Uma política orientada pelo bem comum no Algarve

Carlos Deus Pereira, o novo Presidente da Comissão Política Concelhia do PSD de Faro, defende a necessidade de uma visão estratégica para o Algarve, abordando problemas como a habitação e a pressão turística. Com um apelo à responsabilidade cívica, promete uma mudança de paradigma na política local, priorizando a seriedade e a conexão com as comunidades.

0
229

A sua eleição surge num momento politicamente exigente para o Algarve. Qual considera ser, hoje, o maior bloqueio ao desenvolvimento da região, e como pretende enfrentá-lo de forma concreta?
O maior bloqueio ao desenvolvimento do Algarve não é apenas material ou administrativo; é, antes de tudo, um bloqueio de natureza política e cultural: a incapacidade persistente de pensar a região para além da gestão do imediato. Durante demasiado tempo, o Algarve foi tratado como um espaço de rendimento sazonal e não como uma comunidade humana e territorial com necessidades permanentes, complexas e interdependentes.

Quando uma região vive excessivamente dependente da urgência, perde a possibilidade de se organizar em função do futuro. E é isso que tem acontecido. A questão da água, da habitação, da mobilidade, da saúde ou da diversificação económica não pode continuar a ser abordada como um conjunto de episódios separados. Exige-se uma visão de conjunto, uma cultura de planeamento e, sobretudo, uma política que volte a merecer o nome de política: isto é, uma ação orientada pelo bem comum e não pela administração tática de pressões circunstanciais.

Aquilo que pretendo defender, de forma concreta, é precisamente essa mudança de paradigma: menos improvisação e mais estratégia; menos propaganda e mais capacidade de execução; menos submissão a decisões centralizadas e mais afirmação da legitimidade regional. O Algarve tem de deixar de ser apenas um território economicamente útil, para passar a ser politicamente reconhecido.

O PSD Faro tem tido dificuldades em afirmar uma estratégia consistente nos últimos anos. O que vai mudar sob a sua liderança que permita recuperar relevância política na cidade?
Aquilo que desejo mudar não é apenas a intensidade da presença política do PSD Faro; é a natureza dessa presença. A política perdeu, em grande medida, densidade intelectual, profundidade cívica e seriedade institucional. Tornou-se muitas vezes reativa, fragmentária e excessivamente dependente do ruído. Ora, uma estrutura política só recupera relevância quando volta a ser capaz de interpretar a sociedade com inteligência, escutá-la com humildade e intervir com autoridade moral.

Sob a minha liderança, o PSD Faro deve afirmar-se menos como máquina eleitoral e mais como espaço de responsabilidade cívica. Não basta disputar conjunturas; é preciso reconstruir confiança. E a confiança não se reconstrói com palavras de ocasião, mas com coerência, preparação e presença continuada no território.

Quero um PSD Faro mais aberto à sociedade civil, mais permeável ao conhecimento técnico, mais atento às inquietações reais das famílias, dos jovens, dos mais velhos, dos profissionais, dos empresários e de todos aqueles que sentem que o debate público já não os representa. Se conseguirmos restituir seriedade ao discurso político e utilidade à ação partidária, a relevância regressará como consequência e não como artifício.

Sendo advogado, traz uma visão técnica e jurídica à política. De que forma essa experiência influenciará decisões práticas dentro da estrutura distrital?
A advocacia ensina, desde logo, uma disciplina fundamental para a vida pública: a recusa da ligeireza. Obriga-nos a estudar, a distinguir o essencial do acessório, a compreender que cada decisão tem pressupostos, consequências e limites. Num tempo em que a política se tornou frequentemente refém da simplificação e do impulso, essa formação pode ser útil precisamente por introduzir prudência, rigor e sentido de responsabilidade.

Mas gostaria de sublinhar um ponto: não vejo a técnica como substituto da política, nem o direito como refúgio burocrático. Vejo-os como instrumentos de seriedade. Uma decisão politicamente legítima deve ser, tanto quanto possível, tecnicamente informada e juridicamente sólida. Caso contrário, converte-se facilmente em voluntarismo, e o voluntarismo, na vida pública, costuma pagar-se caro.

Na estrutura local, essa experiência traduzir-se-á numa maior exigência na formulação de propostas, numa cultura de preparação mais consistente e numa valorização do trabalho sério em detrimento da mera teatralidade política. A cidadania democrática merece mais do que proclamações; merece soluções sustentáveis, pensadas e exequíveis.

