Falar de igualdade não é tendência: é cultura

Liliana Rodrigues, CEO da People (Ac)Counts e Especialista em Recursos Humanos, defende que o Dia Internacional da Mulher é um ato de consciência e compromisso, num contexto em que persistem desigualdades salariais, desafios na progressão para cargos de liderança e obstáculos à conciliação entre vida pessoal e profissional.

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O Dia Internacional da Mulher continua a ser celebrado em pleno século XXI, apesar dos avanços nos direitos das mulheres. Qual é a importância de manter esta data viva e relevante nas empresas e na sociedade?
Apesar de já termos conquistado muitos direitos, a verdade é que ainda existe caminho por fazer – e não é pouco. Manter esta data viva é garantir que não nos esquecemos da história, das lutas e, sobretudo, do que ainda precisa de mudar.

Ainda há muitas desigualdades – algumas visíveis, outras bem silenciosas. E esta data obriga-nos a parar e a refletir: no que já conquistámos, mas também no que ainda falta conquistar. nas empresas, é uma oportunidade de parar, refletir e agir – não apenas celebrar. Falar de igualdade salarial, oportunidades de liderança, conciliação entre vida pessoal e profissional, entre outras, são temas que têm impacto direto na vida das mulheres todos os dias.

Mais do que uma homenagem, deve ser um momento de consciência e compromisso. Porque falar de igualdade não é tendência: é cultura. E cultura constrói-se todos os dias, não só a 8 de março.

“Apesar de já termos conquistado muitos direitos, a verdade é que ainda existe caminho por fazer – e não é pouco. Manter esta data viva é garantir que não nos esquecemos da história, das lutas e, sobretudo, do que ainda precisa de mudar”.

Enquanto especialista em Recursos Humanos, acredita que existe ainda alguma diferença significativa na forma como homens e mulheres são tratados ou reconhecidos dentro das organizações? Como é que uma cultura organizacional inclusiva pode contribuir para reduzir estas desigualdades?
Sim, ainda existem – algumas mais visíveis, outras mais subtis. Hoje já vemos mais mulheres em cargos de liderança, mas o reconhecimento, a progressão salarial e até a forma como a assertividade é interpretada continuam, muitas vezes, a ser diferentes.

Uma cultura organizacional inclusiva faz toda a diferença, porque cria espaço para todos terem voz. Quando existe equidade nas oportunidades, nas avaliações e no reconhecimento, deixa de haver “género” e passa a haver talento. Quando a cultura é genuína e não apenas “de fachada”, as desigualdades começam naturalmente a reduzir. E é aí que as empresas realmente crescem.

Muitos estudos indicam que o envolvimento e o alinhamento das equipas com a estratégia da empresa aumentam a produtividade e a motivação. Na sua experiência, de que forma a igualdade de género influencia esse envolvimento e a performance global da equipa?
Quando as pessoas sentem que são tratadas de forma justa, envolvem-se mais. Isto é automático.

A igualdade de género traz equilíbrio às equipas – diferentes visões, diferentes formas de liderar, de comunicar e de resolver problemas. Equipas diversas são equipas mais criativas, mais humanas e até mais produtivas, porque quando existe respeito e representatividade,
as pessoas sentem que pertencem. E quando sentem que pertencem, dão muito mais de si. Ambientes equilibrados geram: mais motivação, menos rotatividade, maior sentido de pertença e melhores resultados globais.

Assim, a igualdade de género não é só uma questão social – é uma questão estratégica.

Que medidas concretas recomenda às empresas para promover um ambiente de trabalho mais justo, inclusivo e capaz de valorizar o talento feminino, sem recorrer apenas a quotas ou ações simbólicas?
Mais do que quotas, que às vezes são vistas como obrigação, eu acredito em medidas estruturais. Por exemplo:
– Políticas reais de conciliação trabalho-família;
– Transparência salarial;
– Planos de carreira claros;
– Formação em liderança inclusiva;
– Programas de mentoria feminina.

Mas acima de tudo: exemplo da liderança. Se a gestão de topo valoriza, respeita e promove talento feminino de forma natural, isso espalha-se pela cultura da empresa inteira.

No futuro, que mudanças gostaria de ver nas organizações portuguesas em termos de direitos das mulheres e igualdade de oportunidades? Acha que a pandemia e as mudanças recentes no mercado de trabalho aceleraram ou atrasaram estes avanços?
Gostava de ver a igualdade deixar de ser tema, para passar a ser realidade natural. Eu gostava de ver organizações cada vez mais humanas. Onde ser mulher – e muitas vezes mãe – não fosse visto como limitação, mas apenas como parte da vida. A pandemia trouxe aqui dois lados: por um lado acelerou a flexibilidade, o teletrabalho, a confiança, o que ajudou muito. Mas por outro também sobrecarregou muitas mulheres, que acumularam trabalho, casa e filhos.

Acho que agora estamos num ponto de viragem. se as empresas aproveitarem o que aprenderam e transformarem isso em políticas sustentáveis, podemos dar um salto gigante na igualdade de oportunidades em portugal.