“O Brexit trouxe novas oportunidades para Portugal”

Rui Almeida é o chairman da Câmara do Comércio Luso-Britânica, responsável por ajudar os empresários portugueses e ingleses no desenvolvimento dos seus negócios, através de várias atividades de networking e formação, bem como do acompanhamento a feiras e na realização de missões comerciais. Com a saída do Reino Unido (RU) da União Europeia, as relações económicas terão de se adaptar, mas Rui Almeida vê nisso uma oportunidade para estreitar ainda mais os laços económicos entre Portugal e Reino Unido.

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Inglaterra e Portugal são países que, desde sempre, foram parceiros, quer política, quer economicamente. Como caracteriza esta relação de séculos e como a descreveria, nos dias de hoje?

Portugal e Inglaterra são nações marítimas, voltadas para o Atlântico. Essa afinidade geográfica influenciou a nossa conceção partilhada de uma Europa expansionista. Portugal acusou sempre uma maior dualidade entre a pressão continental e as possibilidades que o oceano oferecia, exigindo um compromisso constante. Mas a visão da política externa e de segurança foi e continua a ser um terreno comum e de indiscutível ligação. No plano económico, as relações comerciais bilaterais são muito próximas, sublinhando-se a sua resiliência, independente das circunstâncias conjunturais, sendo que Portugal disfruta de um superavit comercial. O RU continua a ser um parceiro vital no comércio internacional português; o nosso oitavo mais importante fornecedor e o quarto maior mercado de destino de exportações de bens.

Portugal e Inglaterra podem desenvolver ainda mais esta parceria?

Sem dúvida. Os desafios que se apresentam à diplomacia e à economia britânica, designadamente no seu relacionamento com os países da UE, levarão a que sejam abertas oportunidades para convergir e acentuar os laços entre as duas nações. Um exemplo disso é a agenda das alterações climáticas e da sustentabilidade, onde o RU tem tido um papel muito ativo, sendo este um campo em que Portugal pode e deve almejar ter uma voz ativa e de liderança na UE.

Quais as principais áreas económicas em que Portugal e Inglaterra colaboram?

Ao nível das exportações para o RU destacam-se as máquinas e aparelhos, veículos e outros materiais de transporte, metais comuns, vestuário e produtos alimentares. Mas existem outros nichos de oportunidade de negócio a explorar pelas empresas portuguesas. A relevância do RU enquanto país de origem e de destino de investimento direto estrangeiro é inquestionável. No final de 2019, o RU era o quinto maior investidor direto em Portugal, com mais de 10 mil milhões de euros, sendo o 12º destino do investimento português no exterior, com quase dois por cento do total de investimento.

Considerando a questão do Brexit e o consequente acordo comercial que se seguiu, que análise faz da situação atual?

O novo contexto implica alterações profundas na estrutura e modelos de negócio com o RU. As oportunidades continuarão a existir, sendo ainda assim exigível flexibilidade e capacidade de adaptação para responder ao novo contexto. Exemplo disso é uma clara viragem para o e-commerce, um canal de vendas que as empresas portuguesas devem considerar. O e-commerce deve ser integrado na estratégia de internacionalização das empresas quando abordam o mercado do RU, facilitando o seu acesso com custos mais baixos e permitindo efetivar vendas e negócios de forma rápida e ágil.

Como pode a Câmara do Comércio Luso-Britânica ajudar os empresários dos dois países a continuarem a desenvolver os seus negócios?

A Câmara de Comércio Luso-Britânica tem como objetivo a promoção dos interesses dos seus associados relativamente às relações comerciais entre o Reino Unido e Portugal. Devido ao nosso alcance internacional e transversal aos diferentes setores económicos e ao poder do conhecimento de nossos membros, somos capazes de falar com uma perspetiva abrangente e multidisciplinar em todos os assuntos de negócios. A diversidade de atividades e serviços que promovemos tornou-se uma imagem de marca da nossa Câmara. Formação, workshops, seminários, business breakfasts, encontros de networking, acompanhamento das empresas em feiras e desenvolvimento de missões comerciais estão entre os mais visíveis e recorrentes.

Quais os principais desafios que a relação Portugal-Inglaterra enfrentará, a nível económico, nos próximos tempos?

O RU anunciou recentemente um plano de recuperação económica – o “Build Back Better”. Este plano estratégico irá guiar o desenvolvimento da economia britânica, suportado nos pilares de infraestruturas, competências e inovação, em direção a uma economia verde. Existe também real potencial para compatibilizar os objetivos estratégicos de desenvolvimento da economia britânica e as competências dos recursos e empresas portuguesas na área da inovação. Portugal pode ser um destino preferencial para o investimento britânico, no acesso ao mercado único e enquanto país amigo do investimento estrangeiro.

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