Que medidas específicas pretende propor para responder a problemas estruturais de Faro, a pressão turística e a falta de habitação acessível?
Esses dois problemas têm em comum um aspeto essencial: mostram-nos que uma comunidade pode ser economicamente dinâmica e, ainda assim, socialmente vulnerável. O crescimento, por si só, não garante equilíbrio, nem justiça, nem dignidade territorial. E é precisamente aí que a política deve intervir: não para negar a economia, mas para a ordenar segundo critérios de responsabilidade intergeracional.

Quanto à pressão turística, importa dizer com clareza que o turismo é decisivo para o Algarve, mas não pode ser a medida única da sua organização social. Uma região não pode viver apenas para ser consumida. Tem de continuar a ser habitável para quem nela trabalha, vive, envelhece e cria filhos. Defendo, por isso, uma abordagem mais equilibrada, que compatibilize atividade económica, proteção ambiental, ordenamento do território e qualidade de vida.

Na habitação, a situação tornou-se moralmente inquietante. Uma sociedade que não consegue assegurar condições mínimas de permanência aos seus residentes está, no fundo, a fragilizar o seu próprio pacto cívico. É necessário mobilizar património público devoluto, simplificar processos urbanísticos, incentivar a construção e reabilitação com finalidade habitacional efetiva e criar políticas que não expulsem a classe média e os jovens do espaço onde trabalham e querem viver. O direito a permanecer no seu próprio território é uma questão de cidadania, não apenas de mercado.

O PSD tem enfrentado concorrência crescente de outros partidos à direita. Como pretende diferenciar o partido em Faro sem perder eleitorado tradicional?
A diferenciação do PSD não deve fazer-se por mimetismo, nem por ansiedade. Um partido com a história do PSD não pode responder à fragmentação do espaço político através de uma corrida ao excesso verbal ou à indignação permanente. Essa seria, a meu ver, uma forma de empobrecimento.

A nossa diferença deve residir naquilo que hoje é mais raro e, por isso mesmo, mais valioso: maturidade democrática, sentido de responsabilidade e capacidade de governo. Há um espaço vasto na sociedade portuguesa para uma força política que recuse simultaneamente a complacência e o radicalismo, a resignação e o histrionismo.

O eleitorado tradicional do PSD não procura apenas identidade ideológica; procura confiança, equilíbrio e seriedade. E muitos dos novos eleitores, mesmo quando se sentem tentados por discursos mais agressivos, acabam por procurar o mesmo: autenticidade, clareza e competência. O PSD Faro deve afirmar-se como uma casa política de convicções firmes, mas de linguagem civilizada; de princípios nítidos, mas de vocação democrática ampla. Essa é a melhor forma de não perder os que sempre estiveram connosco e, ao mesmo tempo, merecer a atenção dos que hoje olham para a política com desconfiança.

A relação entre autarquias e concelhias partidárias nem sempre é fluida. Como pretende articular-se com os líderes locais para garantir uma ação política mais coesa?
A coesão não se decreta; constrói-se. E constrói-se a partir de uma ideia muito simples, mas frequentemente esquecida: os partidos não são fins em si mesmos, são instrumentos ao serviço das comunidades. Quando esta evidência se perde, instala-se a lógica da competição interna, da pequena disputa de influência e do cálculo de curto alcance. E então a política deixa de ser serviço para passar a ser mera mecânica de poder.

Olhando para o final do seu mandato, que resultados concretos o fariam considerar que a sua liderança foi bem-sucedida, e quais são as metas que define desde já?
Considerarei que a minha liderança foi útil se o PSD Faro estiver, no final do mandato, mais credível do que hoje: mais próximo das pessoas, mais intelectualmente preparado, mais respeitado no espaço público e mais capaz de representar uma alternativa séria para a região. Não me interessa uma ideia meramente estatística de sucesso, embora os resultados eleitorais sejam naturalmente relevantes. Interessa-me, sobretudo, que o partido recupere densidade cívica e autoridade política.

As metas que assumo são claras: fortalecer a ligação entre o partido e a sociedade civil, qualificar o debate político local, reforçar a articulação entre estruturas locais, atrair novos protagonistas para a vida pública e construir uma agenda consistente para Faro e para o Algarve. Mas há uma meta mais funda do que todas as outras: contribuir, ainda que modestamente, para reconciliar a cidadania com a política.

Vivemos um tempo em que muitos cidadãos deixaram de esperar grande coisa da vida pública. Se, no final deste percurso, tivermos ajudado a restaurar um pouco dessa confiança — não através de promessas grandiosas, mas por via de uma conduta séria, transparente e exigente — então esse terá sido, talvez, o resultado mais importante.