulheres confiantes, conscientes do seu valor e capazes de ocupar o seu espaço – dentro e fora do palco.

Enquanto fundadora e líder das Dream Dancing, que significado tem o Dia Internacional da Mulher para si?
O Dia Internacional da Mulher recorda-me que a igualdade em Portugal nasceu da coragem de quem lutou antes de nós. Mulheres que resistiram ao Estado Novo e abriram caminho ao 25 de Abril. Um nome incontornável é Catarina Eufémia, símbolo de coragem e resistência. A sua luta tornou-se um marco na defesa da dignidade, dos direitos e da justiça social, num tempo em que as mulheres tinham ainda menos voz e proteção. A liberdade conquistada permitiu acesso à educação, trabalho e participação.

A nível pessoal, esta data lembra-me também as mulheres da minha própria história – como a minha avó, que acreditou em mim e me apoiou quando decidi investir na minha formação.

A nível profissional, sinto que tenho a responsabilidade de honrar esse legado. Trabalhar diariamente e também continuar este caminho: promover a confiança, autonomia, voz e presença.

Mais do que uma celebração, este dia é um momento de consciência. É lembrar que os direitos que hoje parecem garantidos foram conquistados com coragem – e que cabe à nossa geração continuar a construir igualdade, com responsabilidade, exemplo e ação.

Que mensagem gostaria de deixar às jovens que sonham seguir uma carreira na dança ou noutra área artística?
A mensagem que deixo é simples: acreditem no vosso valor, mesmo quando o caminho não é óbvio. Nem sempre vão ter todas as condições ideais, referências próximas, ou um “sim” imediato, mas isso não torna o sonho impossível. Invistam na vossa formação, trabalhem com disciplina e aceitem que crescimento exige esforço, persistência e, muitas vezes, sacrifício. Talento importa, mas é a consistência que constrói percursos sólidos. Procurem ambientes saudáveis, onde sejam respeitadas enquanto artistas e pessoas. A arte nunca deve anular a vossa identidade, a vossa dignidade ou os vossos valores. E, acima de tudo, não deixem que ninguém vos convença de que o vosso sonho é “menos sério” por ser artístico. A arte transforma pessoas, comunidades e mentalidades. Se acreditarem, prepararem-se e forem fiéis a quem são, podem construir um caminho com significado. E isso é a maior forma de empoderamento.