Construir um caminho com autonomia, ética e propósito

Cátia Lourenço criou o seu próprio projeto movida pela convicção de que a excelência jurídica não dispensa proximidade humana. Entre desafios, preconceitos e conquistas, construiu um percurso marcado pela independência, ética e defesa de uma liderança feminina assente no mérito, na autenticidade e na confiança.

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Em que momento percebeu que queria construir o seu próprio projeto e quais foram os maiores desafios que enfrentou?
Desde muito cedo soube que queria exercer a advocacia com autonomia, num projeto alinhado com os valores em que acredito e com grande proximidade aos clientes. Perto dos 30 anos senti que era o momento certo para criar o meu próprio escritório e dar-lhe uma identidade própria, assente no rigor, na disponibilidade e na confiança. A decisão trouxe desafios significativos. Tive de sair da zona de conforto, abdicar de um rendimento fixo mensal e acumular as funções de advogada, gestora e, mais tarde, mãe. Em paralelo, foi necessário construir uma carteira de clientes e afirmar uma marca num mercado particularmente exigente e competitivo.

Hoje, considero esta uma das decisões mais gratificantes da minha vida. Permitiu-me exercer a advocacia de acordo com os princípios que sempre defendi e criar uma sociedade em que o rigor técnico caminha lado a lado com a dimensão humana.

Ao longo da sua trajetória, houve algum episódio que tenha colocado à prova a sua confiança ou determinação? De que forma essa experiência contribuiu para moldar a líder e a profissional que é hoje?
No início do meu percurso profissional, deparei-me com situações que muitas mulheres continuam a reconhecer, associadas à circunstância de serem jovens, mulheres ou de não corresponderem à imagem tradicional do «advogado clássico». Recordo-me de quando prestava assessoria jurídica a um sindicato de grande expressão na zona centro, ser tratada algumas vezes por “menina doutora”.

Hoje recordo esses episódios com serenidade e até com algum humor, mas, na altura, eram a expressão de uma realidade que muitas mulheres ainda conhecem: a necessidade de conquistar credibilidade e reconhecimento através de um esforço acrescido. Aprendi desde cedo a deixar que fossem o trabalho, a consistência e os resultados a falar por mim. Talvez por isso, uma das minhas maiores conquistas tenha sido resistir à tentação de me moldar às expectativas dos outros, mantendo a firmeza e a assertividade sem abdicar da empatia. É essa combinação entre exigência técnica e proximidade com as pessoas que continua a pautar a minha forma de exercer a advocacia e de liderar.

Enquanto profissional em Direito do Trabalho, o que ainda precisa de mudar no mercado de trabalho? Considera que as mulheres continuam a enfrentar obstáculos no acesso a cargos de liderança e de decisão?
O mercado de trabalho português ainda tem um longo caminho a percorrer no que respeita à valorização do mérito, produtividade e conciliação entre a vida profissional e pessoal.

Mais do que nunca, é essencial que as organizações promovam uma cultura assente nas competências, no mérito e na igualdade de oportunidades. No que respeita à igualdade de género, reconheço que houve avanços importantes.

Contudo, continuo a entender que a mudança depende de uma transformação cultural, em que as mulheres se assumam como protagonistas ativas da sua carreira e do espaço público que ocupam. A igualdade não significa atribuir mais direitos às mulheres nem as considerar mais frágeis. Significa reconhecer que homens e mulheres têm igual dignidade e capacidade para participar, decidir e liderar. Se reduzirmos este debate à vulnerabilidade ou encararmos a maternidade como o principal elemento definidor da identidade feminina, corremos o risco de reforçar os mesmos estereótipos que procuramos combater.

Apesar dos progressos alcançados, continuam a verificar-se desigualdades salariais difíceis de justificar e alguns preconceitos associados à maternidade e à disponibilidade das mulheres. Estou convicta de que uma maior presença feminina em posições de liderança, nas empresas e no próprio mundo jurídico, será um fator decisivo para construirmos um mercado de trabalho mais justo, equilibrado e verdadeiramente igualitário.

Como encontrou o seu próprio estilo de liderança e que valores procura transmitir diaria mente às pessoas que trabalham consigo?
Fui construindo o meu estilo de liderança ao longo da experiência e da convicção de que a forma como lideramos deve ser coerente com aquilo que defendemos enquanto profissionais.

Sou exigente no rigor técnico, mas procuro dar autonomia real às pessoas com quem trabalho, criando um ambiente de confiança, responsabilidade e entreajuda. Valorizo o mérito, a igualdade de oportunidades e a dimensão humana nas relações profissionais, porque acredito que as pessoas crescem mais quando se sentem respeitadas e valorizadas.

Olhando para o caminho que percorreu até hoje, qual considera ser a sua maior conquista? E que mensagem gostaria de deixar às mulheres que ambicionam liderar e empreender?
Com o passar dos anos percebi que a minha maior conquista não se resume a um único momento. O que mais valorizo é ter conseguido construir um percurso alinhado com os valores que os meus pais me transmitiram e dos quais nunca me desviei. Mantive sempre a convicção de que é possível alcançar o sucesso sem abdicar da ética, da humanidade e da forma como tratamos os outros. Tenho também um orgulho enorme por ter criado uma equipa em que esses valores não são apenas teoria, mas uma realidade vivida diariamente.

Às mulheres que ambicionam liderar e empreender, não esperem sentir-se totalmente preparadas para começar. Os maiores desafios da vida raramente surgem quando nos sentimos prontas. Não permitam que outros definam o vosso espaço ou as vossas ambições. A sociedade ainda tende, muitas vezes, a empurrar as mulheres para funções de apoio, organização e execução, mas não necessariamente para os lugares de decisão. Procurem rodear-se de pessoas que vos desafiem e ajudem a crescer. O sucesso de uma mulher não diminui o sucesso das outras, pelo contrário, abre caminho para que mais mulheres possam chegar mais longe. Acima de tudo, mantenham-se fiéis aos vossos valores, porque é possível liderar, empreender e alcançar o sucesso sem abdicar daquilo que somos.