Como nasceu a Neurorradiologia portuguesa e qual a sua importância?
Portugal possui uma tradição científica de excelência nas Neurociências, sendo a Neurorradiologia uma das áreas mais diferenciadas. O seu desenvolvimento realça o legado da angiografia cerebral de Egas Moniz e consolidou-se há cerca de 46 anos com a criação do Núcleo Português de Neurorradiologia, embrião da SPNR, fundada em 1990. O reconhecimento da especialidade hospitalar, em 1981, e do respetivo Colégio pela Ordem dos Médicos, em 1989, marcou a afirmação da especialidade.
Hoje, alia diagnóstico e terapêutica minimamente invasiva, investigação, inovação e formação médica, com um papel central nas doenças vasculares, degenerativas e oncológicas do sistema nervoso em todas as idades. A evolução científica e tecnológica permite diagnósticos mais precoces, tratamentos menos invasivos e decisões precisas, reduzindo a incapacidade e melhorando a qualidade de vida.
O que distingue um serviço ou uma equipa de excelência em Neurorradiologia?
A excelência resulta de conhecimento científico, experiência clínica, tecnologia, investigação, formação contínua e trabalho multidisciplinar. A tecnologia só cria valor quando melhora os resultados dos doentes. Hoje, o neurorradiologista acompanha todo o percurso assistencial, dos exames de rotina e diagnóstico precoce à monitorização da resposta e ao seguimento, integrando informação clínica, imagiológica, laboratorial e, cada vez mais, molecular e genética, contribuindo para a avaliação do prognostico e a correta atitude terapêutica. Mas a qualidade mede-se pela rapidez no acesso ao diagnóstico e tratamento, segurança, recuperação funcional, satisfação dos doentes e utilização responsável dos recursos.
Atualmente, quais os maiores desafios científicos e tecnológicos da especialidade?
Vivemos uma grande transformação na história da Medicina. A Inteligência Artificial, a imagem quantitativa, os biomarcadores e a Medicina de Precisão estão a mudar o diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos doentes. O desafio é integrá-las de forma crítica, ética e baseada na melhor evidência científica.
A IA não substituirá o médico; poderá ampliar a capacidade de identificar padrões precoces, integrar informação complexa, apoiar decisões mais rápidas e personalizar tratamentos. Contudo, permanecerão insubstituíveis o pensamento crítico, a experiência clínica, a responsabilidade ética e a relação humana com o doente. Importa também demonstrar que a inovação gera verdadeiro valor: menos mortalidade, incapacidade, complicações e internamentos, melhor qualidade de vida e maior sustentabilidade. A inovação só é progresso quando melhora efetivamente a vida das pessoas.
Como a Neurorradiologia contribui para um sistema de saúde mais eficiente e sustentável?
A Neurorradiologia demonstra que excelência clínica e sustentabilidade podem caminhar lado a lado. Diagnósticos precoces, decisões terapêuticas mais rigorosas e tratamentos minimamente invasivos podem melhorar os resultados e evitar incapacidade, internamentos prolongados e utilização desnecessária de recursos. O exemplo mais claro é o acidente vascular cerebral (AVC), uma das principais causas de morte e de incapacidade adquirida no adulto em Portugal. Durante um AVC isquémico não tratado, perdem-se cerca de 1,9 milhões de neurónios por minuto: “Time is Brain”. A organização da Via Verde do AVC, associada ao acesso rápido à imagem, trombólise e trombectomia mecânica, alterou profundamente o prognóstico destes doentes. Investir em Neurorradiologia significa investir em equipas diferenciadas e conhecimento capaz de gerar valor para os doentes, famílias e sociedade.
“Investir em Neurorradiologia significa investir em equipas diferenciadas e conhecimento capaz de gerar valor para os doentes, famílias e sociedade”
Como avalia o posicionamento internacional da Neurorradiologia portuguesa?
A Neurorradiologia portuguesa, pela sua singularidade, conquistou reconhecimento internacional assente na excelência clínica e formativa, investigação e capacidade de inovar. A presença crescente de especialistas portugueses em cargos de responsabilidade nas principais sociedades científicas internacionais reflete a qualidade nacional. Os neurorradiologistas portugueses coordenam cursos nacionais e internacionais, participam na elaboração de recomendações clínicas, colaboram em investigação multicêntrica e contribuem para a evolução da especialidade. Este percurso resulta do investimento continuado na diferenciação profissional e da colaboração entre hospitais, universidades e centros de investigação nacionais e estrangeiros.
Portugal tem condições para continuar a afirmar-se internacionalmente. O desafio é consolidar esta posição, apoiar as novas gerações e garantir que o conhecimento e o reconhecimento científico se traduzem em melhores cuidados para os cidadãos.
O que gostaria de deixar para o futuro da Neurorradiologia em Portugal? Que legado espera que as atuais gerações de especialistas construam?
O futuro constrói-se sobre o legado de quem teve visão e coragem de criar esta especialidade. É um dever recordar o Dr. Paulo Mendo e todos os fundadores da Neurorradiologia portuguesa, cujo contributo científico, humano e institucional nos inspira. Honrar esse legado significa preparar o futuro: uma Neurorradiologia inovadora, colaborativa e centrada nas pessoas, capaz de incorporar responsavelmente os avanços científicos e tecnológicos, transformando-os em diagnósticos mais precoces, tratamentos mais eficazes, menor incapacidade e melhor qualidade de vida.
É neste percurso que assume particular significado uma conquista recente, por proposta da Sociedade Portuguesa de Neurorradiologia: o reconhecimento, pela Ordem dos Médicos, através do seu Bastonário, Dr. Carlos Cortes, do Dia Nacional da Neurorradiologia, a celebrar anualmente a 3 de outubro, data do nascimento do Dr. Paulo Mendo. A iniciativa teve ainda um excelente acolhimento da Sociedade Europeia de Neurorradiologia e será assinalada este ano no Congresso Europeu.
Mais do que assinalar uma data, o Dia Nacional da Neurorradiologia pretende aproximar a especialidade da sociedade e dar a conhecer o seu papel no diagnóstico e tratamento do AVC, doenças neurodegenerativas, cancro e patologias da coluna. É também uma forma de homenagear os pioneiros, reconhecer os profissionais de hoje e inspirar as novas gerações. Esse é o legado que desejamos: honrar a história, cuidar melhor no presente e preparar a Neurorradiologia do futuro.
“Por proposta da Sociedade Portuguesa de Neurorradiologia: o reconhecimento, pela Ordem dos Médicos, através do seu Bastonário, Dr. Carlos Cortes, do Dia Nacional da Neurorradiologia, a celebrar anualmente a 3 de outubro, data do nascimento do Dr. Paulo Mendo. A iniciativa teve ainda um excelente acolhimento da Sociedade Europeia de Neurorradiologia e será assinalada este ano no Congresso Europeu”










