Num setor industrial tradicional como o do calçado ou mobiliário, onde a MIND atua, de que forma a criatividade tecnológica se torna uma vantagem competitiva real e não apenas um conceito aspiracional?
A criatividade tecnológica torna-se uma vantagem real quando se traduz em ganhos concretos no processo produtivo. Não basta inovar ao nível conceptual — é fundamental impactar diretamente eficiência, qualidade e tempo de resposta.
Um exemplo claro vem do setor têxtil, onde aplicamos tecnologias de Feature Recognition integradas com nesting automático. O sistema identifica automaticamente características relevantes dos materiais — como padrões, direções, defeitos ou zonas específicas — e utiliza essa informação para posicionar as peças de forma otimizada. Esse posicionamento garante o alinhamento com as features do material e o casamento entre peças, assegurando continuidade visual e coerência estética no produto final.
Na prática, isto permite automatizar decisões altamente dependentes da experiência humana, reduzir desperdício, aumentar o aproveitamento de material e garantir consistência, mesmo em contextos de elevada variabilidade. É neste momento que a tecnologia deixa de ser aspiracional e passa a ser um verdadeiro fator de competitividade.
A inovação é muitas vezes associada a disrupção, mas também pode ser incremental. Na sua experiência, onde está hoje o maior potencial de transformação nas indústrias com que trabalham?
O maior potencial está na inovação incremental com impacto acumulado. Pequenas melhorias na preparação, corte, planeamento ou controlo de qualidade, quando suportadas por sistemas digitais, geram ganhos consistentes e mensuráveis.
Na prática, o que observamos é que muitas empresas ainda trabalham com processos fragmentados, onde a informação não flui de forma contínua entre design, engenharia e produção. Ao integrar estes processos, é possível reduzir tempos de preparação, minimizar erros e aumentar a eficiência global sem necessidade de grandes ruturas.
Dito isto, é claro que existem também oportunidades disruptivas, como novas formas de conceber e produzir, por exemplo através de abordagens de confeção diretamente em 3D. No entanto, soluções incrementais — como o uso de realidade aumentada para auxiliar processos de picking, substituindo sistemas de projeção — têm um potencial de impacto equivalente quando aplicadas de forma consistente no dia a dia industrial.
A disrupção existe, mas é a capacidade de executar melhoria contínua de forma consistente que, no dia a dia, transforma verdadeiramente estas indústrias.
Num contexto de crescente digitalização, considera que a criatividade humana está a ser amplificada ou substituída pelas ferramentas tecnológicas?
Está claramente a ser amplificada. A tecnologia elimina tarefas repetitivas e aumenta a capacidade de análise, libertando espaço para decisões de maior valor.
A criatividade humana continua central, mas passa a ser suportada por dados, simulação e automação, o que aumenta a sua eficácia e reduz a variabilidade do resultado.

Como é que uma empresa como a MIND equilibra a necessidade de padronização industrial com a personalização e criatividade exigidas pelos mercados atuais?
Através da digitalização e estruturação dos processos. Quando os dados e os workflows estão bem definidos, é possível garantir consistência industrial e, simultaneamente, permitir variações controladas.
Mas esta evolução não está apenas ligada à personalização do produto. Está também associada a uma transformação do próprio modelo produtivo, com uma crescente orientação para produção mais flexível, com menos stock e mais próxima de uma lógica just-in-time para o retalho.
Ao tornar os processos mais digitais e integrados, é possível responder mais rapidamente à procura real, reduzir excesso de produção e minimizar desperdício, com vantagens claras em termos de eficiência e sustentabilidade.
Neste contexto, a personalização deixa de ser uma exceção e passa a ser uma consequência natural de um sistema produtivo mais ágil, inteligente e alinhado com as necessidades do mercado.
O que ainda falta às empresas portuguesas para integrarem a inovação de forma estrutural e contínua?
Mais do que tecnologia, falta integração e continuidade. Muitas iniciativas são pontuais e não estão ligadas a uma estratégia clara.
A inovação exige alinhamento entre processos, tecnologia e pessoas, bem como capacidade de medir impacto. É uma disciplina contínua e não um conjunto de projetos isolados.
A MIND tem vindo a antecipar necessidades do mercado industrial. Que sinais observa atualmente que indicam as próximas grandes mudanças nos processos produtivos?
Um dos sinais mais claros é a crescente integração entre dados e automação diretamente no processo produtivo. Em particular, estamos a assistir a uma evolução significativa na forma como materiais não homogéneos — como a pele — e também materiais como o tecido são tratados digitalmente.
Hoje já é possível fazer a deteção automática de defeitos e características dos materiais, seja através de sistemas offline, com digitalização prévia, seja em online, diretamente nas linhas de produção. Para além dos defeitos, estes sistemas identificam também variações naturais, como diferenças de coloração ou textura, que são críticas para a qualidade final. Esta informação passa a ser utilizada pelos sistemas de corte automático, permitindo que o nesting tenha em conta esses defeitos e variações, evitando zonas críticas e posicionando peças de forma mais adequada.
O impacto é direto: maior aproveitamento de material, redução de retrabalho, maior previsibilidade e menor dependência de decisão manual. Estamos a caminhar para processos produtivos cada vez mais inteligentes e capazes de lidar com variabilidade em escala.

Na sua opinião, a inovação nasce mais da tecnologia disponível ou da cultura organizacional que a sabe explorar? Pode dar exemplos concretos do vosso percurso?
A inovação nasce sobretudo da cultura organizacional. A tecnologia é um facilitador, mas o verdadeiro diferencial está na capacidade de a integrar e explorar de forma consistente.
No caso da MIND, muitos dos avanços resultaram da proximidade com os clientes industriais. Ao trabalhar diretamente com equipas de produção, conseguimos identificar problemas concretos — como variabilidade de materiais, dependência de decisão manual ou ineficiências no planeamento — e traduzi-los em soluções tecnológicas aplicáveis.
Este ciclo contínuo entre realidade industrial e desenvolvimento tecnológico tem sido fundamental para garantir que a inovação não é teórica, mas sim implementável e com impacto direto no processo produtivo.
Se tivesse de apontar uma ideia-chave para o futuro da criatividade na indústria europeia, qual seria e que papel pretende a MIND desempenhar nesse cenário?
A criatividade na indústria europeia vai depender da capacidade de transformar complexidade em eficiência. A variabilidade dos materiais, a personalização e a exigência dos mercados vão continuar a aumentar, e o desafio será responder a essa diversidade mantendo escala industrial.
Nesse contexto, a criatividade passará cada vez mais pelo processo — pela forma como se integram dados, automação e conhecimento industrial para produzir melhor. Não se trata apenas de criar produtos diferentes, mas de construir sistemas produtivos mais inteligentes e adaptáveis.
A MIND pretende posicionar-se como um enabler dessa transformação, permitindo aos seus clientes industrializar a flexibilidade: produzir com eficiência de escala, mas com a capacidade de adaptação exigida pelos mercados atuais. Este será um fator crítico para a competitividade da indústria europeia no contexto global.










