“Construir uma carreira sem trair quem somos”

Irina Akhmetova construiu, em Portugal, uma carreira marcada pela competência, pela liderança e pela capacidade de recomeçar sem abdicar de quem é. Entre a advocacia e o empreendedorismo, transformou a mudança numa forma de crescimento.

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Depois de ter deixado a Rússia e construído a sua vida profissional em Portugal, o que é que precisou de desaprender para voltar a aprender a ser advogada, empresária e mulher num novo país?
Não acredito muito na ideia de “desaprender”. Tudo o que aprendi antes de chegar a Portugal veio comigo e ajudou-me a crescer. Tive de aprender uma nova cultura, um novo sistema jurídico e novas formas de comunicar, mas aprendi que é possível começar de novo sem partir do zero. O meu percurso é uma soma de experiências, não uma substituição de identidades.

Em que momentos sentiu que o seu percurso internacional foi uma vantagem competitiva e em que momentos foi, pelo contrário, um teste à sua resistência?
O meu percurso internacional tornou-se uma vantagem quando percebi que compreendia os desafios dos meus clientes para além das questões jurídicas. Muitos passaram pelos mesmos processos de mudança, investimento ou adaptação a um novo país. Ao mesmo tempo, a minha origem estrangeira foi por vezes um teste à resistência. Sou uma pessoa reservada e, em alguns contextos, essa característica podia ser interpretada como distância.

Ao fundar o seu próprio escritório e fazer crescer uma equipa com mais de dez pessoas, que tipo de liderança quis provar que uma mulher pode exercer sem pedir licença ao modelo tradicional do setor?
Nunca pensei em provar que uma mulher pode liderar de determinada forma. Fundei o meu escritório, porque acreditava na minha forma de trabalhar. Construí uma equipa competente, responsável e humana.

Acredito numa liderança exigente, mas próxima. Sou exigente com a minha equipa, mas em primeiro lugar sou exigente comigo própria. A autoridade não nasce do cargo que ocupamos, mas da confiança que inspiramos e do exemplo que damos todos os dias.

Tendo chegado a Portugal há 20 anos, o que mudou mais na forma como a sociedade portuguesa olha para uma mulher estrangeira que lidera, decide e cria empresa por conta própria?
É difícil separar aquilo que mudou na sociedade daquilo que mudou em mim. Quando cheguei a Portugal era uma jovem estrangeira a iniciar a sua vida profissional; hoje sou advogada, empresária e líder de uma equipa. Portugal tornou-se também mais internacional e mais aberto à diversidade de percursos e origens. Ainda assim, continuo a acreditar que a confiança se conquista da mesma forma: através da competência, da consistência e do trabalho bem feito.

No seu caso, o sucesso não parece estar só em “vencer” profissionalmente, mas em conseguir enraizar-se num país novo: qual foi o preço invisível dessa construção e o que é que nunca negocia para continuar inteira nessa caminhada?
O preço invisível é a distância da família e das referências culturais. Quem vive entre países aprende a conviver com uma certa sensação de pertença múltipla e percebe que a sua verdadeira âncora está dentro de si. Ao longo dos anos aprendi que o verdadeiro sucesso consiste em construir uma vida e uma carreira sem trair quem somos.