Soraia Rangel: uma líder emocional, intuitiva e humana

Soraia Rangel é uma mulher das artes. Como a própria afirma nesta entrevista, o “talento arrepia-a”. A criação da AROUNDtheTREE nasce do gosto pela arte, mas também da vontade de fazer diferente: uma marca com alma, que carrega o saber-fazer português e a alma de um produto como a madeira. Este projeto já conquistou inúmeros prémios e algumas peças estão representadas em instituições como o MUDE, a Presidência da República ou o Palácio de São Bento, onde a NESTWings Chair já é pela segunda vez consecutiva escolhida como cadeira do primeiro-ministro de Portugal. Uma entrevista sobre liderança, mas também sobre o crescimento de uma empresa que baseia a sua presença nas raízes nacionais e na qualidade do que é português.

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É formada em Marketing e Publicidade, mas o Design tem um lugar especial no seu coração e na sua vida profissional. De onde lhe vem esta paixão?

Sempre fui apaixonada pelas artes, pela dança, pela música, pela representação, pela emoção que nasce da criatividade. Desde muito nova que o talento me toca profundamente, em qualquer forma: o talento arrepia-
-me. O meu destino parecia estar desenhado para o palco, mas o caminho levou-me para outro palco, o da Comunicação, do Marketing e da Publicidade — áreas que também se ligavam à minha essência: comunicar, criar,
inspirar. Sempre fui movida por ideias e pela vontade de construir algo com propósito.

Há 12 anos criou a AROUNDtheTREE, “orgulhosamente portuguesa”. O que procurava trazer para o mercado com esta marca?

Fui levada para o mundo do design através de um contexto familiar e esse universo tornou-se uma extensão daquilo que sou: uma mulher que acredita no poder da criação e nas histórias bem contadas. Fundei a AROUNDtheTREE com uma intenção muito clara: fazer diferente. Queria uma marca com alma, feita de pessoas e não de estruturas; pequena no tamanho, mas enorme na ambição. Ambição de mostrar que Portugal tem excelência e autenticidade suficientes para competir com o mundo sem deixar de ser genuinamente português. Começámos com pouco e com o “não” como resposta constante. Mas o “não” nunca me travou, foi sempre o ponto de partida. Passo a passo, conquistámos reconhecimento: prémios internacionais, parcerias e o orgulho de ver as nossas peças representarem Portugal no MUDE, na Presidência da República, no Palácio de São Bento, no Conselho Europeu, na Expo Dubai e na Websummit. Cada conquista foi uma prova de que acreditar e persistir são forças criadoras.

Como descreve a sua liderança e a evolução ao longo desta década?

A minha liderança é emocional, intuitiva e humana. Acredito que se lidera com presença e empatia. Gosto de inspirar as pessoas a acreditarem no que fazem e a sentirem orgulho no que criam. Com o tempo aprendi que liderar não é controlar, mas sim inspirar e libertar. Hoje lidero com mais serenidade, com a clareza de quem já caiu muitas vezes, mas nunca desistiu.

Descreve-se como “founder e believer”. O que significa para si ser um “believer”?

Não gosto de títulos nem de cargos, acredito em pessoas e autenticidade. Ser “believer” é acreditar antes de ver, é continuar quando o mundo duvida. É perceber que cada projeto é um caminho de aprendizagem e que o sucesso nasce da resiliência. Acreditar é o primeiro passo de qualquer conquista, é o que realmente me move, em tudo o que faço e sonho.

Como avalia o crescimento da AROUNDtheTREE ao longo da década?

A AROUNDtheTREE cresceu como crescem as coisas com alma: com tempo, dor, amor e persistência. Foi uma década de desafios e conquistas, em que provámos que é possível ser uma marca portuguesa com impacto internacional. Os prémios foram importantes, não apenas pelo prestígio, mas porque abriram portas e validaram o que fazíamos com paixão. Mas o verdadeiro crescimento está nas pessoas que se emocionam com as nossas peças e na forma como conseguimos levar o nome de Portugal a lugares onde antes não se imaginava ver design português. Hoje, a marca entra num novo ciclo mais forte, madura e fiel à sua essência. Está numa fase de renascimento, e eu sinto-me pronta para a elevar a outro patamar, com a mesma paixão e propósito.

Porque continua a apostar na tradição artesanal e na produção nacional?

Porque acredito que o futuro só faz sentido quando respeita as raízes. Acredito profundamente na arte do saber-fazer, algo que Portugal tem de forma única e que não pode perder. A madeira é um material vivo, com alma e
memória. Os nossos artesãos são o reflexo da nossa história, cultura e identidade. Procurei sempre unir o melhor dos dois mundos: a sabedoria manual do passado e a inovação tecnológica do presente. A tecnologia torna-nos
mais precisos e sustentáveis, mas é o artesão que dá alma à peça. Produzir em Portugal não é apenas uma escolha
ética — é uma forma de proteger o que temos de mais valioso. Cada peça da AROUNDtheTREE carrega o ADN português, o toque humano e o respeito pela natureza. O futuro pode ser inovador, mas nunca deve deixar de ser autêntico.