Enquanto diretora clínica, sente que ainda é necessário provar mais competência para conquistar credibilidade e influência? Que mudanças considera indispensáveis para que as futuras gerações de médicas possam lide rar sem esse peso?
Penso que a maturidade e a autoconfiança do gestor serão suficientes na tomada de decisão, tendo por princípio o benefício do maior número possível de pessoas. Vejo a gestão como uma arte, filosófica e técnica. Beauvoir ensinou que “não se nasce mulher, torna-se mulher”; Edith Stein via na mulher a vocação de humanizar a si e aos outros. Relativamente à nomeação de cargos de gestão de topo, defendo as quotas até a cultura se tornar mais permeável ao feminino.
Num contexto em que os indicadores e a pressão assistencial ocupam grande parte do dia a dia hospitalar, como se preserva o lado humano da medicina?
Preservo o lado humano na inegociabilidade da ética com escuta atenta para a catarse, sobretudo dos líderes intermédios. Sigo a ética do cuidado de Carol Gilligan: a maturidade nasce da ligação entre pessoas. Invisto numa cultura humana em que a dignidade e os direitos humanos têm a intocabilidade obrigatória.
No seu mais recente livro defende que “o importante é que a poesia também toque as pessoas e as leve a refletir”. Acredita que essa mesma capacidade de provocar reflexão e empatia faz hoje falta ao sistema de saúde? Como é que a cultura, a literatura ou a arte podem contribuir para cuidados mais humanizados?
Sim. A poesia e a literatura dão plasticidade à interpretação de significados e valorizam a alteridade, que envolve compaixão e empatia. Aplico isto no dia a dia: perceber o significado motivacional do desempenho, dignificar o trabalho, reconhecer o esforço com justiça e equidade. A arte permite desvendar e criar o real, abrindo espaço à inovação no imprevisível.
“Aplico isto no dia a dia: perceber o significado motivacional do desempenho, dignificar o trabalho, reconhecer o esforço com justiça e equidade”
Ser mulher, médica, gestora e escritora implica conciliar diferentes dimensões da vida. Em algum momento sentiu que lhe foi pedido escolher entre a exigência profissional e a ex pressão mais pessoal e criativa?
Aprendi a não escolher, mas a integrar, com plasticidade para me adaptar. A escrita dá-me leveza; a gestão, estrutura; a medicina, propósito. Equilíbrio não divide o tempo, integra-o com sentido. Todas as funções desempenhadas terão de ter a consciência do impermanente e irrepetível, num compromisso de vivência plena, dignificante e desapegada.
Se pudesse deixar uma marca duradoura na saúde portuguesa, qual gostaria que fosse? Que legado espera construir para os profissionais, para os doentes e para o papel das mulheres na liderança da saúde?
Liderar no feminino é construir uma cultura sensível ao outro, seja um doente, parceiro social, profissional, numa integração interdisciplinar e multidisciplinar dos cuidados. O legado que quero deixar é o de uma gestão participativa, inovadora, transmissível com tolerância mútua, comprometida com a dignificação do ser humano. Só liderando pelo exemplo, ao nível macro, se replica coesão nas equipas.
Para as mulheres na saúde, o exemplo de que se pode liderar com sensibilidade feminina, entusiasmo, confiabilidade, competências relacionais interculturais, progressistas e inclusivas na justiça social.










