Liderar com rigor e humanidade

Dulce Forte, CEO e Fundadora da Dulce Forte Consulting Group, escolheu criar a própria estrutura em vez de depender das circunstâncias e construiu uma liderança assente na literacia financeira, na estratégia e na autonomia, defendendo que o verdadeiro empoderamento feminino começa na capacidade de decidir com independência.

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Qual foi o momento ou a decisão que a levou a criar a sua consultora e a seguir o percurso empreendedor que tem hoje?
O meu percurso empreendedor começou formalmente em 2006, quando fiquei desempregada após vários anos como Coordenadora de Formação Profissional e com uma carreira na área da consultoria. Em vez de encarar essa situação como um retrocesso, decidi transformá-la numa oportunidade.

No entanto, a verdade é que o “bichinho” do negócio próprio sempre fez parte da minha história. Sou filha e neta de empresários – filha do homem do talho e neta do agricultor. Cresci a assistir à realidade de quem trabalha por conta própria, assume riscos, gere recursos limitados e depende do esforço diário para garantir estabilidade. Não venho de famílias conhecidas nem de grandes estruturas empresariais. Venho de uma cultura de trabalho, responsabilidade e autonomia.

Em 2006 criei a minha empresa, sustentada por mais de 15 anos de experiência em formação, elaboração de projetos de investimento, candidaturas a fundos comunitários e gestão. Assim nasceu a DULCE FORTE Consulting Group (www.dulceforte.com), atualmente com foco em consultoria de gestão, contabilidade e formação certificada.

Empreender não foi apenas criar uma empresa, foi assumir o controlo do meu percurso profissional. Ao longo dos anos, esse caminho consolidou-se com a criação da AESS (www.economia-sustentavel.com), em 2013, com forte intervenção na área da educação financeira, e da AIIE (www.aiie.pt), em 2016, dedicada ao apoio à internacionalização de micro e pequenas empresas.

O desemprego foi o catalisador, mas a raiz empreendedora sempre esteve presente. Escolhi não ficar dependente das circunstâncias. Escolhi criar impacto, autonomia e soluções e essa continua a ser a base do meu percurso até hoje.

De que forma a sua experiência enquanto mulher influenciou a forma como lidera e gere a sua empresa?
A minha liderança foi moldada pelo percurso profissional que construí e pelos desafios que fui enfrentando ao longo de mais de três décadas de carreira. A experiência enquanto mulher em contexto empresarial reforçou em mim a importância da consistência, da preparação e da segurança nas decisões.

Valorizo muito a construção de relações de confiança, a clareza na comunicação e a coerência entre discurso e ação. Acredito numa liderança humanizada, mas exigente. Para mim, liderar não é impor, é orientar, dar direção e criar condições para que as pessoas cresçam com responsabilidade.

Aprendi também que firmeza não significa dureza e que sensibilidade não é fragilidade. É possível gerir com rigor financeiro, visão estratégica e, simultaneamente, manter proximidade com a equipa e com os clientes. Essa capacidade de equilibrar racionalidade e empatia tornou-se uma das bases da minha gestão.

Hoje lidero com segurança, sem necessidade de replicar modelos que não se alinham com os meus valores. A minha forma de gerir assenta na confiança, no compromisso e na criação de impacto sustentável, nas empresas e nas pessoas.

Ao olhar para os mais de 30 anos de carreira, quais foram as maiores barreiras que sentiu como mulher em cargos de gestão e como as ultrapassou?
Sendo muito transparente, no meu percurso, nunca senti que o facto de ser mulher tivesse sido um obstáculo. Desde 2006, quando criei a minha própria estrutura, sempre me foquei na competência, nos resultados e na criação de valor e isso foi o que prevaleceu.

Os momentos mais desafiantes aconteceram antes disso, enquanto colaboradora por conta de outrem, nos últimos anos dessa fase profissional. Vivi situações de pressão excessiva e alguma violência psicológica, que hoje reconheço como experiências difíceis, mas também transformadoras. Ensinaram-me a reforçar limites, a confiar ainda mais na minha preparação técnica e, sobretudo, a perceber que nenhum cargo justifica a perda de dignidade ou de equilíbrio.

Entre 2013-2015 atravessei uma fase exigente e simultaneamente enriquecedora, com períodos de trabalho no Kuwait e em Moçambique, onde estive envolvida na implementação e dinamização de novos projetos. Foram contextos culturalmente distintos, mas nunca senti resistência por ser mulher. Pelo contrário, fui respeitada, apoiada e acompanhada, inclusive por parceiros e equipas masculinas locais. Essa experiência reforçou a minha convicção de que a competência, a postura e a clareza estratégica ultrapassam barreiras culturais.

Hoje olho para esses momentos como etapas de crescimento. Cada desafio consolidou a minha resiliência, a minha capacidade de liderança e a certeza de que o profissionalismo consistente fala mais alto do que qualquer preconceito.

