O que a área do Direito da Família lhe ensinou sobre as pessoas que dificilmente se aprende nos códigos jurídicos?
O Direito da Família é uma das áreas mais humanas do ordenamento jurídico, porque lida com a imprevisibilidade dos afetos. Ensina que os filhos não são propriedade dos pais, mas titulares do direito ao cuidado, exigindo aos adultos que coloquem o seu interesse acima do ego e conveniências pessoais.
A justiça dita sentenças, mas não resolve conflitos emocionais. Muitas vezes, o superior interesse da criança é usado para camuflar retaliações pessoais. O verdadeiro triunfo não está numa sentença imposta, mas numa solução equilibrada. Por isso, o advogado deve ser a voz da razão, ajudando o cliente a evitar impulsos retaliatórios, porque o divórcio extingue o casal, mas nunca os pais.
Houve algum momento em que percebeu que a liberdade de trabalhar por conta própria também podia ser um risco?
A prática individual mostra que liberdade e solidão são duas faces da mesma moeda. O risco operacional e psicológico manifesta-se no peso do erro solitário (prazos e estratégia recaem sobre uma só pessoa), na ilusão da gestão do tempo (autogestão da exaustão por risco de burnout) e no confronto com o inesperado (imprevistos de saúde não congelam prazos judiciais).
Para equilibrar esta realidade, é essencial criar uma rede de colegas de confiança e adotar métodos rigorosos de organização. Ainda assim, a autonomia sobre o próprio tempo compensa o peso da responsabilidade.
Existe espaço para intuição, sensibilidade e criatividade no exercício diário da profissão?
A advocacia exige criatividade, intuição e sensibilidade. Como a lei não consegue antecipar todas as transformações das relações humanas, cabe ao advogado encontrar soluções ajustadas à realidade concreta. Isso traduz-se na utilização inovadora de institutos jurídicos, no preenchimento de conceitos como a boa-fé ou o superior interesse do menor e na aplicação de mecanismos como a analogia e a equidade para humanizar a rigidez dos códigos.
A experiência confere ainda uma intuição estratégica crucial para antecipar reações e ditar o timing exato de litigar ou acordar, enquanto a inteligência emocional permite “ler a sala de audiências” e adequar a linguagem. Contudo, esta criatividade técnica está sempre subordinada aos princípios gerais do Direito e ao objetivo de alcançar a justiça.
“A advocacia exige criatividade, intuição e sensibilidade. Como a lei não consegue antecipar todas as transformações das relações humanas, cabe ao advogado encontrar soluções ajustadas à realidade concreta”
Se tivesse de escolher um único mito sobre a advocacia, o que gostaria de desmontar e porquê?
Gostaria de desmontar a ideia de que a excelência na advocacia está na capital ou nos grandes centros urbanos, pois a competência, o rigor e o talento não escolhem coordenadas geográficas. Na verdade, os escritórios regionais oferecem um acompanhamento mais próximo e personalizado, aliado a um profundo conhecimento das realidades locais
Além disso, dispõem das mesmas ferramentas tecnológicas e bases de dados jurídicas que qualquer grande sociedade. O valor real de um advogado afere-se pelo rigor científico, atualização constante e dedicação à causa, e nunca pelo seu código postal.











