Até que ponto é normal uma criança sentir ansiedade perante o início de um novo ano letivo e que papel devem os pais assumir neste período?
O regresso às aulas é uma mudança, mesmo para quem volta à mesma escola: há novos professores, horários e exigências. Alguma ansiedade é perfeitamente expectável e não deve ser confundida com um problema clínico. Nas crianças, pode surgir como irritabilidade, dificuldades em dormir, dores de barriga ou de cabeça, maior necessidade dos pais ou resistência à escola.
O que deve chamar a atenção é a intensidade, persistência e impacto no dia a dia. Estar nervoso nos primeiros dias é diferente de não conseguir dormir, recusar a escola, isolar-se ou ter queixas físicas durante semanas.
Os pais devem transmitir que há espaço para falar e que a criança não está sozinha. Perguntas como “O que foi mais giro hoje?” ou “Houve alguma coisa que te custou mais?” abrem espaço à conversa. Os pais não precisam de respostas para tudo, mas de transmitir segurança e disponibilidade: “Ainda não sabemos exatamente como vai ser, mas vamos perceber juntos”.
“O que deve chamar a atenção é a intensidade, persistência e impacto no dia a dia. Estar nervoso nos primeiros dias é diferente de não conseguir dormir, recusar a escola, isolar-se ou ter queixas físicas durante semanas”
Muitas vezes os próprios pais vivem este período com alguma ansiedade. Os receios e comportamentos dos pais podem ser transmitidos aos filhos? Que atitudes devem ser evitadas?
O início das aulas mexe com a organização de toda a família. De repente voltam os horários, os trabalhos de casa, as atividades extracurriculares, as deslocações e, ao mesmo tempo, os pais continuam a ter as suas próprias exigências profissionais. É natural que os pais sintam stress com o início das aulas. As crianças estão atentas ao tom, às reações e à forma como falamos da escola. É aqui que entra a co-regulação emocional: a forma como o adulto gere a própria ansiedade ajuda a criança a regular a sua.
Pode ser positivo dizer “também estou um bocadinho ansioso com esta mudança, mas vamos ver juntos como corre”. É diferente de antecipar problemas ou reagir com grande preocupação a cada dificuldade. Não queremos que a criança interprete a ansiedade dos pais como prova de que existe algo a temer.
As rotinas reduzem a incerteza e dão segurança. Saber quando se acorda, fazem os trabalhos, brinca, janta ou descansa, facilita a organização. As rotinas também reduzem a carga mental dos pais e aumentam a disponibilidade para ouvir os filhos. É útil construí-las em família. Rotina não significa rigidez: deve ser uma estrutura estável, mas flexível.
A utilização dos telemóveis passou a ser proibida no 1º e 2º ciclos em todo o espaço escolar. Do ponto de vista da saúde mental e do desenvolvimento das crianças, como avalia esta decisão?
Vejo esta medida de forma muito positiva. A escola deve ser um espaço para aprender, mas também para brincar, correr, conversar e estar com os outros. O telemóvel faz parte da realidade destas crianças; a questão é perceber o que deixa de acontecer quando ocupa demasiado espaço.
O recreio é também um espaço de desenvolvimento. Correr e brincar são fundamentais para o desenvolvimento. Quando o telemóvel ocupa esses momentos, o problema não é apenas o tempo de ecrã, mas o que deixa de acontecer: o chamado displacement effect.
Proibir na escola não resolve tudo. Um estudo de 2025, no The Lancet Regional Health – Europe, encontrou cerca de 40 minutos menos de utilização durante o horário escolar nas escolas com políticas restritivas, sem diferenças significativas no tempo total diário nem no bem-estar psicológico. A medida pode proteger o espaço escolar, mas não substitui a educação digital em casa.
Em Portugal, o Governo decidiu em julho de 2026 alargar a proibição aos alunos do 3º ciclo, com dados anteriores a apontarem para maior socialização e menor indisciplina.
Considero importante proteger o espaço escolar, mas não podemos ficar pela proibição. Se a criança só consegue parar porque um adulto lhe retira o telemóvel, ainda não aprendeu a autorregular-se. Esse trabalho deve ser feito em casa e na escola: aprender a lidar com o aborrecimento, perceber quando desligar, estar numa conversa sem consultar o ecrã e fazer escolhas sobre o próprio tempo. Queremos proteger as crianças enquanto precisam dessa proteção, mas também prepará-las para gerir a tecnologia sem depender permanentemente de um adulto.
“O recreio é também um espaço de desenvolvimento. Correr e brincar são fundamentais para o desenvolvimento. Quando o telemóvel ocupa esses momentos, o problema não é apenas o tempo de ecrã, mas o que deixa de acontecer: o chamado displacement effect”
Quando é identificada a necessidade de apoio, que acompanhamento e abordagens clínicas podem ser adotados por um psicólogo perante casos de ansiedade ou dificuldades de adaptação à escola?
Em Psicologia, não podemos olhar apenas para o sintoma: é preciso conhecer a história da criança, o contexto familiar, o percurso escolar, as relações com os pares e o impacto no dia a dia.
Duas crianças podem dizer “não quero ir à escola” por razões diferentes: ansiedade de separação, dificuldades de aprendizagem, exclusão pelos colegas ou necessidade de mais tempo para se adaptar. Se a origem é diferente, a intervenção também será.
A experiência de trabalho clínico com crianças ensinou-me a importância de compreender a criança e o sistema em que está inserida. Atualmente, trabalho sobretudo com adultos, o que reforçou esta perspetiva.
Perante ansiedade persistente ou evitamento, a Terapia Cognitivo-Comportamental é uma das abordagens mais utilizadas. Com crianças, deve ser adaptada à idade, desenvolvimento e realidade concreta. Pode trabalhar-se a identificação e regulação das emoções, os pensamentos perante situações assustadoras, estratégias de resolução de problemas e uma aproximação gradual ao que a criança evita.
É essencial envolver os pais, para que o que se trabalha em consulta seja aplicado na escola, em casa e nas relações. Pequenas mudanças na resposta à ansiedade ou ao evitamento ajudam a criança a ganhar autonomia e confiança.
Sempre que faça sentido, deve existir articulação entre família, escola e outros profissionais, respeitando a confidencialidade e os limites éticos. O objetivo da Psicologia não é fazer com que uma criança nunca mais sinta ansiedade, medo ou frustração. Essas emoções fazem parte da vida. O objetivo é que aprenda a reconhecê-las, tolerá-las e perceber que consegue continuar a fazer o que é importante para si mesmo quando elas aparecem.










