“A boa Arquitetura é a que serve as pessoas”

Cunha Ferreira Arquitetos é um atelier de Arquitetura familiar, gerido pelos arquitetos Gastão e Martim Cunha Ferreira. Com o entendimento que de a Arquitetura deve servir as pessoas e que falta falar da importância desta disciplina nas escolas, esta empresa atravessou a pandemia sempre a trabalhar. Para Gastão Cunha Ferreira, é importante olhar a Arquitetura de forma descomprometida e adequada ao propósito que serve.

0
522
Gastão e Martim da Cunha Ferreira, arquitetos e sócios

Como caracterizariam a Cunha Ferreira Arquitetos e o trabalho que desenvolvem, tendo por base, também, o desempenho deste ano de 2020, particular em termos de pandemia?

Gastão Cunha Ferreira (G.C.F.): Somos um atelier pequeno e escolhemos fazer projetos de diferentes dimensões. Temos a possibilidade de escolher para quem trabalhamos o que, para nós, não é um luxo, mas uma questão de sobrevivência. Este ano não se pode comparar a qualquer outro. A verdade é que muitos projetos que podiam ter sido iniciados não foram, ficaram suspensos ou acabaram por se perder. No entanto, tendo em conta o que se verificou em muitos outros setores e atividades, a verdade é que não podemos dizer que foi mau, pois tivemos um ano bem preenchido. A nossa adaptação à nova realidade – confinamento, trabalho por videoconferência – foi pacífica, tendo em conta que temos uma estrutura leve e adaptável. Todavia, há que lembrar que a pandemia não foi a única alteração no mercado – o Brexit, no nosso caso, também representou alterações significativas, tendo em conta a origem de alguns dos nossos clientes estrangeiros.

Martim Cunha Ferreira (M.C.F.): Com a chegada da pandemia, mantivemo-nos calmos e continuamos a fazer aquilo que sabemos fazer. Num tempo de reflexão como este, os serviços que ganharam mais força foram a consultoria e a revisão de projetos. Continuámos a apoiar os nossos clientes ligados à área da consultoria financeira e advogados que têm clientes que querem investir. Temos feito isso, bem como também projetos ligados à Arte. O nosso espectro de ação é muito grande, permitindo-nos fazer de projetos pequenos até algo maior.

A diversificação de serviços é importante para a sobrevivência dos ateliers?

(G.C.F): Portugal é um mercado pequeno e cheio de arquitetos – temos um número de arquitetos per capita enorme, dos maiores da Europa, o que acabou por desvalorizar a profissão. O mercado em geral tem uma grande dificuldade, depois, em distinguir a quantidade da qualidade. Por outro lado, o facto de sermos muitos implica que ganhemos capacidade para trabalhar a várias escalas – podemos trabalhar num projeto pequeno e ver o trabalho a uma escala maior e o contrário também é verdade – fazemos um trabalho grande e temos noção do trabalho existente nos outros níveis e das consequências do mesmo. Quando executamos um projeto, pensamos no todo e nas consequências dele.

Enquanto disciplina e Arte, é possível falar-se em boa e má Arquitetura?

(G.C.F): Eu acredito que ninguém se atreve a dizer o que é bom e o que é mau, porque essa opinião é sempre pessoal, mas não podemos olhar para a Arquitetura só de forma racional. Eu acredito que a boa arquitetura é a que serve as pessoas. Depois, é mesmo uma questão de gosto – há ótima arquitetura, de péssimo gosto e há péssima arquitetura, de ótimo gosto.

(M.C.F.): A Arquitetura também tem a ver com o espaço, com a sua utilização e dimensão. Além disso, cada família é diferente. Se falarmos em moradias, existem espaços que todas as casas têm, mas depois outros espaços devem ser pensados tendo em conta determinadas características da família – os hobbies, a ocupação profissional, qual a utilização que dão aos espaços… A arquitetura tem muito desse lado pessoal, por isso é que importa conhecer a forma como a pessoa vive, em casa. Nós fazemos uma arquitetura de excelência, pois sabemos quais são os ingredientes e temos a preocupação de ter poucos projetos e poder trabalhar com calma, vendo o nosso trabalho reconhecido.

Neste momento, a casa representa vários espaços sociais. Como lidaram as pessoas com isto?

(G.C.F): As pessoas adaptaram-se, tendo em conta as capacidades do espaço e as funções que serve. Além disso, também fizeram uma gestão das suas relações. Todavia, o que acontece é que, em geral, quando se faz um projeto, ninguém pensa na questão das relações. Ninguém pensa na forma como as pessoas se relacionam, como usam o espaço, como o espaço pode ter vários usos, ao longo das horas do dia… Assim sendo, o que importa é a forma de olhar a Arquitetura. Essa forma é que tem de ser diferente e descomprometida.

É possível pensar a Arquitetura de forma diferente em Portugal, tendo em conta que o país ainda é tradicionalista?

(G.C.F.): A Arquitetura deve ser das poucas áreas que não é falada nas escolas e, no entanto, é uma área que influencia a vida das pessoas desde o momento do seu nascimento, pois vivemos numa Natureza construída. Aquilo que se faz dura muito tempo mas, incrivelmente, nunca se fala em Ambiente Urbano. Não existe essa preocupação e, no entanto, a Arquitetura interfere mais na nossa vida do que a roupa que nós vestimos.

Como preveem 2021?

(G.C.F.): As pessoas deixaram de ter a ilusão da previsibilidade e perceberam que, se não houver decisões, não há acontecimentos. Por isso é tão importante tomar decisões. A vida não para. Psicologicamente, a vacina será muito importante, mas não creio que altere nada no modo de vida. No entanto, espero que a adaptação seja rápida e inteligente.

(M.C.F.): Iremos para um normal diferente. Toda a tecnologia que usamos, já existia, não estava era tão utlizada. Isso são benefícios que esta pandemia nos deu – a noção de que podemos facilitar a nossa própria vida. Porém, continuamos a ser pessoas que gostam da proximidade e de estar fisicamente num espaço. Esta pandemia serviu para reposicionar a família, o trabalho e os amigos, coisas que faltavam à nossa vida e que são muito importantes.

www.cunhaferreira-arquitectos.pt

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here