Descomplicar finanças pessoais

Ana Vasco, fundadora da Ana Vasco Multiservice e empresária, defende que o sucesso não precisa de um grande centro urbano — precisa de conhecimento, autonomia e consistência. Entre a intermediação de crédito, a mediação de seguros e a missão de simplificar as finanças pessoais, inspira uma nova geração, sobretudo de mulheres, a acreditar no seu valor e a conquistar o seu espaço no mercado português.

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Enquadra-se como empreendedora “desde sempre”. Desde quando surgiu essa perceção e de que forma?

A perceção de que era empreendedora surgiu muito antes de eu conhecer o termo. Sempre fui movida pela vontade de criar, resolver problemas e transformar ideias em algo real. Desde cedo procurava autonomia, lançava pequenos projetos e tinha uma necessidade constante de aprender. Com o tempo, entendi que essa inquietação criativa e esse impulso para construir o meu próprio caminho eram justamente o que define o empreendedorismo. Hoje vejo que esse espírito sempre esteve presente e acabou por orientar naturalmente o meu percurso.

Ser empreendedora mulher já é um desafio, e fora de Lisboa ainda mais. Como é vingar no Algarve?

Vingar no Algarve, enquanto mulher empreendedora, tem um significado especial. Sempre quis equilibrar vida pessoal e profissional, e fazê-lo na minha região trouxe-me um sentimento de realização. Orgulha-me mostrar que o sucesso não precisa de estar centralizado em Lisboa ou no Porto; o Algarve tem talento, mercado e espaço para crescer. Muitas vezes falta apenas confiança e incentivo. Criar aqui o meu negócio permite-me contribuir para o desenvolvimento local e inspirar outras mulheres a acreditarem no seu valor, independentemente do código postal.

A Ana produz conteúdo financeiro. A literacia financeira é um problema em Portugal?

Sim, continua a ser um desafio profundo. Percebo diariamente que não falta vontade de aprender, mas sim informação clara e acessível. Durante muito tempo, falar de dinheiro era quase tabu: não se discutia em casa nem se aprendia na escola. Quando chega a vida adulta, muitos enfrentam decisões complexas sem preparação.

Hoje o sistema financeiro é mais exigente — créditos, taxas, seguros, investimentos — e essa falta de literacia faz-se notar. Vejo famílias a assumir compromissos sem compreender condições, jovens que desconhecem noções básicas e pessoas que nunca aprenderam a organizar um orçamento. Por isso, considero a literacia financeira urgente. Não se trata apenas de poupar, mas de planear e proteger o futuro. O meu objetivo é simplificar conceitos e mostrar que qualquer pessoa pode aprender a gerir o seu dinheiro. O conhecimento dá autonomia — e um país com cidadãos informados é sempre mais equilibrado.

Como surgiu a ligação à intermediação de crédito e à mediação de seguros?

A entrada nesta área foi uma evolução natural. A licenciatura em Gestão e Línguas Aplicadas deu-me bases analíticas e de comunicação; o Mestrado em Recursos Humanos ajudou-me a compreender perfis e necessidades; e a pós-graduação em Avaliação e Gestão Imobiliária aproximou-me do crédito à habitação.

Além disso, dou formação desde 2004, muitas vezes a públicos vulneráveis, o que despertou um forte sentido de missão: ajudar quem se sente perdido perante decisões financeiras. Percebi que podia juntar conhecimentos de gestão, comunicação, comportamento humano e imobiliário e aplicá-los num serviço que realmente melhora a vida das pessoas. A intermediação de crédito e a mediação de seguros tornaram-se, assim, um caminho natural e coerente.

Que mensagem deixa aos jovens, especialmente mulheres, que querem vingar em Portugal?

Acredito que é possível construir uma carreira sólida em Portugal. Não é imediato, nem simples, mas com visão, consistência e coragem há espaço para crescer. O país tem desafios, mas também oportunidades para quem pensa de forma inovadora e trabalha com disciplina.
Às mulheres deixo uma mensagem clara: não esperem validação externa nem o “momento certo”. Invistam na vossa formação, autonomia e inteligência emocional. Procurem contextos que valorizem talento feminino e que criem espaço para liderar. Acredito profundamente no potencial das mulheres para transformar equipas, negócios e comunidades. Portugal precisa de mulheres assim — e eu também.