Perspetivas para a economia portuguesa

0
185

A Comissão Europeia espera que Portugal registe este ano um crescimento real do PIB de 6,6%, o mais alto desde 1987.

A confirmarem-se as projeções, Portugal registará o segundo maior crescimento económico entre os vinte e sete países da União Europeia, apenas abaixo dos 7,9% da Irlanda, que se mantém o país mais dinâmico, e mais do dobro do ritmo de crescimento médio europeu (3,3%).

Este resultado, sem dúvida positivo, deve ser enquadrado e relativizado para se perceber como surge e os riscos que se colocam para o futuro próximo, influenciando as perspetivas para os próximos anos.

Após uma queda real de -8,3% em 2020, o sexto pior desempenho na União Europeia (onde a descida média foi de -5,7%), a recuperação em 2021 foi robusta (5,5%) e ligeiramente acima da média (5,3%), mas claramente não compensou a anterior evolução desfavorável. No conjunto de 2020 e 2021, os anos mais marcantes da pandemia por covid-19, Portugal registou uma queda acumulada do PIB de -3,2%, que foi a segunda maior no contexto europeu, apenas superada pela vizinha Espanha (-6,4%).

Em 2022, com o surgimento da guerra na Ucrânia, o nosso país acaba por sair relativamente “beneficiado”
ao nível da atividade económica devido a dois fatores:

-A imagem de um destino seguro – longe do conflito armado -, o que tem permitido beneficiar de um maior afluxo de turistas;

-A relativa menor dependência da energia russa. Estes dois fatores distintivos, a que se junta um terceiro, comum aos demais países europeus – a realização de despesa de consumo adiada durante a pandemia –, explicam, em boa medida, o aumento extraordinário do PIB nacional em 2022.

Porém, o esperado desvanecimento destes três fatores comporta riscos para os anos seguintes, em particular já para 2023. Com efeito, a incerteza face ao prolongamento da guerra e a perda acumulada de poder de compra dos consumidores (devido à elevada inflação e à subida das taxas de juro), quer no mercado nacional quer no nosso principal mercado de exportação (o europeu), deverão penalizar fortemente tanto o consumo privado nacional como as receitas do turismo, seja pela menor dinâmica do número de turistas estrangeiros seja pela contração da despesa média em território nacional.

O clima de incerteza e a subida das taxas de juro condicionarão ainda o investimento, pelo que a capacidade de execução dos fundos europeus (onde Portugal tem muito a melhorar, como a AEP tem vindo a alertar) é fundamental para evitar um maior abrandamento económico em 2023, como sublinhou recentemente a OCDE.

Será também importante uma utilização mais significativa da “almofada orçamental” gerada pela inflação em 2022, tendo o Governo devolvido apenas muito parcialmente à economia o acréscimo de receita fiscal associado para proteger as empresas e famílias mais vulneráveis. Esta é outra das recomendações da OCDE.

Neste contexto, a previsão de crescimento real do PIB de 1,3% com que o Governo baseou o Orçamento de
Estado para 2023 parece já otimista à luz das projeções mais recentes, em particular as da Comissão Europeia e do FMI (0,7% em ambos os casos).

É certo que, segundo a Comissão Europeia, Portugal continuará a crescer acima da média europeia em 2023 e 2024 (0,7% versus 0,3% e 1,7% versus 1,6%), mas com um diferencial cada vez menos significativo e tendencialmente mais longe do ritmo de crescimento dos países mais dinâmicos, a surgir na 12ª e 17ª posições, respetivamente.

Pese embora o efeito base, não posso deixar de assinalar como extremamente preocupante o facto de Portugal vir a ser no próximo ano o país da União Europeia com maior abrandamento do crescimento económico.

Preocupante, porque a evolução relativa do PIB ajuda a explicar o comportamento do nível de vida, medido
pelo PIB per capita em paridade de poder de compra, nos anos mais recentes e as perspetivas para os
próximos.

O mau desempenho do PIB nacional em 2020 e 2021 refletiu-se na descida deste indicador de 78,6% da média europeia em 2019 (18ª posição) para 76,2% em 2020 (19ª) e 75% em 2021 (21ª).

Os efeitos relativamente positivos sobre a dinâmica comparada do PIB nacional acima descrita permitem
perceber a recuperação projetada do nível de vida para 78% da União Europeia em 2022 (19ª posição), 78,6% em 2023 (19ª) e 78,8% em 2024 (20ª), mas também a melhoria apenas modesta no ranking, que em 2024 estará ainda abaixo do registado em 2019.

Não admira, por isso, que países mais dinâmicos do que Portugal nos ultrapassem em nível de vida. É o caso, por exemplo, da Polónia, que nos superou em 2021 (77% e 75% da média europeia nesse ano, respetivamente), mas os efeitos da guerra levam a que fique novamente abaixo nas previsões de 2022 a 2024.

Terá causado maior perplexidade que a Roménia – o país mais pobre da União há não muitos anos – nos
ultrapassará em nível de vida em 2024. Contudo, essa possibilidade só pode surpreender os mais distraídos,
pois há precisamente um ano, antes da guerra, as previsões de novembro da Comissão Europeia apontavam que a Roménia nos iria ultrapassar já em 2023, conforme sublinhou a AEP na sua publicação “Do Pré ao Pós Pandemia: Os Novos Desafios”.

Elevar o potencial de crescimento da economia portuguesa é a única forma de se alcançar uma trajetória de melhoria do nível de vida e uma redução sustentada do endividamento. Melhorar a composição do PIB, no sentido do reforço do peso do investimento e das exportações é a via a seguir. Significa que passa fundamentalmente pelo papel das empresas. Neste âmbito, é preciso contar com uma envolvente favorável ao bom desenvolvimento da atividade empresarial, onde as políticas públicas – materializadas em cada Orçamento do Estado, mas não só – são muito importantes.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here