“Uma rotina de sono é essencial para obter um sono reparador e de qualidade”

Já alguma vez sentiu que dorme, mas não descansa? Muitas vezes sente que necessita de estimular o seu cérebro para conseguir adormecer? Pode ter uma doença respiratória do sono ou um distúrbio de sono. A médica Maria José Guimarães, Diretora Clínica da Clínica do Sono, deixa o alerta sobre a importância de conhecer o seu ciclo de sono e aplicar as medidas de higienização do sono para conseguir descansar verdadeiramente.

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Quando se fala em sono, há ainda muito desconhecimento. Por isso, Maria José Guimarães inicia esta entrevista
deixando claro que o número de horas que se dorme não define a qualidade do sono que se tem: “Há pessoas que precisam de dormir mais horas para ter um sono reparador e há pessoas que, com menos horas, alcançam esse objetivo. O que sabemos é que a noite é constituída por ciclos de sono, que têm diferentes fases – temos
o sono Não REM, que é constituído por três fases – a fase 1, 2 e 3, sendo que a fase 3 é a do sono profundo reparador; e temos a fase REM, que é a fase dos sonhos de que nos lembramos. Quando estas fases estiverem concluídas, acabou um ciclo de sono. Se nós conseguirmos fazer essa transição entre fases e sonhar – a fase de sono REM é onde a memória está ativada – conseguimos ter um sono reparador. Sabe-se também que o adulto deve ter quatro a seis ciclos de sono por noite, sendo que cada ciclo varia entre 60 a 120 minutos”.

O sono deve ser ajustado à vida de cada um. O que as principais Sociedades de Medicina do Sono recomendam são no mínimo as sete horas de descanso, sendo que o sono efetivo acontece em seis delas: “À medida que se envelhece, o tempo de sono necessário vai diminuindo. Para adultos entre os 18 e os 65, é recomendável entre sete a nove horas de sono, enquanto para pessoas com mais de 65 anos sete a oito horas é o que é aconselhado”.

Além do cansaço físico, há sintomas psicológicos e emocionais que colocam em evidência a necessidade de descanso: “Se o sono não for reparador, ao longo do dia vamos sentir cansaço, sobretudo intelectual, mas que
também pode ser físico, sonolência diurna excessiva, maior lentidão na execução de tarefas, impaciência, dificuldades de concentração, variações de humor e irritabilidade. Tudo isso são sinais de que o cérebro precisa de descansar mais”. A falta de descanso é a causa de problemas de saúde futuros, como doenças cardíacas (arritmias), doenças metabólicas, como a diabetes e mesmo o cancro.

Uma boa higiene do sono é crucial para a maioria das pessoas melhorar a sua qualidade do sono: “Ao contrário do que se pensa, em 50% dos casos que aqui nos chegam, não é necessário qualquer tratamento com medicação, nem a compra de nenhum aparelho. Basta começar a seguir uma rotina de higiene do sono para sentir a diferença”. Desta rotina de higiene do sono fazem parte o silêncio, o dormir no escuro (o corpo humano foi concebido sem visão noturna porque esse é o momento em que deve estar a descansar) e a não utilização de nenhum aparelho eletrónico que estimule o cérebro (TV, telemóvel, computador), além de ser importante respeitar os seus ciclos de sono.

Segundo Maria José Guimarães, existem cerca de 90 distúrbios do sono, para os quais é possível redigir uma orientação terapêutica, mas são as doenças respiratórias do sono, em particular a Apneia do Sono que preocupa esta médica: “Esta doença é muito preocupante porque muitas pessoas não sabem que a têm. Normalmente, são pessoas que dormem muito, muitas horas, mas cujo sono não é reparador e estão sempre cansadas, o que as leva a adormecer em qualquer lado, quando existe mais silêncio ou quando estão a realizar uma tarefa repetitiva ou monótona (utilizar máquinas, conduzir…)”. Estes sintomas resultam do facto de a pessoa não respirar, quando está a dormir, o que obriga o cérebro a interromper constantemente os ciclos de sono, não permitindo o descanso, pois tem de estar atento à sobrevivência dos restantes órgãos do corpo, dado que se a pessoa adormece, a oxigenação não acontece: “A Apneia do Sono é muito prevalente em Portugal e está classificada como um problema de saúde pública. Mundialmente, calcula-se que atinja 20% da população adulta. São demasiadas pessoas a conduzir e a operar máquinas e a quem pode acontecer, subitamente, adormecer”. Por isso, a preocupação central desta profissional de saúde é passar uma mensagem sobre a importância do
conhecimento: “A maior prioridade é sensibilizar a população para a existência destas doenças e como as tratar. O tratamento existe e está contemplado no SNS como gratuito para quem sofre deste problema”.