“Ser mediador de seguros é uma profissão nobre”

David Pereira é o atual presidente da Associação Nacional dos Agentes e Corretores de Seguros (APROSE) e um defensor da profissionalização da atividade seguradora, com todos os direitos e deveres que isso acarreta. Durante a entrevista, falou das dificuldades do setor, da seleção natural feita pelas novas tecnologias e de como o toque humano continua a ser fundamental para este setor de atividade.

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David Pereira, presidente

Nunca tendo conhecido outra profissão, David Pereira considera a mediação de seguros um trabalho nobre, que implica conhecer e compreender o cliente, colocando-o como figura central do processo de venda de um seguro. Atualmente é presidente da APROSE, em fim de mandato, não tendo decidido ainda se irá ou não recandidatar-se. A APROSE atual resulta da fusão da Associação Nacional dos Agentes e Corretores de Seguros (ANACS), que representava essencialmente os profissionais da mediação do sul do país, e da Associação Nacional dos Agentes e Corretores de Seguros (APROSE), que foi a primeira (e única) associação do setor com sede no Porto, e que agregava todos os profissionais desta área, até ao momento em que se dá uma cisão e alguns mediadores e corretores de Lisboa fundaram a ANACS: “Não temos dimensão, enquanto país, para ter duas associações, que representavam exatamente o mesmo setor, falavam dos mesmos problemas mas apenas tinham associados no Norte ou no Sul do país. Tomei a iniciativa de contactar a APROSE, quando era presidente da ANACS, e sugerir que nos fundíssemos, o que veio a suceder em 2015”.

Problemas de “ontem” e de “hoje”

A mediação de seguros atravessou uma época difícil, quando poucos clientes acreditavam e confiavam num mediador de seguros. No entender do presidente da APROSE, isso deveu-se à gestão que as seguradoras fizeram dos seus ativos: “Havia um mediador em cada aldeia portuguesa. Em tempos, as seguradoras queriam apenas vender seguros e a formação era deixada de parte. Bastava ter alguma importância no espaço social que ocupava e já era relevante para a seguradora ter aquela pessoa como mediador. Quando o setor começou a ser mais regulamentado e, sobretudo, quando a tecnologia foi introduzida na área seguradora, muitos desistiram da profissão – uns porque não quiseram evoluir e formar-se, outros porque não era a sua principal atividade e outros ainda porque esgotaram as suas capacidades de venda de seguros”.

Atualmente, é ainda a tecnologia que continua a depurar o número de profissionais de seguros – são cerca de 14 mil, mas David Pereira acredita que o número poderá baixar até aos 10 mil (entre mediadores e corretores). Cada vez mais, os contratos de seguros são feitos online pelos mediadores profissionais, as apólices são enviadas por email e a digitalização e automatização de processos está a avançar rapidamente, no sentido de complementar o trabalho humano: “Para mim, a tecnologia serve para nos complementar, nunca para substituir. Veja-se o caso dos seguros efetuados através das seguradoras diretas – nunca vingaram, porque nada substitui a confiança que um cliente deposita no seu mediador. A base desta relação é o aconselhamento – um cliente é o centro da atenção do mediador – é para ele, e com ele, que o mediador trabalha, apresentando uma proposta que verdadeiramente lhe sirva, exatamente à sua medida. Isso é imbatível. O toque humano nunca será substituído pela tecnologia”.

Esta preocupação com os clientes não acontece nas instituições bancárias, quando o cliente precisa de um empréstimo é obrigado a subscrever um seguro na seguradora parceira desse mesmo banco: “Os bancos são, atualmente, tão mediadores como os associados da Aprose, embora o seu objetivo seja muito diferente dos objetivos da mediação profissional. Os mediadores profissionais são consultores, e conselheiros, dos seus clientes, sendo este o objetivo final da nossa atividade. Apesar deste profissionalismo humanista em benefício dos nossos clientes e da manutenção estável das carteiras das seguradoras, a nossa retribuição é diminuta quando comparada com as comissões altíssimas auferidas pelos mediadores bancários. Esta diferença de rendimentos já foi publicamente referida, e condenada, pelo presidente da EIOPA, Dr. Gabriel Bernardino. Esta atitude perpetrada pelas seguradoras, diferenciando a mediação profissional da mediação bancária, pode até ser legal, mas é moral e eticamente condenável”.

Todavia, David Pereira considera que a mediação de seguros irá adaptar-se ao futuro e sobreviver: “Os produtos de seguros são adaptáveis e estão em contínuo desenvolvimento, tal como a vida. A mediação de seguros vencerá sempre enquanto acrescentar valor ao serviço que presta”.

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