Onde termina a ansiedade “normal” perante uma mudança de rotina e começa um sinal de alerta que os pais não devem desvalorizar? E de que forma podem os comportamentos dos próprios reforçar involuntariamente essa ansiedade?
É natural que algumas crianças se mostrem ansiosas, sensíveis, irritáveis ou dependentes dos pais. Quando estas manifestações são transitórias, proporcionais à mudança e não têm um impacto significativo no quotidiano, podem fazer parte do processo de adaptação.
Para distinguir uma ansiedade adaptativa de uma ansiedade clinicamente preocupante, importa considerar a idade e a fase de desenvolvimento da criança, bem como a intensidade, a persistência e o impacto dos sintomas. São sinais de alerta a recusa escolar persistente, o pânico perante a separação, as faltas escolares repetidas, as queixas físicas sem explicação médica e as mudanças acentuadas no comportamento.
Movidos pelo desejo de proteger, os pais podem reforçar involuntariamente a ansiedade ao permitir que a criança evite sistematicamente aquilo que receia ou ao tranquilizá-la repetidamente. O objetivo deve ser transmitir segurança e confiança, ajudando a criança a enfrentar gradualmente o desconforto e a desenvolver autonomia.
Com a restrição ao uso de telemóveis nas escolas, estamos perante uma oportunidade para repensar a relação das crianças com a tecnologia ou corremos o risco de transferir o problema do espaço escolar para casa?
Restringir os telemóveis na escola é importante, mas insuficiente. Sem coerência entre a escola e a família, o problema pode ser transferido para casa. Em casa, os limites devem ser claros, consistentes e ajustados à idade, contemplando momentos sem ecrãs, como as refeições, o estudo e o período antes do sono.
Estes limites devem abranger também os adultos, porque os pais educam tanto pelas regras como pelo exemplo. além de estabelecer limites, importa ensinar quando, como e para que utilizar a tecnologia, promovendo uma relação autónoma e responsável.
“Restringir os telemóveis na escola é importante, mas insuficiente. Sem coerência entre a escola e a família, o problema pode ser transferido para casa”
Numa criança com dificuldades de adaptação, ansiedade, problemas comportamentais ou resistência perante a escola, o que acontece num processo de acompanhamento psicológico? Que ferramentas utiliza?
O acompanhamento psicológico inicia-se com a escuta da criança, num espaço seguro, e por uma avaliação adaptada à sua idade e fase de desenvolvimento. Este processo envolve os pais e, quando necessário, pode incluir a articulação com a escola. Através de ferramentas como histórias, desenhos, jogos e registos de emoções, a criança aprende a reconhecer e a expressar aquilo que sente, bem como a desenvolver estratégias de regulação emocional e de aproximação gradual às situações que lhe provocam ansiedade.
Mais do que eliminar um comportamento, procura-se compreender a função que este desempenha, promover a autonomia da criança e orientar os pais para que consigam apoiá-la sem reforçar o evitamento.
Qual a mensagem que gostaria de deixar aos pais neste regresso às aulas?
Respeitem o ritmo da criança, escutem os seus receios e valorizem cada progresso, mesmo que pareça pequeno. Transmitam- lhe confiança para avançar e, se as dificuldades persistirem ou interferirem significativamente no seu quotidiano, procurem apoio especializado.










