“Falta valorizar esta atividade”

Pedro Simões fundou a Acoq há 17 anos, uma empresa de Contabilidade e Fiscalidade cujos clientes são maioritariamente empresários estrangeiros, residentes ou não em Portugal, bem como empresas nacionais que têm atividades comerciais com o Estrangeiro. Do Brexit à pandemia, passando pela importância da diversidade de mercados com que trabalham, Pedro Simões deixou evidente a importância da área da Contabilidade e Fiscalidade na vida das empresas.

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Pedro Simões, managing director

Como caracteriza a Acoq, no que respeita aos serviços que prestam e à relação com os clientes?

A Acoq começou inusitadamente, há cerca de 17 anos, depois de eu ter saído de uma empresa onde trabalhava, na mesma área. Tenho uma experiência de mais de 30 anos no setor. No que respeita às áreas de negócio, temos uma atividade bastante ampla. Além de termos como base a área Fiscal e Financeira, temos vários outros serviços, que complementam esta área e que também são requisitados pelos clientes, como a Contabilidade e a Representação Fiscal de Não Residentes. Prestamos também apoio a quem quer iniciar uma empresa em Portugal, mas não é residente no país. Optámos por ter um alargado leque de serviços, bem como clientes dos mais variados setores de atividade, oriundos de vários países, com o objetivo final de diversificar ao máximo a nossa carteira de clientes. Uma empresa de contabilidade gere-se de forma semelhante às de outras atividades, e aí talvez esta diversidade seja o resultado da minha base académica na área da Gestão.

A opção por clientes estrangeiros também advém do meu passado profissional, pois trabalhei em empresas de Contabilidade que trabalhavam sobretudo com o estrangeiro. Na Acoq temos clientes ingleses – o nosso maior mercado -, irlandeses, franceses, holandeses, espanhóis, norte-americanos, belgas, alemães, dinamarqueses, suecos, noruegueses, brasileiros, canadianos… E todos com diferentes áreas de atividade. Maioritariamente, temos clientes empresariais, mas também trabalhamos com clientes particulares.

Atualmente, estamos presentes em dois pontos do território nacional: em Sintra, onde começámos a nossa atividade, e em Albufeira, onde abrimos um escritório há quatro anos. Desde essa altura, o nosso crescimento tem sido mais acentuado. Mesmo em 2020, crescemos entre oito e 10 por cento.

Tendo em conta a concretização do Brexit e o respetivo acordo comercial entre a União Europeia e o Reino Unido, sentiu alguma diferença no mercado?

Sinceramente, não. No entanto, temos alguns clientes que se abastecem em Inglaterra e isso é algo que se pode tornar difícil, pois quem importa produtos irá sentir um acréscimo no valor da sua compra, porque terá taxas para suportar. Uma solução será estes clientes procurarem alternativas em países da União Europeia. Alternativamente, os fornecedores, localizados em Inglaterra, podem transferir as suas operações para países como a Irlanda, por exemplo. Isso evitaria todas as taxas. Depois, há ainda a considerar o tempo que a encomenda pode demorar a chegar a Portugal, tendo em conta que pode ficar retida na alfândega algum tempo. Para quem importa alimentos, como é o caso de alguns supermercados algarvios que têm produtos ingleses, isso pode ser um problema. Na verdade, parece-me que o Reino Unido poderá enfrentar um risco acrescido de deslocalização de empresas, que querem continuar a comercializar os seus produtos sem acréscimos de taxas ou demoras causadas pela alfândega.

Em que aspetos é que a pandemia vos influenciou, quer na atividade que desempenham, quer em termos de alteração de procura de serviços?

No primeiro confinamento, optámos pelo teletrabalho. Todas as reuniões eram feitas por videoconferência. Estivemos assim cerca de um mês e meio e depois regressámos ao escritório, onde tínhamos todas as condições de trabalho e também as de higiene e segurança necessárias para levar a cabo a nossa atividade sem pôr em risco a saúde de ninguém. Neste segundo confinamento, mantemo-nos a trabalhar no escritório, mas não estamos a receber ninguém para reuniões presenciais.

No que respeita à influência que a pandemia teve no nosso trabalho, houve serviços que tiveram um decréscimo, de facto, mas também houve outros em que a procura aumentou. Nunca deixámos, inclusivamente, de ter clientes novos. Em relação aos serviços de apoio às empresas, optámos por não faturar aos clientes os serviços que eram relacionados com comparticipação de despesas. Todos os que eram relacionados com subvenções ou subsídios não reembolsáveis, aí faturámos o serviço.

Ainda é difícil fazer previsões quanto aos próximos tempos?

Sim, sem dúvida. Para além de uma questão sanitária, creio que esta incerteza provoca uma grande ansiedade aos empresários, colaboradores das empresas e suas famílias pelo risco na capacidade de resistência das empresas, com consequentes implicações na sanidade mental das pessoas. Muitos dos nossos clientes estão ligados ao Turismo e estão, literalmente, a “aguentar-se” desde que a pandemia começou. Até agora, só tivemos um cliente que fechou o seu negócio, porque optou por fazê-lo. Contudo, a maioria dos empresários que temos como clientes são pessoas entre os 30 e os 50 anos, que vivem do seu negócio e são muito resilientes. Todavia, 2021 vai ser mais difícil do que 2020, pois se no início da pandemia algumas empresas tinham margem para se sustentar durante algum tempo, com pouca ou nenhuma faturação, com o passar do tempo a situação financeira vai-se deteriorando e mesmo as empresas que estavam financeiramente saudáveis deixarão de estar. As medidas de ajuda governamentais serão ainda mais fundamentais e, na verdade, a forma como estas têm sido anunciadas e a sua efetiva concretização não melhorou, de 2020 para 2021.

Que problemas do setor em que trabalha lhe parecem importantes de salientar e de resolver?

Os problemas que identifico na nossa atividade não são problemas que tenham uma resolução muito fácil, porque não são específicos da atividade, mas sim da nossa mentalidade e cultura. O principal problema é uma questão de valorização. A valorização começa quando nós acrescentamos a algo um valor que as pessoas conseguem percecionar. Isso é difícil de fazer, especialmente nesta fase, embora a pandemia tenha trazido algum reconhecimento do nosso trabalho, por parte das empresas. Todavia, ainda existem muitos clientes que não entendem a importância do trabalho que fazemos. Ainda assim, a Ordem dos Contabilistas tem feito um trabalho muito bom, no que respeita à informação que passa e à forma como tem gerido este período em particular.

www.acoq.pt

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