“As mulheres estão a conquistar o espaço que merecem profissionalmente”

Júlia Neves é advogada há mais de 20 anos. Reconhece que, nas duas décadas em que exerce funções, muita coisa se alterou e as mulheres viram reconhecidos alguns direitos, mas ainda falta percorrer algum caminho para que as mulheres tenham, de facto, as mesmas oportunidades que os homens – e isso não carece apenas de mudança no setor jurídico, mas também da alteração da mentalidade da sociedade.

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O que a levou a iniciar a sua atividade profissional em nome próprio?

Decidi seguir o meu caminho como profissional liberal porque queria ter o controlo sobre a minha carreira. Ser independente nas escolhas que faço sobre as áreas com as quais me identifico e nas estratégias que adoto em cada processo foi algo que me motivou profundamente. Isso permite-me trabalhar de acordo com o que acredito ser o melhor para os meus clientes, sem ter que seguir um roteiro imposto. Essa liberdade, além de profissional, é também pessoal, pois permite-me moldar a minha carreira conforme os meus valores.

A Advocacia é uma atividade que não tem necessariamente horários definidos e pode representar muito trabalho de pesquisa e desenvolvimento. Para uma mulher, como é que isso é conjugável com os seus outros papéis sociais?

A Advocacia exige dedicação integral. Em muitos dias, encontro-me imersa em livros e documentos, tentando desvendar todos os detalhes que farão a diferença em cada processo. É essa dedicação, que muitas vezes se estende para além das 12 horas diárias, que inevitavelmente acaba por afetar a minha vida pessoal. Sou mãe e esposa, e, sem o apoio da minha família, não conseguiria manter o equilíbrio. A compreensão deles é fundamental. Por vezes, não consigo aproveitar ao máximo os momentos de lazer ou estar totalmente presente nos momentos com a minha filha/família, porque o trabalho exige muita da minha atenção. No entanto, sei que essa dedicação é necessária para garantir que os meus clientes recebem o melhor de mim, e a minha família entende o sacrifício envolvido.

Acredita que, para as mulheres advogadas, ainda faltam alguns apoios, para conjugar situações, por exemplo, como a maternidade, com a sua profissão?

Embora tenhamos avançado em algumas áreas, como os direitos relacionados à maternidade, ainda há muito a fazer. Como trabalhadora independente, a mulher advogada enfrenta desafios que muitas vezes não são compreendidos. Por exemplo, em casos de licença de maternidade ou períodos de baixa médica, não há o apoio financeiro que outras mulheres em profissões regulamentadas recebem. Além disso, a conciliação entre a vida profissional e a maternidade continua a ser um desafio, já que, por vezes, temos que abdicar de cuidados pessoais
ou até mesmo de momentos com a família. Ainda falta um suporte adequado para que a mulher advogada possa equilibrar essas duas frentes de forma justa e digna.

Por que motivo lhe parece que, apesar de as mulheres serem praticamente metade dos licenciados em Direito, a sua presença em posições de liderança é consideravelmente menor que a dos homens?

Acho que a resposta está na forma como, até hoje, a sociedade vê o papel da mulher na família. Mesmo com o crescente número de mulheres formadas em Direito, muitas ainda se veem com a responsabilidade de cuidar da casa e da família, o que pode limitar o tempo dedicado à carreira. E, quando se trata de cargos de liderança, as exigências de tempo e dedicação acabam por afastar as mulheres que, muitas vezes, sentem que não podem investir o necessário sem prejudicar outros aspetos da sua vida. Também vejo que, em muitas situações, as mulheres enfrentam resistência dentro das instituições, que ainda tendem a valorizar mais a liderança masculina.

Ainda assim, as mulheres já estão muito mais presentes nas diversas profissões do Direito – juízas, magistradas do Ministério Público… Isso é um sinal de que a posição das mulheres nesta área profissional se está a alterar paulatinamente?

Sim, sem dúvida! Ao longo dos anos, a presença feminina nas profissões jurídicas tem aumentado, e isso reflete uma mudança positiva. A entrada de mulheres nas faculdades de Direito, que são agora maioritariamente femininas, tem feito com que muitas ocupem posições de destaque, como juízas e magistradas do Ministério Público. Esse é um sinal claro de que as mulheres estão a conquistar o espaço que merecem e estão a destacar-se numa área que, historicamente, foi dominada pelos homens. Embora a mudança seja lenta, acredito que estamos no caminho certo, e a tendência é que a presença feminina continue a crescer.


Que impacto isso pode ter nas gerações mais jovens, aquando do início da sua carreira, a consciência de que mais profissões estão “abertas” às mulheres?

Esse movimento de crescimento da presença feminina no setor jurídico tem um impacto muito positivo nas gerações mais jovens. Ao verem mulheres a ocupar posições de liderança e sendo bem-sucedidas, as jovens advogadas podem-se sentir mais motivadas a seguir os seus próprios caminhos. Muitas vezes, o maior obstáculo é a perceção de que a carreira de advogado é difícil e cheia de barreiras, principalmente para as mulheres. No entanto, ao perceberem que há mais oportunidades e que outras mulheres já trilharam esse caminho, as novas gerações sentem-se mais confiantes para investir na carreira, sabendo que a profissão está cada vez mais aberta e acessível. É uma mudança gradual, mas fundamental para construir um futuro onde a igualdade de oportunidades seja uma realidade.