Agrupamento de Escolas de Ílhavo – A Escola de Todos, alicerçada por Todos e projetada para Todos

Maria da Conceição Coelho do Carmo Canhoto é natural de Castelo de Paiva e filha de pais alentejanos. É a mais nova de sete filhos, licenciada em Engenharia Cerâmica e Vidro e em Matemáticas – Ensino. Além disso, concluiu o Mestrado em Administração Escolar. Sempre foi professora de Matemática e assume que não se vê a fazer outra coisa. Casada e a viver em Ílhavo há mais de 40 anos, nunca tinha pensado em concorrer à Administração do Agrupamento de Escolas da sua região, até que o distanciamento existente entre a comunidade escolar e a população, bem como a opinião distorcida sobre o mesmo a levou a candidatar-se. Concluído que está o primeiro mandato, foi recentemente reconduzida para mais quatro anos.

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O ensino em Portugal atravessa atualmente desafios muito particulares. Quais aqueles que mais afetam o dia a dia dos alunos e professores?

As políticas de Educação nunca são feitas por quem percebe de Educação e é importante separar estas duas realidades: o ensino Básico e Secundário rege-se por uma realidade e o ensino Superior rege-se por outra. É preciso olhar para quem trabalha nesta educação Básica e Secundária e não se olha. Há muito trabalho invisível que é feito pelos professores. Neste Agrupamento, os professores trabalham imenso. Foi com esse trabalho e esforço conjunto de todos que este Agrupamento recuperou e, hoje, é considerado um dos melhores da região
Centro. E é isto que os nossos governantes têm de fazer – olhar para nós como bons funcionários. É importante reconhecer o trabalho que se faz.

Como avalia o estado do nosso Ensino e da forma como ele é feito?

Não digo que o nosso Ensino seja mau. Temos excelentes professores e um ensino de qualidade, mas que precisa de se virar mais para o prático, para o experimental e menos para o teórico. No ensino profissional, por exemplo, nós temos excelentes funcionários e excelentes engenheiros de topo. Mas não temos os funcionários intermédios. Temos de os formar! Neste momento, existe ensino profissional bom e de qualidade, que permite aos alunos
terminar o 12º ano de escolaridade, sair com uma carteira profissional e, ainda, caso queiram, podem prosseguir os estudos, indo para a universidade, pois o ensino profissional dá acesso ao Ensino Superior. A vantagem destes cursos é que são muito mais práticos, embora continuem a incluir componentes teóricas. Temos, nesta escola,
três cursos de ensino profissional: um de Cozinha e Pastelaria, outro de Gestão e Programação de Sistemas Informáticos e o curso de Desporto. A escola assegura valências e parcerias de forma a valorizar ainda mais estas opções profissionais. Exemplo disso é a parceria entre a nossa escola, a FOR-MAR e a Fundação Alexandre e Teresa Soares dos Santos, da Jerónimo Martins, onde, através do programa SER PRO, os alunos que concluírem o curso de Desporto têm também, além da sua carteira profissional, a carta de marinheiro. Aqui temos ainda os cursos de Educação e Formação de Adultos – para quem quer estudar à noite e completar o 12º ano, por exemplo; Português – Língua de Acolhimento. Relativamente ao ensino regular do secundário, temos os cursos de
ciências e tecnologias, Humanidades e socioeconómicas, sendo este mais teórico, o qual deveria também ter uma vertente mais prática e virado para o mundo do trabalho.

Qual é o impacto que estes cursos profissionais têm tido nos alunos?

O ensino profissional está a crescer imenso. Posso-lhe dizer, por exemplo, que no curso de Pastelaria e Cozinha, quando eu aqui cheguei, não havia cozinha para os alunos aprenderem, e hoje fruto do investimento efetuado, temos uma cozinha e um restaurante pedagógico. Os alunos praticam, têm aqui os alimentos, cozinham e
servem refeições, dentro da nossa escola. Os nossos alunos vão uma vez de 15 em 15 dias para a cozinha do Pingo Doce, um espaço com sete mil metros quadrados, para que possam trabalhar lá por um dia. Relativamente ao curso profissional de Desporto, os alunos participam em várias atividades a todos os níveis, dando apoio na
logística da Corrida da Europa, da Maratona de Lisboa e em outros eventos desportivos. Além disso, construímos uma box (um ginásio), para que também possam ter um novo espaço de trabalho.

