“É preciso incentivar hábitos de consumo racionais”

O papel da Águas do Tejo Atlântico, que recebe e trata as águas residuais de cerca de 2,4 milhões de pessoas, é determinante para preservar a qualidade das massas de água, tornando-as aptas para outros fins. A engenheira Ana Margarida Luís, administradora da empresa, explica quais as linhas orientadoras deste trabalho.

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Ana Margarida Luís, administradora

No que respeita essencialmente ao consumo humano e às atividades diretamente ligadas ao Homem, qual o papel da Águas do Tejo Atlântico relativamente à preservação deste produto?

A água na natureza é um recurso partilhado para os mais diversos fins, desde o consumo humano, à agricultura, às atividades de recreação. Por exemplo, a mesma massa de água pode ser usada como meio de descarga de águas residuais tratadas e, logo mais à frente, como origem de água para agricultura ou mesmo para consumo humano. Nesse sentido, o papel da Águas do Tejo Atlântico, que recebe e trata as águas residuais de cerca de 2,4 milhões de pessoas, é determinante para preservar a qualidade das massas de água, tornando-as aptas para outros fins, na medida em que garante uma qualidade do efluente rejeitado compatível com as características dos meios recetores. Por outro lado, para além dos aspetos relativos à Qualidade da água, há também a questão da Quantidade. Com efeito, na altura de estiagem, a água que circula em alguns cursos de água é maioritariamente – senão totalmente – a rejeitada pelas nossas ETAR, funcionando assim como uma espécie de caudal ecológico que ajuda a preservar os ecossistemas e mesmo a garantir determinados usos a jusante.

No processo de recolha e tratamento de água geram-se outras ações, como a reutilização da água, resultante do tratamento e a devolução de uma outra parte ao oceano. Geram-se também biolamas, por exemplo, que podem ser aproveitadas na agricultura. Este processo de recolha e tratamento é, assim, um processo sustentável, onde existe reaproveitamento?

Sem dúvida. Do ponto de vista de sustentabilidade ambiental, uma ETAR pode revelar-se muito mais do que uma Estação de Tratamento de Águas Residuais – pode constituir uma verdadeira Fábrica de subprodutos reaproveitáveis, dentro da lógica da Economia Circular. A Águas do Tejo Atlântico já reaproveita parte da água tratada na maioria das ETAR para uso interno nas próprias ETAR, e tem em curso processos para fornecimento de Água para Reutilização (essencialmente para rega de espaços verdes e lavagens de ruas) em diversos municípios. Também nas ETAR com maior dimensão é produzido biogás a partir do tratamento das lamas, representando a produção total de energia para autoconsumo cerca de 20 por cento das necessidades globais da empresa. Na ETAR da Guia, inclusivamente, há períodos em que a produção cobre praticamente a totalidade das necessidades, revelando-se autossuficiente em termos energéticos. Por outro lado, todas as lamas produzidas no tratamento das águas residuais são levadas para valorização e utilização na agricultura, por serem férteis em nutrientes como Azoto e Fósforo. É por estes motivos que, na Águas do Tejo Atlântico, passamos a designar as ETAR por “Fábricas de Água” – sendo que, na realidade, e como se viu, estas constituem até mais do que Fábricas de água para rejeição e reutilização: são, ou podem ser, autênticas fábricas azuis (porque preservam o meio hídrico) e verdes (porque preservam o ambiente no sentido mais lato). É a demonstração prática da lei de Lavoisier: “na natureza, nada se perde, nada se ganha, tudo se transforma”…

Como é feito o controlo da qualidade da água que resulta desse tratamento?

A qualidade da água é controlada através da concretização de um programa de controlo analítico, que para efeitos de avaliação de conformidade legal obedece aos requisitos impostos pela entidade reguladora com competências neste âmbito. Parte das análises é efetuada em Laboratórios próprios da Águas do Tejo Atlântico, acreditados pelo IPAC, sendo a restante parte contratada a outros laboratórios acreditados. Anualmente são recolhidas cerca de 31 mil amostras em diversos pontos do processo de tratamento de cada uma das nossas 103 ETAR, e são realizados cerca de 120 mil ensaios analíticos a vários parâmetros, quer para efeitos de controlo legal, quer de controlo operacional. Para além da qualidade do efluente tratado, são ainda realizadas algumas análises no meio recetor, a montante e a jusante dos nossos pontos de descarga. Trata-se de uma atividade discreta mas de fundamental importância para assegurar que estamos a cumprir a nossa missão.

De acordo com alguns relatórios da área, a qualidade da água nacional é muito alta (cerca de 99 por cento). Assim, Portugal é um país exemplo na forma como cuida da sua água?

Portugal apresenta indicadores muito bons no que ao tratamento de água para consumo humano e ao tratamento de águas residuais diz respeito. A Águas do Tejo Atlântico apresentou no ano passado uma conformidade legal superior a 99 por cento, o que tem reflexo, por exemplo, no elevado número de praias com Bandeira Azul na região de atuação da empresa. A nível nacional subsistem, porém, muitos desafios a superar no que se refere aos recursos hídricos de uma forma mais ampla, desde logo porque as fontes poluidoras são muitas e de índole diversa: tópica (por exemplo, associada à agroindústria) ou difusa (por exemplo, associada à agricultura). De qualquer forma, não se trata de um problema apenas de Portugal: são vários os países que até à data não conseguiram alcançar a meta da Diretiva-Quadro, que é a de atingir o bom estado ecológico e químico da globalidade das massas de água.

Quais os principais desafios para a Águas do Tejo Atlântico, tendo em conta o setor de atividade em que se insere?

O principal desafio é, e será sempre, prestar um serviço de excelência ao ambiente e à comunidade, a um preço justo, ao nível do tratamento das águas residuais. Como corolário, teremos que continuar a apostar na eficiência das nossas operações, para não repercutir nas tarifas custos desnecessários; na gestão integrada dos ativos infraestruturais, para garantir a sua fiabilidade; e na inovação tecnológica, para melhor nos posicionarmos na lógica da Economia Circular.

O que falta fazer para que este recurso fundamental seja mais respeitado e bem utilizado?

No plano institucional, a redução de perdas, um maior controlo sobre as entidades poluidoras e o estabelecimento de regras claras para os diferentes utilizadores de uma mesma massa de água, são apenas alguns exemplos. Já a nível individual e de cidadania, a sensibilização para a importância deste recurso é chave. Em algumas zonas do país a água doce começa a revelar-se um recurso cada vez mais escasso, tendência que se agravará com as alterações climáticas, pelo que tudo o que possa ser feito no sentido de incentivar hábitos de consumo racionais não será demais. Por outro lado, quem, como eu, já viveu junto a um rio poluído, em que a qualidade da água das praias não incentivava às práticas balneares – bem pelo contrário! -, e agora frequenta essas mesmas praias que até têm bandeira azul, sabe dar muito valor ao trabalho que é feito todos os dias em empresas como a Águas da Tejo Atlântico, e faz tudo o que estiver ao seu alcance para preservar essa qualidade. Por isso as ações de sensibilização são tão importantes, para que não se dê a água como garantida, seja para que uso for.

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