“Portugal é muito bom a desenvolver tecnologia”

A “Engenharia do Futuro” é um tema central para compreender o avanço e inovação nesta área. O Bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Mineiro Aires, fez um ponto da situação da profissão, da qualidade da formação nacional e salientou alguns problemas que a evolução pode acarretar.

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A Engenharia é uma área fulcral para a nossa sociedade e está presente em quase tudo o que fazemos. Quando se fala em “Engenharia do Futuro”, como acredita que esta evolução aconteça?

Graças à Ciência, o mundo teve uma transformação muito grande, mas a pandemia acelerou algumas evoluções que iriam acontecer de forma mais lenta, nomeadamente esta evolução digital. Os objetivos da Engenharia, em si, não mudaram. O principal continua a ser arranjar soluções que contribuam para o maior bem-estar da Humanidade. Esse é o papel dos engenheiros. Se é verdade que a tecnologia vai evoluindo, é pelas ideias inovadoras dos engenheiros que as pontes e estradas, por exemplo, ganham vida. Nós, hoje, temos o mundo ao alcance da mão. Isso é algo que era impensável há algum tempo. De que forma é que a Engenharia vai evoluir? É das questões mais difíceis de responder, isto porque nós corremos o risco de julgar que a evolução vai ocorrer particularmente numa área e depois verificarmos que numa outra, afinal, aconteceu uma inovação enorme, que levou a uma evolução imensa. O que é facto é que temos evoluído muito em todas as áreas. A nossa forma de fazer Agricultura já não é a mesma, a nossa forma de gerir o território não é igual…tudo mudou. Inclusivamente, na Nanoengenharia, a evolução foi muito grande, isto porque se descobriu algo que era necessário para impulsionar todo o desenvolvimento. Ultrapassado esse obstáculo, a evolução é constante. A Engenharia daqui a 10, 15 ou 20 anos será completamente diferente. É um mundo deslumbrante que temos pela frente, mas há algo que me preocupa: as questões sociais, porque o nosso país, e o nosso mundo, são muito desiguais. Há muitas pessoas a falarem da evolução da tecnologia e das suas vantagens, enquanto ainda há muita gente que não tem saneamento básico, aquecimento, habitação…O futuro da Engenharia tem de se preocupar com as questões éticas e também – porque tem essa obrigação – com a resolução das situações de desigualdade existentes.

Relativamente à formação, mencionou o facto de termos boas universidades, bons professores e bons alunos, mas estamos a perder essa capacidade intelectual e produtiva. Esta formação que existe atualmente já está adaptada a esta noção de futuro?

É importante notar isto: o problema central do nosso país é a Economia. A nossa Economia é débil e nós ou damos a volta à Economia e nos tornamos num país que produza mais riqueza, mais valor acrescentado, ou então será difícil aumentar salários e permitir às pessoas alavancarem a sua vida por cá, o que as leva a emigrar. Relativamente à formação, as nossas universidades têm feito um esforço para se adaptarem.  O percurso académico tende a caminhar para soluções mais flexíveis – veja-se as últimas reformas do Ensino Superior – o que leva a que os nossos alunos sejam muito adaptáveis. Os nossos engenheiros são muito cobiçados em todo o mundo. No entanto, atualmente, é muito importante que todos percebam que a formação ao longo da vida é fundamental para desempenhar bem uma profissão. Em determinadas áreas da Engenharia, sobretudo nas ligadas à tecnologia, se não estiver sempre em formação, a pessoa facilmente é ultrapassada por alguém que acabou de sair da universidade e que vem mais atualizado sobre as últimas novidades do setor.

Quando falamos em inovação e tecnologias disruptivas e na sua aplicação a diversos processos, isso pode trazer alguns perigos associados, bem como também algumas vantagens.  Qual o seu ponto de vista sobre isto?

Nós atualmente temos o mundo na palma da mão. Essa digitalização dos nossos conteúdos é preocupante, na medida em que basta um erro para que todos percamos as nossas informações. O facto é que quanto maior for a digitalização, e essa é irreversível, maior é o risco de ataques cibernéticos. No entanto, a tecnologia permite coisas maravilhosas. Já é possível ter um cirurgião a operar um paciente à distância, através de um robô. Todavia, o perigo está numa invasão daquele mesmo sistema, que faça com que o robô fique descontrolado, ou que a operação pare a meio… Portugal tem dado passos largos e significativos no que respeita à criação de soluções informáticas. Somos muito bons nisso. Além disso, a tecnologia permite facilitar muito o dia a dia de trabalho, bem como pode ser uma excelente forma de combater a solidão.  No entanto, há que pensar nas questões éticas, muitas vezes associadas à inovação científica, sobretudo nas áreas diretamente relacionadas com a Saúde.

Como descreveria Portugal, no que respeita à capacidade de produzir e utilizar a tecnologia?

Face aos restantes países europeus, nós estamos naqueles lugares confortáveis, onde de vez em quando conseguimos efetuar uma descoberta e ser os primeiros a possuir determinada tecnologia. Felizmente, nesta área, somos reconhecidos em muitas áreas. Temos um país fantástico, uma posição geoestratégica ímpar, um país infraestruturado, mesmo tecnologicamente, pelo que temos todas as condições para sermos um país competitivo, desenvolvido e de vanguarda. Mas se temos isto tudo – e agora até temos dinheiro – o que falta? Por que não resulta? É isso que temos de perguntar…

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