Transição digital: oportunidade para a inovação pedagógica

0
248
António de Sousa Pereira, Presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) e Reitor da Universidade do Porto

As medidas de combate à pandemia de Covid-19, em particular o confinamento social e o distanciamento físico, aceleraram a transição digital das instituições e empresas portuguesas. Tem vindo a ser feito um notável esforço para prestar serviços, comercializar bens, interagir com stakeholders, trabalhar em equipa, organizar processos e gerir tarefas remotamente, recorrendo às potencialidades das tecnologias e plataformas digitais.

A verdade é que, independentemente da crise pandémica, a transição digital era já uma tendência inexorável, mercê da avassaladora revolução tecnológica em curso no mundo. De resto, as vantagens da digitalização são por demais evidentes e transversais a vários sectores de atividade.

A transição digital é uma oportunidade para instituições e empresas aumentarem a sua produtividade e competitividade, entrarem em novos mercados e atraírem diferentes públicos, analisarem dados com maior eficiência e melhorarem a sua relação com os stakeholders. Este último ponto assume especial relevância, na medida em que o comportamento das pessoas é cada vez mais influenciado pelas tecnologias e plataformas digitais, que se estão a impor como principais meios de interação social e acesso ao conhecimento.

No caso das instituições de ensino superior, a aceleração da transição digital traduziu-se, sobretudo, num muito maior recurso ao modelo de ensino não presencial, apoiado em tecnologias e plataformas digitais. Modelo esse que implicou a adoção de novas metodologias, conteúdos e ferramentas no processo de ensino-aprendizagem, bem como uma mudança de rotinas quer dos estudantes, quer dos docentes.

Importa ressalvar, contudo, que as vantagens pedagógicas do ensino à distância há muito que são conhecidas, valorizadas e maximizadas no ensino superior. O e-learning é uma solução formativa credível, eficaz e adequada às novas tendências e comportamentos sociais, em especial dos nativos digitais. A crescente mobilidade humana à escala global exige um modelo de ensino sem limites geográficos ou espaciais e com grande flexibilidade de funcionamento.

A generalização do uso de tecnologias e plataformas digitais no ensino superior vai seguramente acentuar-se, o que obrigará a uma profunda reconfiguração das metodologias, técnicas, modelos e conceitos pedagógicos. Temos vindo a assistir, aliás, a um extraordinário desenvolvimento tecnológico do ensino à distância, com recurso à inteligência artificial (machine learning), ao cloud computing e ao gaming, por exemplo.

O ensino à distância tem, de facto, enormes virtualidades e poder atrativo, mas não pode ser encarado como uma alternativa ao modelo presencial. O e-learning deve, sim, ser um complemento ao ensino em sala de aula e, enquanto tal, parece-nos útil e enriquecedor para os estudantes. Por mais virtuosas que sejam, as tecnologias e plataformas digitais não substituem a interação física e a alteridade nas relações professor-estudante. O diálogo, a entreajuda, as sinergias e a empatia que se estabelecem numa sala de aula favorecem claramente o processo de ensino-aprendizagem.

É também fundamental que os estudantes do ensino superior frequentem aulas práticas e laboratoriais, de forma a ganharem rotinas de investigação científica e a treinarem as técnicas que vão aplicar nas suas vidas profissionais. O ensino nas universidades deve ser apoiado nas atividades de I&D, para que o estudante não seja um mero recetor passivo de conteúdos pedagógicos mas, sim, um elemento ativo na descoberta, ou mesmo produção, do conhecimento. Isto implica alargar e aprofundar os modelos de ensino-aprendizagem baseados em projetos, de forma a promover a autoaprendizagem e o trabalho em equipa.

Considerando as potencialidades quer do ensino presencial quer do ensino à distância, a evolução pedagógica no ensino superior vai passar, certamente, pelo b-learning (blended learning). Trata-se de um modelo de ensino que combina componentes de formação remota, através de tecnologias e plataformas digitais, com a formação presencial. O b-learning permite tirar proveito das potencialidades do ensino à distância – designadamente as inovações tecnológicas, os conteúdos multimédia, a mobilidade geográfica, a flexibilidade de horários, etc. –, sem abdicar da interação física entre professor e estudante, que é decisiva para o sucesso do processo de ensino-aprendizagem.

Creio, pois, que o ensino superior vai reforçar os seus modelos de b-learning. Ou seja, vai privilegiar um sistema de ensino presencial mas apoiado por tecnologias e plataformas digitais, o que, para além das vantagens já referidas, possibilita a diversificação e modernização da oferta formativa. O b-learning favorece a abertura de programas de estudos mais curtos, flexíveis e customizados. A tipologia dos cursos no ensino superior pode, assim, adaptar-se às necessidades de diferentes públicos e conferir diferentes graus de especialização, observando a exigência contemporânea de multi e interdisciplinaridade curriculares. Acresce que o b-learning familiariza os estudantes com as novas tecnologias e amplia as suas competências digitais, fator crucial para a integração no mercado de trabalho.

Por tudo isto, um ensino com uma significativa componente de formação remota contribui para a internacionalização das universidades. A OCDE estima que o número de estudantes universitários internacionais rondará os oito milhões, em 2025. É neste contexto de forte globalização que as instituições de ensino superior competem entre si pela captação e retenção de talento. Ora, dar aos estudantes internacionais modelos de ensino mais inovadores e modernos é, naturalmente, um fator de atração de talento, sobretudo ao permitir que parte da formação seja realizada à distância.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here