A indústria do canábis medicinal vive um paradoxo curioso: exige que a planta mantenha a sua integridade natural, mas simultaneamente, para garantir a segurança de pacientes imunodeprimidos, impõe padrões microbiológicos equivalentes aos de produtos farmacêuticos. Entre estes dois mundos – da botânica e farmacotécnica – surge a Criopasteurização como a solução que finalmente concilia segurança, qualidade e estabilidade. Mas será este processo realmente o salto tecnológico que o setor precisava?
A técnica combina vapor criogénico, temperaturas controladas entre 80 °C e 83°C e um ciclo de processamento surpreendentemente curto – apenas 2 a 4 minutos de exposição térmica, seguido de uma purificação rápida. O processo atinge reduções microbianas superiores a 6 LOG, cumprindo a exigente Tabela 5.1.4 da Farmacopeia Europeia para produtos de inalação. Estes resultados colocam a Criopasteurização num patamar que nenhuma outra tecnologia consegue alcançar sem comprometer fortemente a qualidade sensorial da flor.

O vapor criogénico é uma mistura de azoto de elevada pureza, obtido de uma corrente de azoto líquido, e vapor de água em níveis elevados de saturação. Todo o processo ocorre em atmosfera inerte e em condições que impedem o início de processos oxidativos de terpenos e canabinoides. Há estudos que comprovam que tratamentos com vapor de água promovem a estabilização lipídica. Durante a fase final de purificação a flor é arrefecida em poucos segundos para a temperatura ambiente. Esta é a técnica de redução microbiológica baseada em tratamento térmico que sujeita a flor a temperaturas elevadas pelo menor tempo, quer no passo de descontaminação, quer no passo de arrefecimento. A fase de purificação, além de garantir o rápido arrefecimento da flor, vai também ajustar o teor de humidade para o valor desejado e remover resíduos sólidos como patogénios mortos que se desprendem da flor. Todos estes fatores garantem uma flor de alta qualidade que após a redução microbiológica, se embalada adequadamente, poderá ter prazos de estabilidade em armazém superiores a dois anos.
E é precisamente aqui que reside o ponto mais sensível: a qualidade. A indústria tem sido marcada por métodos de remediação que, embora em alguns casos eficazes, deixam cicatrizes evidentes – perda de terpenos, alteração de cor, textura degradada. A Criopasteutização, para níveis de redução microbiológica entre 4 e 5 LOG (10 000x e 100 000x) não apresenta alterações perceptíveis em termos de canabionoides, terpenos, cor e morfologia. Para redução microbiológica de 6 LOG as alterações em termos de terpenos, cor e morfologia são inferiores às poucas técnicas que permitem atingir tão elevados níveis. No que concerne ao teor de canabinoides estes nunca são afetados.

Ainda assim, a questão central permanece: até que ponto a indústria deve depender de processos tão sofisticados para corrigir problemas que, idealmente, deveriam ser resolvidos no cultivo e pós‑colheita? As diretrizes GACP, indicam que a descontaminação não deve substituir boas práticas agrícolas. Contudo, num mercado global onde a exportação exige padrões quase impossíveis de cumprir, a Criopasteurização, surge como a solução para as empresas produtoras poderem fornecer um produto conforme e que mantém as características sensoriais e terapêuticas da planta original.
Para o investidor e para o cultivador, a Criopasteurização representa uma mitigação de risco sem precedentes. Estar em conformidade com as diretrizes da EMA (Agência Europeia de Medicamentos) para materiais de origem vegetal não é apenas uma questão de ética, é uma necessidade comercial para quem visa a exportação global. Ao adotar um fluxo de trabalho validado, as empresas deixam de temer as rejeições de lote por contaminação, protegendo as suas margens e, acima de tudo, a saúde do consumidor final.









