O regresso às aulas desperta entusiasmo, mas também pode trazer medo, ansiedade ou insegurança. Até que ponto este desconforto é uma fase normal de adaptação e a partir de quando deve preocupar os pais?
Algum desconforto faz parte do encontro com o novo. A mudança traz incerteza e sentir medo ou ansiedade não significa, por si só, que exista um problema. Mais do que perguntar “tem medo?”, eu perguntaria: “o que é que esse medo está a fazer na vida dela?”.
Se a criança consegue retomar rotinas, relacionar-se e avançar, está a adaptar-se. O sinal de atenção surge quando o medo começa a comandá-la: fecha possibilidades, alimenta o “e se…”, provoca evitamento ou recusa persistente da escola. O objetivo não é eliminar o medo, mas ajudá-la a não ficar prisioneira dele.
Quando um filho revela ansiedade ou não quer ir à escola, é importante que aprenda a lidar com o desconforto, em vez de os pais tentarem protegê-lo?
Sim. Contudo, teria algum cuidado com a expressão “emoções negativas”. No meu livro uso a imagem das emoções como um GPS do nosso mundo interior: ajudam-nos a perceber o que sentimos e precisamos. A criança aprende a regulá-las primeiro na relação com o adulto. Quando um pai reconhece aquilo que ela sente, ajuda-a a nomear e legitimar essa experiência. Proteger não é retirar toda a frustração, tristeza ou medo, mas oferecer segurança para que possa sentir e compreender. Validar a emoção também não significa permitir qualquer comportamento: posso aceitar a raiva e ensinar que não é aceitável agredir.

Que impacto podem as avaliações, a comparação com colegas e a pressão pelo desempenho ter na autoestima e na construção da identidade de uma criança ou adolescente?
A pressão pesa quando a criança ou adolescente começa a confundir aquilo que é com aquilo que faz. Se sente que é mais reconhecida quando tem boas notas ou corresponde, pode interiorizar: “valho se tiver bons resultados”. Há crianças muito responsáveis e adaptadas que, aparentemente, não dão problemas, mas vivem demasiado atentas ao que os outros esperam e pouco ligadas à própria vontade. Crescer precisa de espaço para experimentar, errar e descobrir interesses. A criança deve adaptar-se às exigências da escola sem perder a possibilidade de descobrir quem é. Uma nota avalia um desempenho, mas não define o seu valor.
A comparação entre crianças e jovens prolonga-se para além da escola, através das redes sociais. Que impacto pode esta exposição constante ter na autoestima, ansiedade e sentimento de pertença?
As redes sociais promovem a comparação. Numa fase em que ainda constrói a sua identidade, o jovem pode sentir que precisa de ser semelhante aos outros para ser aceite. A comparação toca numa necessidade profunda: “pertenço?”, “sou suficientemente valorizado?”. Quando o valor pessoal depende demasiado do olhar externo, cresce a insegurança e a sensação de que a vida dos outros é melhor. Quanto mais olhamos para fora, mais difícil é escutar o que é nosso. O desafio é ajudar o jovem a pertencer sem ter de se apagar ou abandonar quem é.
Que alterações de comportamento podem ser manifestações de sofrimento emocional nas crianças e a que sinais devem os pais estar atentos?
Muitas vezes, o desconforto aparece primeiro no corpo. É importante observar mudanças no padrão habitual: alterações persistentes no sono ou apetite, irritabilidade, cansaço, agitação, dificuldade de concentração, quebra do rendimento escolar, isolamento ou perda de interesse. Também podem surgir dores de cabeça ou de barriga, aperto no peito ou palpitações. Um sinal isolado não faz um diagnóstico. Importa perceber se a mudança se mantém e interfere com a escola, as relações, o descanso ou a vida familiar. Nem sempre a criança consegue dizer “não estou bem”, precisamos de aprender a escutar também aquilo que o corpo e o comportamento comunicam.
“Nem sempre a criança consegue dizer “não estou bem”, precisamos de aprender a escutar também aquilo que o corpo e o comportamento comunicam”
Defende que a procura de apoio psicológico não deve estar ligada a uma “crise”. Que papel pode ter a Psicoterapia na prevenção e no desenvolvimento emocional?
A Psicoterapia pode ser um espaço de desenvolvimento, não apenas uma resposta à crise. Pode ajudar a criança ou adolescente a reconhecer emoções, perceber necessidades, lidar com a frustração, afirmar-se, estabelecer limites e desenvolver autonomia. Prevenir não é evitar sofrimento, é construir recursos antes que ele se torne incapacitante. Há duas experiências fundamentais no crescimento: “posso contar com alguém e pertenço” e “posso ser eu, escolher e ter influência sobre a minha vida”. Conhecer cedo o seu mundo interior é se preparar melhor para pedir ajuda e atravessar dificuldades sem entrar em sofrimento.
Após mais de 20 anos de experiência clínica, considera que as crianças e jovens enfrentam hoje desafios emocionais diferentes? Estamos mais preparados, enquanto sociedade, para os acompanhar?
Sinto que o contexto mudou. Não diria que as crianças são mais frágeis, mas vivem com mais estímulos, comparação e pressão para corresponder. A escola tornou-se muito exigente em resultados e escolhas de futuro. Muitas passam demasiado tempo a perguntar “o que esperam de mim?” e pouco a descobrir “quem sou eu?”, “do que gosto?” e “o que quero?”. As redes sociais reforçam a imagem de uma vida fácil e perfeita. Há um risco em valorizarmos tanto a adaptação que deixamos pouco espaço para a autonomia.
Hoje fala-se mais de saúde psicológica, mas ainda chegamos muitas vezes quando o problema já está instalado. Estamos mais conscientes, mas não necessariamente mais preparados. Precisamos de mais prevenção e de mais espaço para brincar, experimentar, falhar e descobrir quem se é.