A DF Consulting Group trabalha com muitas pequenas e médias empresas. Observa diferenças na forma como estas empresas abordam a igualdade de género no local de trabalho?
Nas micro e pequenas empresas, a igualdade de género ainda é muitas vezes tratada de forma informal e, em alguns casos, pouco estruturada. Muitas vezes depende diretamente da visão e da sensibilidade do líder. Existem empresas já bastante conscientes e organizadas neste tema, mas noutras a prioridade continua centrada na sobrevivência e no crescimento imediato do negócio.

No entanto, observo uma evolução positiva. As novas gerações de empresários estão mais sensibilizadas para a importância da diversidade, não apenas como uma questão social, mas como um fator estratégico de competitividade, inovação e retenção de talento.

Vejo também cada vez mais mulheres a optarem pelo empreendedorismo como forma de afirmação profissional. Em muitos casos, essa decisão surge após experiências exigentes no mercado de trabalho, contextos de elevada pressão, desgaste emocional ou falta de reconhecimento, que acabam por funcionar como ponto de viragem. Em vez de se resignarem, escolhem criar o seu próprio espaço, definir regras, equilibrar vida pessoal e profissional e liderar com os seus próprios valores. E isso, na minha perspetiva, é um sinal claro de maturidade e transformação do tecido empresarial.

Na sua opinião, quais são as competências ou características que mais contribuem para o sucesso de uma mulher no mundo dos negócios hoje em dia?
Destaco cinco competências essenciais: literacia financeira, pensamento estratégico, capacidade de negociação, inteligência emocional e autoconfiança.

A literacia financeira é fundamental porque dá independência na tomada de decisão. O pensamento estratégico permite visão de médio e longo prazo. A negociação é determinante num mercado competitivo. A inteligência emocional facilita a gestão de equipas e clientes. E a autoconfiança é a base que sustenta todas as outras competências.

Mas acrescentaria algo que muitas vezes é subestimado: o bem-estar financeiro. Quando uma mulher (ou homem) vive sob pressão financeira constante, a sua capacidade de decisão, foco e produtividade fica comprometida. Falo com conhecimento de causa. Entre 2013-2015 numa fase particularmente desafiante, tive de recomeçar e reorganizar a minha vida profissional e financeira. Nessa altura, a necessidade de superar desafios económicos sobrepunha-se, muitas vezes, à capacidade de avaliar oportunidades com a serenidade estratégica necessária. E isso ensina, e muito!

Foi precisamente essa experiência que reforçou a minha convicção de que estabilidade financeira não é luxo, é base estrutural para produzir melhor, decidir melhor e aproveitar oportunidades no momento certo. O sucesso sustentável exige competência técnica, mas também equilíbrio emocional e financeiro. Sem essa base, o talento pode existir, mas dificilmente floresce na sua plenitude.

Acredita que o panorama empresarial português está a evoluir no que respeita à inclusão e liderança feminina? O que ainda falta alcançar?
Sim, está a evoluir. Hoje vemos mais mulheres em cargos de liderança, mais debate público e maior consciencialização empresarial. Contudo, ainda existe um caminho a percorrer no que toca à igualdade salarial, à representação feminina em posições de topo e à conciliação efetiva entre carreira e família.

É necessário continuar a trabalhar a mudança cultural, incentivar modelos de referência e promover políticas que não penalizem a maternidade ou a liderança feminina.

Que conselhos daria a jovens mulheres que estão a iniciar o seu percurso profissional ou empreendedor neste contexto empresarial competitivo?
Diria três coisas fundamentais: invistam em conhecimento, construam rede e não tenham medo de assumir ambição.

Formação contínua é poder. Networking é estratégia. E ambição não é arrogância, é visão de futuro. É igualmente importante aprender a gerir finanças pessoais desde cedo. A independência económica é uma das maiores formas de liberdade.

E, acima de tudo, não esperem validação externa para avançar. Preparem-se, decidam e ajam!

Olhando para o futuro da sua organização e para a sua missão pessoal, que legado gostaria de deixar às próximas gerações de mulheres profissionais e empreendedoras?
Gostaria de deixar um legado de capacitação. Que a minha organização seja reconhecida por ajudar empresários a pensar melhor, decidir melhor e crescer com sustentabilidade.

A nível pessoal, gostaria de ser lembrada como alguém que promoveu a literacia financeira como ferramenta de autonomia, especialmente junto de mulheres e jovens. Acredito profundamente que quando uma mulher compreende números, estratégias e riscos, ganha poder de decisão sobre a sua vida e o seu negócio.

O meu objetivo é que esse contributo se traduza numa geração de mulheres mais preparadas financeiramente, mais seguras nas suas decisões e menos dependentes de circunstâncias externas.