Que impacto lhe parece que o trabalho e os problemas associados ao mesmo têm na saúde mental da população?
Vivemos num mundo de competição de mercado, objetivos a atingir, condições de trabalho como os open space, que geram desgaste pela falta de privacidade e aumento da exigência da concentração, acumulação de funções. Tudo isto gera muita ansiedade. O burnout, depressão, crises de pânico, esgotamento físico e mental, privação ou alterações do sono, má alimentação são alguns dos fatores que têm contribuído para baixas médicas, uso de ansiolíticos e antidepressivos, o que faz com que a produtividade, a motivação, a persistência, a criatividade, entre outros, diminua. Se as empresas investissem na saúde mental dos seus funcionários garantidamente iriam ter maior produtividade e aumento dos seus lucros. O investimento no seu funcionário seria uma aposta para o crescimento da empresa e qualidade dos serviços.
Que ações/políticas/ferramentas internas podem disponibilizar as empresas para que as pessoas possam sentir que a empresa está presente para ajudar?
Poderiam comparticipar nas consultas de psicologia e/ou psicoterapia, assim como nas de psiquiatria. Também poderiam criar gabinetes de atendimento psicológico ou criar parcerias com entidades, como “O Instituto do Desenvolvimento”, para prestar serviços de psicologia/psicoterapia, psiquiatria, neurologia, entre outros. Criar
momentos de team building e fins de semana de retiros. Outra ação seria não descontar o dia em que o funcionário tem uma consulta na área da saúde mental. Ter espaços de descanso dentro da empresa. São
algumas ideias…
Que impacto têm colaboradores desmotivados no dia a dia das empresas? Além da menor produtividade, que diferença pode isso fazer nas relações interpessoais e no ambiente de trabalho?
As pessoas ficam mais irritadas, mais predispostas para discussões, pois a exaustão leva à impulsividade, diminuição da tolerância, frustração, entre outras. Criam-se ambientes de trabalho pouco toleráveis e relações profissionais desgastadas. A falta de criatividade, a persistência nas tarefas, a concentração diminuem com a
desmotivação, logo o impacto na qualidade laboral é visível.
Os seres humanos têm, por vezes, dificuldade em reconhecer quando a sua saúde mental está afetada. Quais os sinais a que devemos estar atentos?
Devemos estar atentos a insónias ou hipersónia, ou dificuldades em adormecer, ou seja, alterações no seu padrão habitual de sono; alterações de apetite, ou por falta ou por excesso e alterações na regulação do
sistema digestivo; cansaço físico permanente ou dores no corpo; acordar já exausto; uma tristeza permanente e/ou persistente; aumento da ansiedade; dificuldade em sentir prazer em tarefas ou atividades que anteriormente eram prazerosas; cefaleias (dores de cabeça) constantes; diminuição da atenção e da memória.
Algumas associações ligadas à área da Saúde Mental congratulam-se com o facto de se falar mais sobre saúde mental, todavia referem que o papel dos profissionais de saúde desta área foi secundarizado pela nova lei da Saúde Mental. Qual a sua opinião?
Enquanto continuarmos a adiar um Plano Nacional de Saúde Mental, tudo acaba por ser construir castelos de areia. Falamos, de facto, mais em doença mental, contudo não temos equipas suficientes de médicos psiquiatras e psicólogos nos hospitais. Deveríamos falar mais de prevenção da doença e poderíamos de facto prevenir
muitas situações, se existissem respostas mais rápidas. Ações de sensibilização deviam estar a ser feitas em massa, mas as que existem são poucas e mal divulgadas. Os espaços onde se prestam os apoios hospitalares não têm as condições necessárias e o tempo de consultas está longe de ser o ideal. Portanto ainda bem que se fala, mas estamos a anos-luz de sero desejável.










