Viver previsivelmente

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Gostamos de saber o que vem depois, quem vem e como vem. Gostamos de saber com o que contar, o que podemos controlar, com quem vamos estar e como nos podemos vir a sentir. Gostamos de especular sobre o que conseguimos e o que não conseguimos e, em função disto, onde podemos estar e o que nos propomos a fazer. E o gosto por estas premissas todas nasce da nossa necessidade de segurança, de controlo e de conforto. Quando conseguimos prever como vai ser o dia, a semana, o mês, o próximo Natal, as próximas férias, as rotinas de fim de dia, e como vão agir as pessoas que connosco partilham a vida nos vários contextos, é gerador de segurança porque se torna previsível, aparentemente controlável e confortável. E são estes os motivos pelos quais muitos de nós se mantêm muito tempo em trabalhos, relacionamentos, contextos e grupos que embora previsíveis são tóxicos e nos fazem adoecer. 

A sensação de segurança é dos fatores mais determinantes para a não mudança e para nos mantermos em contextos que nos fazem sofrer.

Mas esta forma de estar não é defeito nem feitio, mas uma necessidade de todos nós. Desde crianças, e para crescermos saudáveis e de forma equilibrada, que precisamos de saber quem são as figuras cuidadoras, com quem ficamos na escola, como são as rotinas diárias e quem vai buscar ao fim do dia, por exemplo. 

Enquanto crianças, e para explorar a mundo precisamos de boas doses de curiosidade, coragem e de sentir segurança na retaguarda por parte das nossas figuras de proteção. É já esta sensação que nos faz avançar ou não, que nos torna curiosos ou passivos em relação à exploração do (nossa) mundo. Mas se enquanto crianças precisamos de saber o que vem a seguir e com quem vamos estar, enquanto adultos este fator não deveria estar tão presente nas nossas escolhas e nos motivos que nos fazem estar onde estamos. 

De facto, não saber o que vem a seguir, em si, não é bom nem é mau, é o que é, e é simplesmente desconhecido. E se pensarmos bem, estamos muitas vezes em contextos conhecidos e previsíveis e não estamos necessariamente bem, com saúde mental e emocional e equilibrados. Conhecido não significa saúde e equilíbrio. 

Assim sendo, acredito que se não estamos bem, se não nos sentimos bem onde estamos ou quem estamos precisamos, para começar, de questionar os verdadeiros motivos desse estar, porque acredito que muitos deles estarão sob este pressuposto de que mais vale mal e a saber com o que contar do que dar um passo num sentido diferente e sentir o medo imenso do desconhecido. 

Não ser conhecido não é necessariamente mau, antes pelo contrário e estar num contexto onde sentimos que o controlamos confortavelmente, ou onde sentimos conforto simplesmente porque conseguimos prever alguma coisa, pode ser negativo só por si. Até porque, na realidade, mesmo nos contextos que conhecemos e onde sentimos algum tipo de conforto acontecem diariamente situações que nos fazem duvidar sobre a tal segurança e sobre se conhecemos de facto tudo o que gira à nossa volta.

A curiosidade pode ser a maior ferramenta para um processo de mudança. Não saber o que vem a seguir e assumir com coragem e risco o que queremos explorar é em si um movimento de saúde e de coragem. Na realidade, acredito que todos nós não sabemos de facto do que somos capazes, do tamanho da nossa coragem e das nossas competências. Acredito que precisamos mesmo de questionar o que significa conforto e no que se traduz nas nossas vidas. Com isto não digo que não precisamos de alguma dose de previsibilidade e de fazermos algum tipo de antecipação, no entanto, é perigoso quando deixamos de avançar ou quando começamos a adoecer porque temos medo de viver o que vem depois e de assumir que como estamos não estamos bem. 

E no fim, a sensação que descrevemos de segurança será sempre, antes de tudo, uma construção interna e individual que deve exigir de nós atenção, alimento e trabalho diário, porque só essa nos permite de facto viver da melhor forma possível e fazermos escolhas por saúde e não pelo medo do que vem a seguir.

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