Num mundo dominado pela produção em massa, a Hoooked convida as pessoas a abrandar, criar com as próprias mãos e valorizar o processo. Até que ponto acredita que a empresa vende muito mais do que fios?
Na Hoooked trabalhamos com fios, mas vendemos tempo, presença e um convite a criar de forma consciente. Cada novelo junta sustentabilidade, criatividade e bem-estar: reutilizamos desperdício têxtil europeu e transformamos resíduos em valor — e consumidores em criadores.
Nascida na Alemanha, a viver em Portugal há 20 anos, sei que propósito só se sustenta com números. Hoje vendo histórias e orgulho do feito à mão — os fios são o veículo.
A Hoooked nasceu para provar que aquilo que muitos consideram desperdício pode ganhar uma nova vida. Acredita que essa filosofia também reflete a sua forma de liderar pessoas e de olhar para o potencial humano? De que forma essa visão influencia as decisões que toma enquanto CEO?
A Hoooked nasceu da convicção de que o desperdício pode ganhar nova vida — olho para o talento humano da mesma forma, mas sem romantismo: potencial só conta se der resultados.
Vi, no retalho, pessoas subaproveitadas em funções sem espaço para errar e crescer. Como CEO, essa visão traduz-se em liderar com empatia e exigência — e na convicção de que envolver as pessoas nas decisões faz crescer uma equipa.

A marca tem conseguido conquistar uma comunidade global sem perder as suas raízes portuguesas. Como se constrói uma identidade suficientemente forte para ser reconhecida em mercados tão distintos e, ao mesmo tempo, manter a autenticidade que distingue a Hoooked?
Uma identidade forte não se constrói a fugir das raízes, constrói-se a levá-las a sério. Nascemos em Portugal, no coração da tradição têxtil europeia, e é essa origem que nos abre mercados: produzimos localmente e apostamos na rastreabilidade, mostrando de onde vem cada fio. É essa transparência, mais do que qualquer campanha, que faz confiar em nós um parceiro em Tóquio como um em Lisboa.
Se pudesse voltar ao momento em que decidiu deixar uma multinacional para assumir a Hoooked, o que diria hoje à Cristina que estava prestes a dar esse primeiro passo?
Dir-lhe-ia para confiar mais na intuição e menos no medo — sem confundir intuição com falta de plano. Diria também que os 20 anos de retalho, a conhecer lojas e cadeias de fornecimento por dentro, não foram um desvio: foram o treino perfeito. Nada substitui construir algo alinhado com os nossos valores. O resto aprende-se pelo caminho; a coragem do primeiro passo, essa sente-se.
Que mensagem gostaria que outras mulheres levassem consigo antes de decidirem escrever a sua própria história de empreendedorismo?
Gostaria que outras mulheres soubessem que não têm de caber em nenhum molde — nem “empreendedora só coração”, nem “executiva só números”. As duas cabem na mesma pessoa, e essa é a vossa vantagem, não uma contradição a resolver. O mundo precisa de empresas que integrem resultados com propósito e a vossa bagagem é um ativo. Comecem pequeno, rodeiem-se de pessoas melhores do que vocês, e nunca abdiquem dos vossos valores.











