Quais as janelas que se fecharam e que janelas se irão abrir?

0
402
Luís Menezes Leitão, Bastonário da Ordem dos Advogados

Após o Presidente da República ter decretado o Estado de emergência a 18 de Março devido à situação de pandemia, iniciámos como sociedade um conjunto de alterações profundas no nosso modo de vida. O confinamento e a obrigatoriedade de teletrabalho obrigaram a encontrar soluções que permitissem tanto quanto possível manter a nossa vida pessoal e profissional.

Os Advogados são desde há muito anos obrigados a fazer uso de meios tecnológicos no desempenho da sua actividade profissional diária. Desde 1999 que é possível o envio de peças processuais por correio electrónico para os Tribunais. O Citius, enquanto ferramenta de tramitação processual, é utilizado pelos Advogados que interagem com este sistema via internet, e é desde 30 de Junho de 2008 o meio de entrega de peças processuais por tramitação electrónica nos tribunais judiciais, desempenhando o SITAF a mesma função nos tribunais administrativos e fiscais. Existem ainda um vasto conjunto de ferramentas no âmbito dos registos cuja utilização pelos Advogados é feita recorrendo a plataformas electrónicas.

Para os Advogados a utilização de meios digitais para a execução da sua actividade não representou assim uma ruptura uma vez que para a grande maioria a utilização destas ferramentas era já uma componente essencial da sua actividade profissional.

A adaptação a esta nova realidade é muito mais do que garantir as competências para interagirmos de forma digital. Foi necessário mudar profundamente as formas de trabalho. Nesta profissão o contacto pessoal entre o Advogado e o seu cliente, ou entre colegas, é essencial e as restrições impostas pela situação pandémica trouxeram aqui desafios importantes. Também toda a actividade desenvolvida nos Tribunais teve de ser adaptada às contigências decorrentes da sistuação pandémica, chegando a ser realizados julgamentos por via electrónica, que no entanto não funcionaram adequadamente. Infelizmente, os meios tecnológicos utilizados nos Tribunais para a realização de diligências por videoconferência não asseguraram a fiabilidade e qualidade necessárias para que a sua utilização que se pudesse tornar comum.

Foi na vertente da necessidade de encontrar formas de susbtituir o contacto pessoal dos Advogados com os seus clientes e entre si que se deu uma grande evolução. Até Março de 2020 para grande parte dos Advogados a realização de reuniões por videoconferência ocorria raramente. Com a pandemia tornou-se, porém, impossível realizar os contactos pela habitual via presencial, obrigando à utilização de meios digitais que permitissem realizar videoconferências à distância. Dessa forma e proporcionando um contacto visual entre os participantes conseguia-se replicar, com as diferenças que conhecemos, as reuniões e contactos pessoais. Surgiu assim uma panóplia de ferramentas digitais que proporcionam a realização de videoconferências. Num curto espaço de tempo todos nós passámos a ser utilizadores de uma ou mesmo de várias destas plataformas. As formas de trabalho nos escritórios adaptaram-se, fomentando a utilização de instrumentos tecnológicos que permitissem o contacto imediato e constante com pessoas que se encontram fora do seu local de trabalho habitual, mas que nem por isso deixam de trabalhar.

Estas plataformas, que permitem a realização de videochamadas entre vários participantes, trazem ainda ferramentas que oferecem funcionalidades adicionais como a partilha de documentos, e partilha de écran, e a gravação de reuniões, entre outras.

Passados quase nove meses desde o início das restrições de contactos pessoais, verificamos que estas novas formas de reunião e comunicação foram já interiorizadas e é expectável que num futuro pós-pandemia continuem a ser usadas, substituindo em muitos casos as formas usadas no período anterior à pandemia. Vai deixar de ser com certeza considerado justificado efectuar deslocações longas para participar em reuniões que se podem realizar perfeitamente à distância.

No caso do Conselho Geral da Ordem dos Advogados temos vindo a realizar desde Março todas as reuniões habituais recorrendo a estes meios de comunicação à distância. Com a continuidade da sua utilização e com os meios técnicos adequados conseguimos garantir a qualidade necessária para que este seja um meio válido a usar no futuro evitando deslocações não imprescindíveis.

Também nos serviços do Conselho Geral foram realizadas as adaptações técnicas necessárias que permitem que a generalidade dos nossos colaboradores se encontre em teletrabalho sem qualquer prejuízo para a actividade que desempenham.

A pandemia provocou estas mudanças, uma vez que a tecnologia já existia, as ferramentas digitais estavam disponíveis, mas só uma pequena parte de nós estava preparada para ser agente de mudança e conseguir transformar as formas como interagimos e desenvolvemos a nossa actividade.

A pandemia foi um acelerador deste novo paradigma, em que a tecnologia está disponível para apoiar e potenciar a mudança.

Aos Advogados são colocados novos desafios mas os mesmos saberão adaptar a sua actividade a esta nova realidade, onde o trabalho colaborativo e os contactos pessoais são agora feitos de outra forma. O que se perde do contacto pessoal pode ser compensado pela produtividade trazida pelos sistemas digitais que, como tem sempre ocorrido, irão oferecer cada vez mais soluções novas para este novo mundo.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here