Falar de Daniela Santos é falar de uma mulher que nunca permitiu que o passado determinasse o seu futuro. Cresceu em instituições e viveu uma infância e adolescência marcadas por profundas adversidades. Ainda assim, recusou deixar-se limitar pelas circunstâncias e traçou, desde cedo, um objetivo claro: construir uma vida diferente.
Trabalhou, estudou em horário pós-laboral, constituiu família, tornou-se mãe de três filhos, desenvolveu uma carreira sólida na área financeira, criou uma microempresa e chegou a viver nos Estados Unidos, sempre numa procura constante de compreender a sua própria história. “Durante muitos anos, sabia exatamente para onde não queria ir. Foi isso que me levou sempre a seguir em frente e a acreditar que também conseguiria construir a vida que desejava”, recorda.
Depois de anos de estabilidade profissional, percebeu que já não se identificava com a carreira que tinha construído. A decisão de mudar trouxe medo, dúvidas e insegurança, mas abriu caminho para uma descoberta transformadora. Primeiro surgiu o coaching, depois, o desejo de compreender verdadeiramente o sofrimento humano conduziu-a ao curso de Psicologia. “Passei 47 anos a construir uma carreira, mas foi aos 47 que encontrei a minha verdadeira vocação”, destaca.
Para Daniela, recomeçar não significa apagar o passado, mas dar-lhe um novo significado. “A nossa história influencia-nos profundamente, mas não tem de determinar quem podemos vir a ser. Muitas vezes, aquilo que hoje nos faz sofrer foi, em tempos, a melhor solução que encontrámos para sobreviver ao contexto em que vivíamos”.
“A nossa história influencia-nos profundamente, mas não tem de determinar quem podemos vir a ser”
Compreender a pessoa para lá do diagnóstico
Ao longo do seu percurso, consolidou a convicção de que compreender alguém exige olhar muito para além dos sintomas. Mais do que identificar um comportamento, importa perceber o seu significado, o contexto em que surgiu e a função que desempenhou na vida da pessoa. “Interessa-me compreender a pessoa que existe por detrás do diagnóstico. Duas pessoas podem ter o mesmo diagnóstico e histórias completamente diferentes. O essencial é olhar para cada indivíduo como uma história única, com marcas próprias, ritmos distintos e formas singulares de sofrer e de se reconstruir”.
Esta visão tornou-se igualmente central na sua forma de entender a liderança. Para Daniela, liderar implica coerência entre o discurso e a ação, responsabilidade pelas próprias escolhas e capacidade para criar condições de crescimento nos outros. “Liderar é, acima de tudo, assumir responsabilidade pelas próprias escolhas, criar condições para que os outros também possam crescer, ser fiel aos valores que defendemos e abrir espaço para que cada pessoa encontre o seu próprio caminho”.
Mulheres, culpa e o direito de cuidar de si
A experiência profissional permitiu-lhe identificar um padrão recorrente na vida de muitas mulheres: a tendência para colocarem sistematicamente as necessidades dos outros acima das suas. Entre os papéis de mães, companheiras, filhas, cuidadoras e profissionais, vivem frequentemente numa tentativa constante de corresponder às expectativas, esquecendo aquilo de que verdadeiramente necessitam. “A maioria das mulheres não procura ajuda por falta de força; procura porque carregou, durante demasiado tempo e muitas vezes sozinha, um peso excessivo”, explica.
Na sua perspetiva, continua a existir uma valorização social da mulher que suporta tudo em silêncio, nunca falha e responde sempre a todas as exigências. O problema surge quando, para corresponder a esse ideal, começa a afastar-se de si própria e deixa de saber responder a uma pergunta essencial: ‘O que é que eu preciso?’.
“A maioria das mulheres não procura ajuda por falta de força; procura porque carregou, durante demasiado tempo e muitas vezes sozinha, um peso excessivo”
Burnout, limites e comunicação
O aumento dos casos de burnout resulta, em grande medida, da dificuldade em reconhecer necessidades, estabelecer limites e comunicar o que se sente. Vivemos numa sociedade acelerada, onde as exigências profissionais se acumulam com as responsabilidades familiares e onde as redes sociais alimentam comparações permanentes e a ideia de que é preciso fazer sempre mais. A própria viveu essa experiência enquanto conciliava trabalho, estudos, família e maternidade. “Houve uma altura em que simplesmente deixei de conseguir. Foi aí que percebi a importância de estabelecer prioridades e reconhecer que ninguém consegue chegar a todo o lado”, admite. Aprender a estabelecer limites é, por isso, uma das maiores formas de autocuidado.
Apesar da evolução da sociedade, considera que continua a existir um forte estigma em torno da saúde mental e acredita que a Psicologia deve ser encarada não apenas como resposta ao sofrimento, mas também como ferramenta de prevenção, autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. “A Psicologia ajuda as pessoas a compreenderem-se melhor, para que possam viver de forma mais consciente, coerente consigo próprias e alinhada com aquilo que verdadeiramente valorizam”, sublinha.
Ser mulher é ter o direito de escolher
Para Daniela Santos, uma das mudanças mais importantes da sociedade passa por deixar de elogiar apenas a capacidade de sacrifício das mulheres e começar a valorizar quem estabelece limites, pede ajuda, diz ‘não’ quando necessário e escolhe viver de acordo com os próprios valores, mesmo que implique desiludir expectativas. “Precisamos de deixar de acreditar que cuidar de nós é egoísmo. Só quando nos cuidamos verdadeiramente é que conseguimos cuidar dos outros sem nos perdermos pelo caminho”, defende.
Acredita igualmente que as mulheres devem sentir-se livres para perseguir os seus sonhos sem culpa, independentemente da idade ou da fase da vida em que se encontram. “Nunca é tarde para sermos verdadeiramente nós próprias. Nunca é tarde para procurar aquilo que nos faz sentir vivas”. Porque, no final, o verdadeiro sucesso não está em corresponder ao que os outros esperam, mas na coragem de escolher uma vida coerente com quem realmente somos. “Somos sempre muito mais do que aquilo que nos aconteceu”, conclui.










