“Liderança é assumir responsabilidade pela própria vida”

Para Cristina Gonçalves, a autoconfiança constrói-se quando a coragem supera o medo e a autenticidade se transforma no ponto de partida para liderar, empreender e viver de forma plena.

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No seu percurso, em que momento percebeu que o verdadeiro desafio das mulheres não é a falta de capacidade, mas a dificuldade em reconhecer o próprio valor num mundo que ainda as pede para se encolherem?
Ao longo destes 20 anos o que encontrei nestas mulheres (e em mim mesma) foi um padrão de adaptação antigo, onde aprenderam que era mais seguro agradar do que contrariar e corresponder às expectativas do que mostrar quem realmente eram. A maioria destas mulheres são competentes, inteligentes e dedicadas, mas não conseguem reconhecer essas qualidades. Em vez de insegurança, eu vejo mais como uma contração interior: um estado em que a mulher deixa de confiar na própria voz e vive presa na expectativa dos outros.

Quando fala de autoconfiança feminina, está a falar de força interior, de mentalidade ou uma forma de estar na vida? Como é que isso se traduz, na prática, para uma mulher que quer afirmar-se profissionalmente?
A autoconfiança é coerência entre aquilo que pensamos, sentimos e fazemos, e isso traduz-se em força interior.

Uma mulher mais segura expressa a sua opinião sem pedir desculpa, coloca limites sem culpa, deixa de minimizar as suas conquistas e assume oportunidades sem sentir que tem de provar constantemente que merece estar ali.

Muitas mulheres chegam ao empreendedorismo ou à liderança depois de anos a duvidarem de si próprias. Que bloqueios continuam a aparecer com frequência e o que distingue, quem consegue transformar insegurança em ação?
O bloqueio mais frequente continua a ser o medo de não ser suficiente. Muitas mulheres já provaram inúmeras vezes a sua competência, mas continuam à espera de se sentirem preparadas. Vejo também o medo de serem julgadas.

Quem transforma insegurança em ação é quem está cansada de encolher-se e decide que os seus sonhos são mais importantes do que a opinião alheia.

Na sua opinião, o que ainda falta em Portugal para que o empreendedorismo e a liderança feminina cresçam com mais consistência?
Acredito que a mudança mais profunda é cultural. Educam-se as mulheres para cuidar dos outros e deixar-se para último lugar. Valoriza-se a “menina boazinha” que é simpática e não dá problemas. Na vida adulta origina dificuldade de afirmação e a sensação de estar a falhar cada vez que querem afirmar-se.

Precisamos também de ampliar a ideia de liderança. Liderança para mim é assumir responsabilidade pela própria vida, influenciar através da autenticidade e criar impacto sem abdicar de quem somos.

Que mensagem deixaria às mulheres que estão hoje entre o medo e o salto, qual seria o primeiro passo concreto que lhes pediria para dar para começarem a construir a vida que desejam?
Façam esta pergunta: “Onde é que me estou a encolher para ser aceite?”

Depois escolham uma ação concreta: ter a conversa que têm adiado, expressar uma opinião que costumam guardar, dizer “não” quando normalmente diriam “sim” ou aceitar uma oportunidade que têm recusado por medo. A coragem não aparece antes da ação, cresce e reforça-se sempre que escolhemos ser fiéis a nós próprias. Essa é a verdadeira liderança.