Quando olha para o percurso que a trouxe até à liderança da Sell Point, qual foi o momento em que percebeu que já não estava apenas a construir uma empresa, mas também a afirmar-se como uma referência femi nina no setor comercial?
Não houve um momento exato. Foi mais como o nascer do dia: acontece devagar, até que a luz se torna impossível de ignorar. Durante muito tempo estive focada apenas no trabalho. Em construir uma empresa sólida, criar oportunidades para as pessoas e provar, todos os dias, que os resultados são consequência da dedicação, da visão e da capacidade de persistir.
A consciência de que poderia representar algo mais surgiu quando comecei a olhar para trás e a perceber o caminho percorrido. Num setor onde a liderança comercial continua a ser maioritariamente associada a figuras masculinas, fui ocupando o meu espaço de forma natural, sem procurar ser um símbolo, mas sem nunca abdicar de ser quem sou. Hoje percebo que cada passo dado ajudou a mostrar que existe espaço para diferentes formas de liderar. Que a firmeza pode caminhar ao lado da empatia, que a sensibilidade não diminui a capacidade de decisão e que uma mulher pode liderar com autenticidade sem precisar de se transformar em algo que não é.
A Sell Point nasceu da vontade de criar impacto através das pessoas. Até que ponto a sua visão enquanto mulher influenciou a cultura organizacional e a forma como lidera equipas e clientes?
Influenciou profundamente. Sempre acreditei que as empresas são feitas de pessoas antes de serem feitas de números. Talvez por isso tenha construído uma cultura onde a proximidade não é uma estratégia, mas um valor.
Gosto de ouvir antes de decidir, compreender antes de exigir e inspirar antes de pedir resultados. Não vejo fragilidade na empatia; vejo inteligência. Não vejo fraqueza na sensibilidade; vejo força.
Na Sell Point procuramos criar relações genuínas, porque acredito que os melhores negócios nascem da confiança. E a confiança constrói-se com consistência, transparência e respeito. É isso que procuro transmitir às equipas e aos clientes: que o crescimento sustentável acontece quando as pessoas sentem que fazem parte de algo maior do que um objetivo comercial.
No final, os resultados são importantes, mas aquilo que permanece são as relações que conseguimos construir ao longo do caminho.
Muitas histórias de sucesso destacam as conquistas, mas raramente os momentos de vulnerabilidade. Qual foi a decisão mais difícil da sua carreira e o que aprendeu sobre si própria durante esse processo?
A decisão mais difícil foi continuar a avançar em momentos em que tudo à minha volta convidava à dúvida. Empreender é, muitas vezes, caminhar sem ver o fim da estrada. Existem noites longas, decisões solitárias e responsabilidades que pesam mais do que aquilo que mostramos ao mundo.
Aprendi que a coragem não é a ausência de medo. É a escolha de seguir em frente apesar dele. Aprendi também que a vulnerabilidade não diminui uma líder. Pelo contrário: torna-a mais consciente, mais próxima e mais verdadeira. Foi nos momentos mais difíceis que descobri a dimensão da minha própria força.

Vivemos numa época em que se fala cada vez mais de equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Considera que as mulheres líderes continuam a enfrentar uma pressão acrescida para serem bem-sucedidas em todas as dimensões da vida?
Sem dúvida. Durante muito tempo, foi-nos transmitida a ideia de que deveríamos ser excecionais em tudo: profissionais brilhantes, mães presentes, companheiras dedicadas, amigas disponíveis e mulheres impecáveis. Mas a verdade é que ninguém consegue ser tudo, todos os dias.
Hoje acredito que o verdadeiro equilíbrio não está na perfeição, mas na aceitação. Há fases em que a carreira pede mais de nós. Outras em que a família ocupa o centro. E está tudo bem.
As mulheres precisam de se libertar da culpa e perceber que o seu valor não depende da capacidade de corresponder a todas as expectativas.
Se pudesse regressar ao início da sua carreira e conversar com a jovem Cátia Alves de Oliveira, que conselho lhe daria sobre ambição, liderança e confiança?
Dir-lhe-ia para confiar mais em si. Para não esperar que alguém lhe dê autorização para sonhar grande. Dir-lhe-ia que a ambição não é um defeito; é uma forma de honrar o potencial que existe dentro de nós. Que liderar não é estar à frente, mas caminhar ao lado. E que o fracasso não é o contrário do sucesso – faz parte dele. Acima de tudo, dir-lhe-ia para nunca deixar que o medo fale mais alto do que a sua voz.
Que legado gostaria que a Sell Point deixasse no mercado e que mensagem gostaria que as futuras gerações de mulheres empreendedoras retirassem da sua história?
Gostaria que a Sell Point fosse lembrada como uma empresa que acreditou nas pessoas antes de acreditar nos resultados. Uma empresa que mostrou que é possível crescer sem perder valores, alcançar objetivos sem perder humanidade e criar impacto sem esquecer quem caminha connosco.
Quanto às futuras mulheres empreendedoras, gostaria que percebessem que não precisam de encaixar em nenhum molde para serem bem-sucedidas. A sua autenticidade é a sua maior vantagem competitiva.
Se a minha história puder deixar uma mensagem, que seja esta: não tenham medo de ocupar o vosso lugar. O mundo não precisa de mais cópias. Precisa daquilo que cada mulher tem de único para oferecer. E, muitas vezes, a maior revolução começa simplesmente quando decidimos acreditar em nós próprias.