Quão importantes são as parcerias, sobretudo no que respeita aos cursos profissionais, para posterior encaminhamento dos alunos para estágios/empregos?

As parcerias são de facto muito importantes e diversificadas, sendo graças a estas que os cursos desenvolvem a sua formação prática em contexto real de trabalho, para além de algumas efetivamente serem a oportunidade de trabalho. Consegui estabelecer várias, algumas delas com grandes empresas, como é o caso do Grupo Motofil, que é nosso parceiro para a candidatura à criação de um dos dois centros tecnológicos que queremos trazer para a escola, relacionado com Robótica e Automação, ao abrigo dos fundos do PRR. Para além da referida empresa, temos muitas outras que gostaria de mencionar, mas seria demasiado exaustivo, por exemplo a Universidade de Aveiro, outras instituições de ensino superior, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia. A escola deve estar aberta à comunidade. A pensar nisso, nasceu também a parceria com o Agrupamento de Escolas de Gafanha da Nazaré, para que todas as pessoas do concelho pudessem ter acesso ao Centro Qualifica, que ali se encontra sediado.

Há liberdade, nos programas pedagógicos, para se ser inovador?

Dentro de certas limitações, vamos podendo fazer pequenos avanços na área pedagógica e inovando. Temos, como exemplo, o projeto de Vale de Ílhavo, que era conhecida por ser uma “escola de ciganos”. A verdade é que tinha 16 crianças, só uma não era da etnia e muitos pais faziam questão que as crianças não frequentassem
aquela escola do ensino básico. Umas mães propuseram-me um projeto pedagógico diferenciado e integrador, que permitia a inclusão das crianças de etnia cigana e todos os pais destas crianças faziam/fazem parte desta associação de desenvolvimento pedagógico. Apresentei o projeto à DGestE e foi aprovado rapidamente. Foi aliás um projeto enviado para o atual Ministro da Educação, o qual veio à escola conhecê-lo. Hoje temos 98 crianças
em Vale de Ílhavo, temos lista de espera. A pedagogia ali é diferente: eles aprendem com a vida. É uma filosofia pedagógica conhecida por Escola Moderna. Os meninos vão ao padeiro, veem como se faz o pão, voltam para a escola, contam o que viram, trabalham a Matemática, a Geografia, a História e o Português à volta daquele tema, bem como questões como o Ambiente. A partir da vivência que tiveram, aprendem conceitos de várias disciplinas. Mais recentemente, temos também a Escola da Mata, na Gafanha de Aquém, que é uma pré-escola que fica, precisamente, numa mata, e onde o processo de desenvolvimento das crianças gira muito à volta do contacto com a Natureza. Hoje os pais procuram muito pedagogias diferenciadas e temos de ser capazes de lhes dar resposta. Somos também escola de referência para alunos surdos e para intervenção precoce em bebés
surdos, o que significa que temos Língua Gestual portuguesa na escola. Neste âmbito temos mais um projeto inovador, em parceria com a Altice, Projeto KALGP, no qual se faz a interpretação para a língua Gestual Portuguesa de conteúdos de vídeos de ensino da matemática, da Khan Academy, procurando facilitar a integração de alunos surdos em turmas de ouvintes.

Que mensagem final gostaria de deixar a quem a lê?

Uma mensagem de agradecimento: à Direção – foram quatro anos difíceis; aos professores, que trabalham muito e, em particular, à Cristina Gonçalves, Alcina Mendes, Teresa Silveirinha e a todo o Conselho Pedagógico, bem como a todos os que me acompanharam estes quatro anos e que sempre me ajudaram. Não esquecendo ainda os funcionários, agradecendo nas pessoas do senhor Guilhermino Ramalheira e Susana Pinheiro, que são de uma
dedicação e de um voluntariado incrível. Obrigada a todos. Só assim podemos ser a Escola de Todos, alicerçada por Todos e projetada para Todos!