É médica de Medicina Geral e Familiar e diretora clínica da Clínica Médica de Machico. O seu propósito sempre foi dedicar-se à Medicina? Que responsabilidade acrescida lhe traz o facto de ser diretora clínica de um espaço de saúde?
Sim, desde muito cedo senti que queria cuidar dos outros. A proximidade, a abrangência de cuidados e a possibilidade de acompanhar a vida das pessoas de forma contínua são características que encontrei na especialidade de Medicina Geral e Familiar. Há três anos aceitei o desafio de ser diretora clínica da Clínica Médica de Machico. Estar à frente de um cargo de direção é sempre uma responsabilidade maior, uma vez que acabo por ser a líder da equipa, tendo que assegurar o bom funcionamento e a qualidade de cuidados. É um desafio de liderança, gestão e visão.
Tem dois filhos. Como é possível conjugar a maternidade, com crianças ainda pequenas, com a profissão de médica?
Não é fácil. É preciso aceitar que nem sempre se consegue fazer tudo, e que o equilíbrio é dinâmico, feito de reajustes diários. A maternidade ensinou-me a ser mais eficiente, a definir prioridades com mais clareza e, sobretudo, a pedir ajuda sem culpa. Ser mãe sempre foi o meu maior sonho. Quero que as minhas filhas vejam na mãe um exemplo de alguém que faz o que ama, que tem um propósito, e que está presente da melhor forma possível.
“Enquanto profissional sinto que
sou empática, dedicada e afável.
Enquanto líder sou flexível, organizada e prática”.
Como se descreve enquanto profissional e enquanto líder?
Na especialidade de MGF lidamos com todas as idades, desde os bebés até aos idosos, por isso temos de nos adaptar a cada consulta. Enquanto profissional sinto que sou empática e dedicada e afável. Enquanto líder sou flexível, organizada e prática. Nestes últimos três anos na liderança da Clínica Médica de Machico inteirei-me da organização de uma clínica, dos processos envolventes e da importância do trabalho de equipa. Isso trouxe-me mais
maturidade e proximidade aos colegas.
Ainda nota, no mercado de trabalho, que às mulheres é exigido um esforço suplementar para provarem o seu valor? Já passou por situações dessas?
Não noto que seja exigido um esforço por parte das equipas de saúde onde trabalho, mas já passei por situações em que fui desrespeitada por utentes, sentindo que se fosse homem isso não teria acontecido. Por exemplo, já fui alvo de comentários desagradáveis relacionados com a ausência por licença de maternidade. Em posições de liderança ainda há um caminho a percorrer, visto que as mulheres estão em minoria. No entanto, acredito que cada vez mais estamos a abrir espaço para uma liderança mais equilibrada, diversa e consciente. Cada mulher que ocupa um cargo de decisão está, sem dúvida, a abrir caminho para as que virão a seguir.
Quão importante é a rede de apoio para uma mãe que tem a sua profissão e quer continuar a trabalhar? Já existem condições de suporte, a nível estatal, para ajudar as mulheres que têm vários papéis na sociedade?
A rede de apoio é fundamental. Infelizmente não tenho os meus pais por perto uma vez que sou natural de Setúbal, o que representa uma rede de apoio familiar menos sustentada, em que o meu marido é o meu principal suporte. A nível estatal, há medidas importantes, mas ainda insuficientes. Precisamos de políticas mais amigas da parentalidade, de horários flexíveis, de acesso a creches de qualidade e de atividades de tempos livres acessíveis, à semelhança do que acontece nos países nórdicos.











