Como nasceu a Kanab Clinic e que lacuna identificou no sistema de saúde nacional?
A Kanab Clinic surgiu na sequência do debate na Assembleia da República em 2018, em que participei com a Cannativa. Na altura, discutia-se a canábis medicinal sobretudo a vertente legal e industrial, mas constatámos que muitas pessoas já utilizavam canabinóides, especialmente CBD, por iniciativa própria, sem acompanhamento médico estruturado, triagem de risco e orientação baseada em evidência.
A principal lacuna que identificámos foi precisamente esta. A segunda prendia-se com a acessibilidade económica: mesmo quando há potencial clínico, muitos produtos continuam a ter um custo elevado e tornam-se inacessíveis impossibilitando a manutenção do tratamento para a maioria dos portugueses.
A Kanab Clinic nasceu para transformar essa procura em acompanhamento médico rigoroso, com segurança, critério e informação em saúde. O formato online permitiu reduzir barreiras geográficas e aumentar o acesso a consulta especializada.
O que distingue a vossa abordagem clínica no acompanhamento de doentes tratados com canabinóides?
Distinguimo-nos por tratar os canabinóides como uma terapêutica integrada num plano clínico, e não como um ‘produto’. O acompanhamento segue uma consulta médica completa: história clínica, comorbilidades, revisão de medicação, avaliação de risco e objetivos terapêuticos.
Com mais de 10 anos de estudo e 8 de prática no acompanhamento de mais de 800 casos clínicos, trabalhamos em equipa multidisciplinar e com experiência no manejo deste tratamento. Como em qualquer consulta medica, são avaliados cuidadosamente o risco–benefício, ajustes de doses de forma prudente, monitorização de resultados e/ou adaptação do tratamento conforme cada caso.
De que forma a sua preparação internacional influencia a prática clínica em Portugal?
As certificações pela Society of Cannabis Clinicians e pelo The Medical Cannabis Institute (TMCI Global) têm uma forte componente clínica e aplicada desde a farmacologia a monitorização de outcomes. No entanto, não substitui a experiência clinica.
Em Portugal, onde a experiência clínica formal ainda é desigual, essa preparação permite alinhar práticas com centros que produzem evidência robusta e com ensaios mais rigorosos. Como o sistema endocanabinóide ainda é pouco compreendido, a prática clínica exige prudência, método e decisões fundamentadas na evidência disponível e na experiência clínica real.
Em que patologias ou sintomas tem observado maior evidência clínica e melhores resultados?
Os melhores resultados surgem quando a canábis medicinal é utilizada como terapêutica adjuvante em patologias/sintomas que não melhoram com a medicação tradicional. Existem indicações com evidência mais consolidada, como dor crónica oncológica e neuropática refratária, espasticidade na Esclerose Múltipla, náuseas e vómitos pela quimioterapia, epilepsias refratarias, Síndrome de Tourette, aumento do apetite na SIDA
Todos os casos clínicos são complexos, com coexistência de outras doenças e polimedicação, aumentando o risco de interações. Ainda assim, os canabinóides têm mostrado melhorias sintomáticas significativas e são promissores em condições como autismo, TDAH, Alzheimer, doenças neurodegenerativas, enxaqueca refratária entre outras.
Nestes contextos, o foco mantém-se: melhorar sintomas clinicamente relevantes e funcionais, com monitorização rigorosa e sem esquecer os cuidadores, fundamentais para adesão terapêutica, observação clínica diária e estabilidade global.
Como é estruturado o vosso acompanhamento e que garantias são dadas em termos de segurança e rigor médico?
O acompanhamento segue o modelo de uma consulta médica completa: avaliação clínica detalhada, história pessoal e familiar, revisão de comorbilidades e contraindicações para a toma de canabinóides, análise da medicação atual e definição de um plano terapêutico integrado que considere dor, sono, saúde mental, funcionalidade e impacto familiar.
A maioria dos casos é discutida em contexto multidisciplinar com uma equipa medica internacional de diferentes especialidades, com grande experiência no tratamento com canabinóides, dos EUA, Israel, Espanha e Austrália, permitindo decisões clínicas adaptadas e personalizadas.
Em termos de segurança, fazemos uma avaliação cardiovascular, função hepática e antecedentes pessoais e familiares de doenças psicóticas essencial para a segurança e gestão da escolha do tratamento.
Sendo substâncias com potencial psicoativo, integramos consultas de psiquiatria e psicologia sempre que necessário, para prevenir, identificar precocemente e tratar patologias nas quais os canabinóides estão contraindicados ou ausência/agravamento dos sintomas. A garantia dada aos utentes é uma decisão terapêutica baseada em avaliação clínica completa, registo clínico estruturado e propostas terapêuticas cuidadosamente pensadas sem ultrapassar a ética medica, maximizando benefício e minimizando risco.
Como avalia o percurso da legislação e regulamentação do setor até agora?
A evolução legislativa criou um enquadramento legal, permitindo integrar a canábis medicinal na prática clínica com supervisão e rastreabilidade.
Portugal adotou um modelo prudente, centrado em qualidade e segurança, que trouxe credibilidade internacional e permitiu crescimento industrial. Porém, a maturidade industrial não foi totalmente acompanhada pela maturidade clínica: faltam normalização de processos, formação médica sistemática e mecanismos que tornem a terapêutica acessível, nomeadamente através de discussão sobre comparticipação.
O próximo passo deverá alinhar dimensão regulatória, industrial e clínica: mais clareza operacional, mais formação, mais recolha de dados em vida real e avaliação de custo-efetividade.
Que desafios científicos, regulatórios e éticos se colocam ao futuro do setor e como a Kanab Clinic se posiciona para contribuir para o seu desenvolvimento?
O setor exige maior padronização, evidência clínica robusta e integração nos modelos de saúde. Cientificamente, é preciso produzir ensaios de qualidade, recolher dados em vida real e identificar subgrupos que beneficiem mais. A nível regulatório, é necessário clarificar processos e apoiar a prática responsável sem banalização. Eticamente, importa evitar promessas excessivas, garantir transparência e proteger populações vulneráveis.
Do ponto de vista custo/beneficio, há oportunidade de racionalizar terapêutica em doentes polimedicados, reduzindo carga sintomática e utilização reativa de recursos, desde que isso seja demonstrado por outcomes e análise de custo-efetividade.
A Kanab Clinic pretende liderar na dimensão clínica: consolidar protocolos, formar médicos, promover literacia pública e demonstrar que a canábis medicinal é medicina, com avaliação estruturada, segurança e acompanhamento responsável.









