Liderar com coragem e consistência

Cofundou uma sociedade de advogados aos 30 anos, aprendeu a liderar entre pressão e exigência e recusa que a perfeição seja sinónimo de sucesso. Joana Reis fala da coragem, dos limites e da liderança no feminino como uma aventura responsável.

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Ao olhar para a sua trajetória, qual foi a experiência mais difícil ou emocionalmente desafiante que viveu e que acabou por moldar a profissional e a mulher que é hoje?
Creio que um dos maiores desafios do meu percurso foi assumir cedo responsabilidades para as quais raramente nos sentimos totalmente preparadas. Ser cofundadora de uma sociedade de advogados, com a Sara Pinto, aos 30 anos foi um momento de grande exigência profissional e pessoal. Há um lado pouco visível: a responsabilidade de decidir, de assumir riscos e responder por clientes, equipas e por um projeto que depende da nossa visão.

O desafio não foi apenas o de ser mulher – foi também o da idade. Convencer os outros de que podiam confiar em mim exigiu um esforço acrescido. Em determinados contextos culturais com os quais trabalho, ser mulher e jovem não inspira, à partida, o mesmo nível de confiança. Isso obrigou-me a ser mais preparada, rigorosa e consistente. Ensinou-me que a confiança se constrói, não se impõe.

Enquanto mulher, advogada e líder, já sentiu a pressão de ter de ser simultaneamente forte, impecável e disponível para todos? Como lida com as expectativas que os outros projetam sobre si e com aquelas que impõe a si própria?
Sim, essa pressão existe. Espera-se que as mulheres sejam simultaneamente fortes, impecáveis e sempre disponíveis.

Também senti essa pressão. Hoje procuro gerir expectativas com mais lucidez e limites. Continuo exigente, mas substituí a ideia de perfeição e de disponibilidade absoluta pela consistência. Nem tudo o que os outros projetam sobre nós merece ser acolhido como obrigação.

Sara Pinto e Joana Reis

Quando as luzes se apagam, as reuniões terminam e os títulos profissionais ficam para trás, quem é a Joana Reis? Que valores, medos ou sonhos continuam a acompanhá-la e a definir o seu caminho?
Os títulos são o que menos me importa. Guio-me pela responsabilidade, independência e sentido ético. Valorizo a lealdade e a capacidade de fazer bem, com rigor, mas também com dimensão humana.

Um dos meus maiores receios é perder a clareza sobre o essencial. Em profissões exigentes, é fácil confundir reconhecimento com identidade. Procuro lembrar-me de que crescer só faz sentido se não comprometer os valores que me trouxeram até aqui. Profissionalmente, quero consolidar um projeto sólido, que vá para além de mim e contribuir para uma cultura onde a liderança no feminino deixe de ser exceção.

Se pudesse deixar uma mensagem à jovem Joana Reis que estava a iniciar a sua carreira e a todas as mulheres que sonham ocupar lugares de liderança, que conselho lhes daria?
Diria à jovem Joana e a todas as mulheres: tenham coragem. Coragem para avançar sem esperar pelo momento perfeito (que raramente chega), para assumir responsabilidade e para aceitar que crescer implica sempre algum grau de risco. Coragem para mudar: procurar diferente, redefinir caminhos e recomeçar faz parte do crescimento. Acredito muito numa ideia de “aventura responsável” – não é avançar sem pensar, mas também não é ficar à espera até que tudo esteja garantido. É preparar, decidir e agir, mesmo com incerteza. Porque, no fim, não é quem espera que constrói o caminho – é quem avança.