“As pessoas estão no centro do pensamento arquitetónico”

Miguel Ibraim da Rocha é o fundador e coordenador do atelier Unum Arquitetura, onde a Arquitetura é vista como um instrumento atuante no modo de vida de uma sociedade. Consciente da importância do edificado para a vida humana, este foi o tópico principal para uma entrevista onde se destacam também projetos em curso.

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Miguel Ibraim da Rocha, arquiteto

“A Arquitetura é um instrumento atuante no modo de vida de uma sociedade”. De facto, a Arquitetura está intrincada na vivência diária de cada indivíduo e dos espaços que frequenta?

A Arquitetura acompanha a evolução da nossa civilização. Desde tempos ancestrais, o arquiteto procura encontrar as melhores respostas às necessidades da vivência humana nas suas múltiplas atividades, desde o habitar, ao trabalhar ou ao lazer. Por esse motivo, as pessoas têm estado no centro do pensamento arquitetónico, na medida em que os edifícios são para sua apropriação. São elas que os vão usar individualmente ou coletivamente e por isso a minha crença em que um edifício é sempre muito mais que uma boa resposta formal ou funcional a um determinado programa.

Qual a importância dos materiais, atualmente, não só para o correto isolamento do espaço, como para a sua preservação?

A materialidade e os sistemas construtivos são figura central para o sucesso da preservação dos edifícios, nomeadamente na impermeabilização e isolamento térmico e acústico, mas também na adoção da inovação industrial, que está a transformar todo o setor numa atividade simultaneamente mais produtiva, eficaz, segura e amiga do ambiente. Os arquitetos são convidados a participar ativamente nos processos de desenvolvimento e incorporação destas novas tecnologias no exercício de projeto e construção, introduzindo não apenas fatores de design mais apelativos, mas tecnologicamente mais evoluídos, num objetivo de eficácia construtiva e eficiência energética. Esta transformação obriga o arquiteto a repensar a utilização dos materiais de construção e a sua aplicabilidade no desenvolvimento urbano e isso altera a forma de pensar o projeto e também a própria forma como vivemos o espaço construído.

Com a chegada da pandemia e o confinamento, o tempo passado em casa aumentou. Que influência isso teve na arquitetura residencial?

A Covid-19 veio transformar a nossa forma de viver dentro dos espaços construídos, afetando a nossa experiência coletiva de permanecer por longos períodos de tempo em confinamento dentro de casa, sendo esta agora apropriada como o elemento arquitetónico de maior segurança para a saúde, o que de imediato tende a influenciar um “novo” pensamento arquitetónico, por exemplo, imaginando como seria viver num determinado espaço por vários meses, alterando mesmo o tipo de vivência, pois o espaço de habitação familiar pode transformar-se num espaço de múltiplas apropriações vivenciais.

Que projetos destacaria, como exemplos do trabalho levado a cabo pela Unum?

Evidencio a futura “Casa da Democracia Local de Valongo”. Associando temas como a identidade, transparência e a multifuncionalidade, este edifício terá a praça em frente e irá desenhar a forma de uma trilobite. Contará as histórias de Valongo e suas marcas identitárias. Trata-se de um espaço multifuncional que irá da Cultura à Educação, passando pela Arte e pela Cidadania. Será um edifício disruptivo na forma e nas funções, evidenciando a identidade mais antiga do território em que se insere. Numa lógica de reabilitação, poderíamos destacar o “Convento de Santo Antão-o-Velho”, vulgarmente chamado de “O Coleginho” em Lisboa. O tema do projeto é a devolução da autenticidade ao elemento de elevado valor arquitetónico já construído. O projeto de reabilitação do Convento de Santo Antão-o-Velho procura transformar o edificado num espaço de encontro, convívio, conhecimento, partilha e apoio. A proposta tem como objetivo, promover o diálogo intercultural e inter-religioso, dinamizar a aproximação de pessoas, desenvolver novas atividades culturais e sociais no bairro da Mouraria e acolher um novo centro de turismo local. No setor imobiliário, destaco o projeto “Cais das Pedras” que introduz uma reinterpretação construtiva da fachada, numa zona histórica do Porto, mas que mantém a autenticidade do elemento construído.

Quais as obstáculos do setor que urge resolver?

O principal desafio que se apresenta ao setor é a constante necessidade de luta pela afirmação e valorização da profissão de arquiteto na sociedade portuguesa, bem como a necessária simplificação dos processos administrativos de licenciamento.

Como antecipa o ano de 2021, no que respeita a projetos a desenvolver?

A UNUM inicia 2021 com vários projetos imobiliários e projetando duas unidades hoteleiras, em Matosinhos e no Porto. Tais projetos antecipam um ano importante, quer na consolidação empresarial, quer na afirmação da marca UNUM enquanto gabinete de Arquitetura que assenta o seu trabalho sempre num fundamento de estudo árduo e contínuo acerca de como o objeto arquitetónico pode influenciar o comportamento humano e o meio que o envolve.

www.unum.pt

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